Parece estar para durar a desavença que opõe a Câmara Municipal de Setúbal ao Vitória Futebol Clube. Onze dias depois de a autarquia ter realizado uma conferência de imprensa a propósito do corte de relações com a direcção do clube, ontem foi a vez de Fernando Oliveira, presidente dos vitorianos, responder à edil Maria das Dores Meira.

Em conferência de imprensa realizada no Estádio do Bonfim, o dirigente garantiu que não se vai “ajoelhar” perante a Câmara para promover o reatamento de relações institucionais. “Enquanto aqui estiver, o Vitória não se põe de joelhos com ninguém. Temos imensas dificuldades, mas não nos pomos de cócoras a prestar vassalagem seja a quem for”, afirmou.

Fernando Oliveira refutou ainda uma afirmação feita a 20 de Novembro pela presidente da câmara, Maria das Dores Meira, segundo qual a autarquia ajudou o clube a inscrever a equipa profissional na I Liga de futebol na presente época. “A Câmara Municipal tem oito por cento da SAD. As ajudas foram zero. Quem arranjou um cheque de um milhão de euros para pagar nas Finanças foi o Vitória. Não foi nenhum empresário, mecenas ou instituição. Foi o clube através do contrato que mantém com um seu patrocinador. A Câmara não teve nenhuma interferência. Esta é a verdade nua e crua: foi o Vitória que arranjou o dinheiro para ter as certidões e inscrever a equipa”.

O dirigente negou as acusações de “falta de lealdade e ataques constantes” apontadas pelo executivo camarário para o corte de relações com o clube e questionou o sentido de oportunidade da conferência de imprensa de Maria das Dores Meira. “A senhora presidente achou por bem corresponder a esta prova de lealdade – seriedade e sabedoria, acrescentamos nós – com o agendamento de uma conferência de imprensa precisamente para o dia do 105.º aniversário do Vitória”, lembrou.

Em relação ao apoio de seis milhões de euros que a Câmara revela ter atribuído ao clube entre 2002 e 2014, o presidente dos vitorianos lembrou que foi eleito em 2009 e garantiu que “alguns temas constantes do programa não foram concretizados, pese embora o tempo decorrido”. Como exemplo, Fernando Oliveira afiançou que “há três anos que o programa de apoio às modalidades amadoras não é pago” e considerou “ridículo colocar a quotização que decorre da condição de associado e cativação de camarote entre os apoios financeiros”.

O dirigente colocou várias questões que gostaria de ver respondidas pela autarquia numa altura em que o concelho setubalense se prepara para ser anfitrião da “Cidade Europeia do Desporto 2016”. “O relvado sintético anunciado pela senhora presidente, com pompa e circunstância, durante o seu discurso no 103.º aniversário do Vitória FC, em Novembro de 2013. Vai ser uma realidade? Se sim, quando? Alteração de PDM/Vale da Rosa/direito de superfície do Estádio do Bonfim, denominado projeto “Vitória Século XXI”, vai ser alterado? Se sim, quando? A localização do museu do Vitória no Palácio Salema vai ser uma realidade? Se sim, quando? A requalificação do Estádio do Bonfim de acordo com o pré-projeto existente vai ser uma realidade? Se sim, quando? Setúbal “Cidade Europeia do Desporto 2016” prescinde do contributo do Vitória Futebol Clube? Sim ou não?”, perguntou o dirigente.

Apesar do atual afastamento entre a Câmara e a direção do Vitória, Fernando Oliveira admitiu que ambas as instituições têm muito a ganhar com o normal reatar das relações. “Não conseguimos sequer admitir, por via do peso social, cultural e desportivo do Vitória e dos seus 105 anos de existência como bandeira da cidade de Setúbal, outro cenário que não seja o de uma aliança profícua, duradoura e, principalmente, estável entre a câmara e o clube”, finalizou.

Recorde-se que a origem do corte de relações institucionais, transmitido por carta endereçada pela autarquia à direcção do clube há dois meses, está o facto de a direcção do Vitória ter iniciado as obras de requalificação da Sala de Troféus Josué Monteiro, no Estádio do Bonfim, sem a devida aprovação prévia.