O presidente da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS) e da Associação de Portos de Portugal (APP) realça a importância do papel da infra-estrutura portuária no distrito e revela os projectos que devem ser concluídos num futuro próximo

Como tem decorrido o seu trabalho como presidente do porto de Setúbal nos últimos três anos?

Estes três anos permitiram colocar em prática a visão integrada da moderna gestão de portos que vai muito além da mera movimentação de cargas, passando pelo papel de facilitador de soluções logísticas na cadeia de abastecimento, pelo desenvolvimento da economia da região e contributo para a criação de emprego, pelo florescimento da economia do mar e do turismo, pela responsabilidade social do porto na protecção do ambiente e promoção da qualidade de vida das populações, numa moderna relação porto-cidade. O porto não deve ser um poder per si, mas um facilitador e regulador do florescimento da vida no Mar…

… A estratégia passou pela afirmação da infra-estrutura portuária.

Pela afirmação da grande importância do porto de Setúbal na região e a nível nacional e Ibérico, que é merecida mas não estava divulgada, tendo como suporte o papel relevante da Comunidade Portuária de Setúbal e a relação com os municípios. Passou ainda pela demonstração da compatibilidade e importância para o emprego das funções da economia do Mar no Sado ligadas às cargas, indústria e logística, por um lado, e pelas áreas protegidas, turismo, pesca, aquacultura, náutica e lazer urbano-ribeirinho, por outro, apostando no desenvolvimento de todas estas frentes de forma harmoniosa nos espaços mais adequados.

Qual foi a principal aposta, em termos de projectos?

A aposta foi para projectos de pequena dimensão, com investimento público reduzido, mas com forte impacto na economia e no emprego da região. É o caso da expansão do terminal de veículos ligados à Autoeuropa e o prolongamento da concessão por mais 15 anos, a melhoria dos acessos marítimos em mais 2 metros para o porto ser competitivo nos navios de média dimensão, os arranjos na zona ribeirinha de Setúbal junto à doca de pesca, cais 2, cais 3 e doca das Fontainhas, facilitando o contacto das populações com o rio, a atracção de mais esplanadas e eventos para a zona, como são exemplos o Yelowbus, a semana do Mar com a Sagres, Creola e Vera Cruz e o concurso que está a ser aberto para trazer serviços e esplanadas a todo o edifício amarelo do cais 3.

Importa ainda passar a área a nascente da doca de pesca, sem uso portuário, para a gestão do município, o que já propusemos ao Governo.

Na vertente portuária de cargas, a aposta foi realizada na elevada satisfação do cliente e enfoque nas suas necessidades logísticas, contribuindo para soluções adaptadas e de qualidade que tornem o porto mais eficaz e competitivo.

Em que se distingue o porto de Setúbal de outras infra-estruturas portuárias?

O porto de Setúbal é distinto dos portos de Lisboa e Sines, por exemplo, sendo um porto exportador shortsea e de hinterland, merecendo uma gestão local autónoma e muito apostada no desenvolvimento natural do seu potencial, embora articulado e coordenado com os restantes portos do Sul. O terminal de contentores é a âncora do desenvolvimento da economia da região, ligado à indústria e às zonas logísticas da Sapec e Aicep Global Parques. Palmela e Setúbal são o 2.º e 4.º maiores concelhos exportadores e industriais do País, sendo necessário reforçar cada vez mais esta posição distinta no Distrito de Setúbal. O porto de Setúbal passou de 20% de exportações para 70% de exportações em 2014 e cresceu 20% na carga em 2013 e 20% em 2014, tem atraído cada vez mais linhas regulares de contentores, onde circulam as cargas mais valiosas e criadoras de emprego. É hoje o 2.º maior porto na ferrovia com 34% do número de comboios, cerca de 22 comboios diários, estando a desenvolver trabalhos com a I.P., Infra-estruturas de Portugal, para a quase duplicação da capacidade ferroviária do porto.

