Declaração dura de Carlos Jorge de Almeida (CDU), levou o socialista a reagir por impulso e a assumir que irá votos nas próximas eleições, passando por cima da aprovação dos órgãos concelhios

“Terá de esperar pelas próximas eleições autárquicas e eu lá estarei a disputá-las” – foi assim que o presidente da Câmara Municipal do Montijo acabou por deixar escapar, em plena reunião pública do executivo camarário, na última quarta-feira, que se irá recandidatar ao cargo. O autarca do PS deixou-se trair pelo impulso, em resposta a uma declaração política do vereador da CDU, Carlos Jorge de Almeida, que teceu duras críticas às sucessivas gestões socialistas no município, já depois de se ter registado mais uma aturada discussão entre o presidente e o vereador do PSD, Pedro Vieira.

Na declaração intitulada “A mitomania política II”, Carlos Jorge de Almeida acusou a maioria PS de “transmitir a falsa ideia de que algo está a mexer”, apontando vários argumentos, entre os quais um histórico da revisão do Plano Director Municipal (PDM), para sustentar a afirmação. “Década e meia depois o novo PDM, a sua essência, o esboço do ordenamento e gestão estratégica do território do ponto de vista e de planeamento do futuro eram nada”, disse o vereador da CDU, acrescentando: “Foi-se a assessoria e liderança do processo de revisão, na pessoa de Sidónio Pardal… e agitaram-se as águas para mostrar serviço.”

Carlos Jorge de Almeida prosseguiu nas críticas aos socialistas, acusando de seguida que já em 14 de Novembro de 2014 foi aprovada uma proposta de delimitação da Área Urbana (ARU) da cidade, “numa atabalhoada tentativa de silenciar a apresentação pela CDU de um programa municipal de reabilitação e regeneração urbana do concelho”, que tinha como horizonte temporal o ano de 2025.

Mais, o comunista acusou ainda a gestão de Nuno Canta de plagiar as ideias da CDU. “A gestão anunciou, depois de consulta às páginas ‘online’ dos municípios da Península de Setúbal – nova acção de ‘copy paste –, o projecto ‘Conversas no Bairro’, como novo instrumento de proximidade à comunidade para a revisão do PDM”, atirou, considerando que “a liderança autárquica [PS] copilou e desenvolve no Montijo todos os piores ‘tiques’ que caracterizavam a gestão de Passos Coelho e de Paulo Portas”.

“É a fixação pelos ‘cofres cheios’, esquecendo que só a circunstância de ter sido forçada pela CDU a governar em 2015 com o Orçamento de 2014 e de não ter obra contribuíram para a situação financeira actual”, justificou o comunista, que repudiou também o comportamento da autarquia em relação à possibilidade da vinda do aeroporto para o concelho – a CDU continua a defender um novo aeroporto e não a solução Portela + 1 na Base Aérea n.º 6 (BA6).

Presidente descai-se

Nuno Canta mostrou-se indignado com as críticas e logo na primeira reacção deixou escapar que irá recandidatar-se, ainda que uma candidatura pelo PS careça, de antemão, de aprovação no seio, nos órgãos concelhios, do partido, não obstante o socialista presidir também à Comissão Política Concelhia do Montijo. “Em resposta à sua declaração… terá de esperar pelas próximas eleições autárquicas e eu lá estarei a disputá-las. Sei que não observa estes ventos de mudança, mas como diz o povo ‘pior cego é aquele que não quer ver’. A sua declaração é de uma cegueira atroz”, respondeu o presidente da Câmara, passando depois ao contra-ataque.

“A CDU votou contra a implantação do aeroporto complementar na BA6 e terá de explicar aos montijenses porquê”, disse Nuno Canta, considerando que “o aeroporto pode ser um motor de desenvolvimento para os próximos tempos”. “Diria mesmo para os próximos séculos”, acrescentou o socialista, perante a estupefacção das bancadas da oposição. Carlos Jorge de Almeida interrompeu e ironizou: “Desde o Marquês de Pombal que não havia ninguém assim…”

O presidente da Câmara explicou, então, o porquê de considerar que o investimento venha a ter impacto significativo num futuro bem distante. “Aldeia Galega foi sempre uma terra de ligação a Lisboa e uma terra de transportes. Faz todo o sentido que tenha uma infra-estrutura que espelhe esse desígnio. Quem está contra isto, está contra o Montijo”, declarou, realçando que, a concretizar-se a instalação do aeroporto complementar na BA6, “Montijo irá afirmar-se com maior força na Área Metropolitana de Lisboa”. A concluir, Nuno Canta voltou a centrar-se nas próximas autárquicas. “Melhor do que a sua avaliação será a avaliação dos montijenses”, rematou.