Corrosivo nas críticas ao presidente da Câmara, o vereador comunista, Carlos Jorge Almeida, considera que o Montijo está pessimamente servido. Fala de mitomania política do socialista e diz-se envergonhado por alguns comportamentos de Nuno Canta

Numa das últimas declarações políticas que apresentou em reunião de câmara, classificou Nuno Canta como mitómano…

A mitomania tem um carácter patológico. Falámos em mitomania política para que não houvesse qualquer dúvida.

Qual a diferença?

É toda. É a utilização de várias formas de actuação e intervenção na acção política.

Mas considera ou não mitómano o presidente da Câmara?

Politicamente é um homem cuja escola e intervenção conheço muito bem, porque já tive oportunidade de analisar em tempos em Setúbal, onde um outro homem da mesma escola, formado aqui na intervenção autárquica, Mata Cáceres, tinha também amiúde, algumas formas similares de intervir… Vejo aqui uma tentativa permanente de utilização de termos, de ideias, de raciocínios, que são levantados noutras latitudes, noutros sítios, por outras personagens, e que são assumidos pelo presidente da Câmara como sendo seus. Acho isso absolutamente lamentável. É uma falta de agenda, é uma procura constante daquilo que parece que faz moda em cada momento e traduz uma forma de ser e estar na política de quem não tem um projecto concreto, palpável. Há um processo de gestão, mas não há um projecto, uma ideia-base, um objectivo a concretizar. Essa necessidade de gerir apenas por gerir faz com que tenha de se atribuir a essa gestão um fundamento, uma ideia, um objectivo…

Quando se fala de mitomania, fala-se de um mentiroso compulsivo…

… Não é mentiroso, mas falta muito à verdade.

Como classifica o facto de muitas das reuniões do executivo municipal terem ficado marcadas por troca de insultos entre os eleitos das bancadas?

O que é que vemos nas reuniões? O presidente tem um conjunto de vícios, pela escola autárquica onde aprendeu, que são condenáveis. Muitas das vezes fala de si próprio como se fosse outra pessoa. Distancia-se de si próprio. Depois, tem uma falta de sentido de estado absolutamente abominável. Atreve-se a utilizar a ironia, o achincalhamento, a troça sobre as pessoas, até a ofensa pessoal, tendo inclusivamente dito já várias vezes ao vereador do PSD “você não é um homem sério, não está aqui a fazer nada…”, utilizando uma linguagem de café, de rua, que não pode ser utilizada no plano institucional. Depois é um indivíduo extremamente autoritário. Na relação com os próprios cidadãos, que vão expor dúvidas e críticas, já têm havido também situações que nos envergonham.

A troca de insultos tem sido de parte a parte. Não sente nenhuma responsabilidade nessas reuniões “tumultuosas”?

Não sinto, porque acabamos por reagir à acção de quem tem obrigação estrita de dirigir a reunião. Chega a uma altura em que é completamente intolerável. O presidente da Câmara não tem noção dos limites, daquilo que não pode ultrapassar. Considero que o Montijo, quer do ponto de vista do conteúdo, mas sobretudo do ponto de vista da forma, está pessimamente servido. Isto é do pior que há em termos do respeito institucional pelos outros órgãos. Basta ver a relação que tem até com a presidente da Assembleia Municipal.


‘Achamos aviltante essa forma de ser e estar na política’

O presidente da Câmara chegou a acusar a CDU de corrupção no Montijo. Que comentário lhe merece?

Essa é uma forma de ser e estar na política que achamos aviltante. À força de tanto falar em corrupção, cria-se nas pessoas a convicção de que ela existiu. Perguntámos directamente ao presidente onde existiu essa corrupção. Estava ele a falar de quê? Provavelmente de Jacinta Ricardo, a mulher que geriu os serviços da Câmara, enquanto presidente numa gestão CDU, que tomou decisões do ponto de vista daquilo que era o pagamento de salários através da afectação de verbas, que vinham dos fundos europeus e que, portanto, não podiam ser gastas noutro lado, mas que ela resolveu utilizar para pagar aos trabalhadores, retirando, mais à frente, também verbas à Segurança Social para o mesmo efeito. E perguntámos ao presidente se era isso a corrupção de que falava ou se era outra coisa. O presidente respondeu que, afinal, não estava a falar bem disso.

Ou seja: uma das coisas que notei mais, quando comecei a intervir aqui no Montijo, é que por parte da gestão havia esta ameaça permanente sobre uma questão que toda a população viveu e soube e sobre a qual também tomou as suas conclusões, acabando por censurar eleitoralmente a CDU. E depois houve todo aquele assassinato de personalidade em torno de Jacinta Ricardo, enquanto mulher, que a debilitou, debilitando a sua própria saúde…

O que mais notou, além disso?