A nível nacional, a APSS está a desenvolver o projecto da Logistic Single Window com os restantes portos e lidera um projecto de inovação no LNG para navios e portos, o futuro no Mar.

A APSS iniciou também uma campanha de divulgação das suas áreas de expansão… …Portuária e logística de 3km e 90ha a nível internacional, “Port of Setubal Plus: The South of Lisbon Gateway”. E começou uma campanha de atracção de armadores de cruzeiros que pensamos deverá dar frutos nos próximos 2 anos, tendo ainda estudado com o município se Setúbal soluções integradas para a futura Marina. A APSS apoiou ainda os clubes náuticos, as associações de pesca e o desporto em Setúbal e Sesimbra.

Em Sesimbra, a APSS apoiou a criação da nova unidade industrial da ArtesanalPesca e procedeu à manutenção regular de cais, escadas, passadiços flutuantes, terraplenos e dos molhes de protecção, garantindo o funcionamento adequado do maior porto de pesca do País, sem esquecer o recreio e o mergulho, numa excelente relação com o município.

O que será necessário fazer no Porto de Setúbal nos próximos três anos?

No mundo dos portos e infra-estruturas de transportes, os grandes investimentos e projectos demoram entre 5 a 10 anos a serem concretizados. Os projectos iniciados desde 2013 e 2014 vão ter o seu desenvolvimento durante os anos de 2015 a 2017, sendo necessário continuar e concluir os trabalhos e obras iniciadas nos últimos três anos.

Para o futuro é fundamental garantir a autonomia da gestão do porto de Setúbal e da sua comunidade portuária que é distinta dos outros portos. Interessa prosseguir o desenvolvimento do projecto “Port of Setubal Plus: The South of Lisbon Gateway”. Importará ainda finalizar as obras com a I.P. de duplicação da capacidade ferroviária na zona central do porto, no segundo porto ferroviário do País.

Será importante iniciar a ampliação do terminal VW para nascente, prevendo a necessidade de mais espaço para a produção programada de um novo modelo automóvel na Autoeuropa. Também realizar a manutenção profunda dos cais Tersado, Termitrena e Teporset, para terem mais capacidade para o futuro e montar mais dois novos pórticos no terminal de contentores, para chegarmos aos 10 milhões de toneladas e 250 mil TEU.

Em 2016, será necessário estudar em termos técnicos e económicos, com algum detalhe, o projecto da Marina de Setúbal e lançar uma campanha internacional para divulgação a potenciais investidores,

Importa dar um novo impulso ao florescimento do turismo marítimo, da pesca e da aquacultura de qualidade no Sado, como marca distintiva de elevada qualidade e fazer a ponte-cais 4 no porto de Sesimbra para melhorar o ordenamento de actividades neste porto.

Quer identificar as principais obras projectadas para o futuro próximo no Porto de Setúbal e qual o seu calendário?

As grandes obras projectadas são a melhoria dos acessos marítimos do porto, a realizar no final de 2016; a ampliação da área de estacionamento do terminal de contentores em 2016/17; a requalificação do viaduto da Cachofarra em 2016; a reparação do Terminal Multiusos zona 1, a modernização da ferrovia de acesso à zona central do porto, a realizar em 2016/17. A aquisição de nova lacha de pilotagem, em 2016/17, a continuação do ordenamento da área da doca de pesca, com a criação de mais lugares para embarcações marítimo-turísticas, em 2015/16, a melhoria da envolvente da doca de pesca, 2016, ordenamento do porto de Sesimbra 2016/18, requalificação da envolvente da doca das Fontainhas e área nascente 2016/2018.

Tem defendido uma gestão integrada dos portos nacionais mas sem anular a autonomia identitária de cada porto. Como é que isso se pode fazer?

A fusão simples e imediata de Administrações Portuárias de portos nacionais principais e semelhantes, como é o caso de Setúbal, com comunidades portuárias distintas e concorrentes não é aconselhável sem equilibrar poderes, garantir autonomia, eficiência local, estruturas distintas e garantir a concorrência comercial e de estratégias e soluções logísticas.

Sou favorável a uma entidade nacional que faça a coordenação de acções a nível nacional. A solução espanhola de compromisso dos Puertos del Estado poderia ser uma solução. Sou favorável a uma gestão coordenada a nível regional, que de forma gradual se vá intensificando ao longo dos anos e respeite a autonomia, o desenvolvimento e os interesses de cada porto e de cada comunidade portuária e região.

A relação da APSS com o município de Setúbal mostra grande dinâmica no terreno, com projectos comuns e alterações significativas da paisagem ribeirinha da cidade. O que tem motivado essa aparente mudança, as pessoas ou as circunstâncias?

As pessoas são sempre importantes. Mas mais do que as pessoas, tem sido a vontade das estruturas da APSS e da Câmara Municipal, que têm reunido semanalmente com grande vontade de fazer coisas em comum pela cidade e a região.

O que pretendo é que essa dinâmica se entranhe e fique independente das pessoas e das suas vontades, uma vez que é um requisito da modernas administrações portuárias terem uma relação adequada de colaboração com os municípios, única forma de se desenvolver o porto e a cidade.

Como presidente da Associação dos Portos de Portugal (APP), que balanço faz a estes últimos anos?

O objectivo primordial para os portos deve ser permitir à economia portuguesa exportar mais e mais barato, de forma mais fácil e amiga da logística do cliente, para criar emprego e empresas competitivas. Outro objectivo é servir Espanha, não para facilitar a vida aos espanhóis, mas para ganhar massa crítica e hinterland marginalmente que permita ter economias de escala. Ainda outro objectivo é ter pelo menos um Hub de transhipment que também permita ganhar massa crítica e acrescentar valor à carga de passagem, atraindo navios maiores e mais baratos com escalas directas a todo mundo.

O PETI 3+, onde como presidente da APP tive um papel muito relevante, veio trazer ordem de longo prazo à mudança dos custos de contexto da economia portuguesa para exportar por via marítima: ao apostar nos portos como nunca foi feito, garantindo mais investimento privado. Em 2013 e 2014, tivemos um crescimento muito significativo dos portos de mais 22% em toneladas e mais 40% em contentores.

PERFIL

Matemático de excelência

Vítor Caldeirinha nasceu e cresceu em Setúbal e considera a família como um pilar fundamental. “Ainda hoje a minha base é a família”, sublinha. Quanto ao percurso académico, revela que foi “sempre um bom aluno”. “Em especial a matemática, no colégio Sant´Ana e no Liceu em Setúbal. Fiz o curso de economia no ISEG e passei pela gestão dos fundos comunitários. Entrei na APSS por concurso público em 1994”, conta.

Seguiu-se uma Pós-Graduação em Gestão Portuária e o MBA/Mestrado em Gestão no ISEG, onde ganhou o prémio para a melhor nota. “Completei os estudos na Universidade de Évora, concluindo o Doutoramento em Gestão Portuária Aprovado com Distinção”, lembra.

A par disso, também tem veia literária. “Além de um livro de ficção sobre as origens seculares do porto de Setúbal, publiquei três livros sobre gestão portuária, muitos artigos técnicos portuários e alguns artigos científicos-portuários em revistas internacionais de primeiro nível, com revisão por pares.”

Foi presidente da ADFERSIT, a associação nacional para a defesa dos sistemas integrados de transportes, consultor económico de empresas e dá aulas de Gestão Estratégica Portuária e Logística em diversas universidades, sendo um dos responsáveis pelo curso de Gestão Portuária do ISEG.

Na APSS, foi chefe de divisão de Planeamento, Director de Estratégia e Logística, e foi Director Comercial em 2003/04 na APL, Administração do Porto de Lisboa.