Também notei e noto que, independentemente dessa censura que foi feita nas urnas, há hoje, em relação a Sérgio Pinto, a Acácio Dores e a Jacinta Ricardo, uma noção por parte das pessoas, de todos os horizontes político-partidários, desde a direita até esquerda, de grande respeito, de grande compreensão e de que foi feita obra. Isso é muito acalentador.

Essa acusação de Nuno Canta não levou a CDU a interpor uma acção em tribunal?

Não, porque o presidente da Câmara recuou imediatamente. Nunca mais ouviu falar em corrupção, pois não? Pois…


‘Requalificação foi apenas uma lavagem de cara’

Como analisa a obra de requalificação do Mercado Municipal?

A obra fala por si. O Mercado acabou por ter uma intervenção que limou alguns aspectos que não estavam adequados. Tive oportunidade de fazer uma visita ao Mercado com o vereador do PSD, Pedro Vieira, que me apontou as questões que ele próprio enquanto profissional [arquitecto] entendia que deveriam ter sido corrigidas já depois da obra concluída, para as quais ele já havia alertado em devido tempo a Câmara. Apesar de ter deixado o Mercado um pouco melhor, foi apenas uma lavagem de cara, com repercussão financeira.

A Câmara continua à espera dos fundos de comparticipação que anunciou ter conseguido recuperar?

O que a lei obriga é que se houver uma entrada financeira na câmara seja feita uma revisão orçamental e a revisão não foi feita a nenhum orçamento. Significa isto que esses recursos financeiros ainda não chegaram e que mais tarde ou mais cedo vamos perguntar o que se passa.

O presidente fez uma candidatura, porque todos os municípios que tinham projectos que haviam sido rejeitados foram solicitados a apresentá-los outra vez já que ainda haviam recursos financeiros. Apresentou essa candidatura e assim que o fez apresentou-a como tendo tido vencimento… Isto significa também que a mitomania mais uma vez se revelou.

Há possibilidade de essa comparticipação poder vir a falhar?

Não queria pensar isso. Prefiro pensar que existem dificuldades financeiras e que a quantia está a demorar a chegar.

Que obra reconhece à actual gestão socialista da Câmara neste mandato?

A gestão socialista tem a seu favor a obra do Mercado, que finalmente foi feita, e tem a apresentar, no essencial e como “coisa grossa”, o apoio que deu para que a ADREPES e a SCUPA fizessem um cais aberto aos pescadores…


Disponível mas ainda não é candidato

Acha que tem agora mais condições para bater Nuno Canta, nas próximas Autárquicas?

Considero que sim, enquanto vereador. Considero que há necessidade urgente de alteração qualitativa daquilo que se passa do ponto de vista autárquico, que é muito pequeno, muito ínfimo, reduzido, para aquilo que os montijenses merecem. Há todas as condições para ganhar as eleições, porque a consciência colectiva se alterou.

E Carlos Jorge de Almeida sente condições para poder voltar a avançar?

Sou um militante do PCP, sempre disponível para qualquer intervenção ou tarefa desde que a minha saúde o permita


Terminal de contentores assentaria melhor no Barreiro

Como vê a anunciada fusão das administrações do Porto de Setúbal com o de Lisboa?

Não podemos analisar esta matéria de um ponto de vista sectorial. A importância dos dois portos é muito grande. Sabemos que tem havido dificuldades em termos da administração e da ocorrência, muitas das vezes até de relações complicadas com municípios. Tem de ser tudo pensado, estruturado, à luz daquilo que são os interesses da Área Metropolitana e não apenas de Lisboa. Penso que esta solução não respeita a autonomia dos portos de Setúbal e Sesimbra nem uma visão nacional integrada..

E quanto ao novo terminal de contentores? Acha que pode fugir do Barreiro para Setúbal?

Deixo essa questão para ser comentada pelos meus camaradas com responsabilidades concelhias e regionais.

Não lhe parece que temos aqui um conflito de interesses? A opção pelo Barreiro que estava muito adiantada pode vir a concretizar-se em Setúbal, capital do distrito que é também gerida pela CDU.

O que nós queremos é que a colocação dos contentores seja aquela que em termos ambientais e em termos da qualidade do território, compatibilize a existência de contentores e a área ribeirinha com as actividades portuárias que assumam um papel estratégico no funcionamento e dinamização da economia  …

… Mas é pelo Barreiro ou por Setúbal?

Não tenho preferência pessoal. Sou a favor de uma localização que possa resolver duas coisas: primeiro, que, ambientalmente, não constitua uma agressão; segundo, que permita também reabilitar uma área, uma zona em concreto. Sei que, por exemplo, no Barreiro poderiam ter essa capacidade, até porque o Arco Ribeirinho passava por dar utilização a um conjunto de infra-estruturas que a desindustrialização e o passar do tempo deixou completamente obsoletas e que têm de ser resolvidas. Em Setúbal, digo-lhe com verdade, não conheço a localização sugerida.


Primeira parte da entrevista