Investimento de 250 milhões de euros, do empresário macaense David Chow, prevê resort com marina, hoteis, apartamentos e novas instalações para o Naval Setubalense. Américo Amorim pode entrar no negócio e integrar Casino de Troia no projecto

 

A zona da doca de recreio, onde está o Clube Naval Setubalense, vai receber um grande investimento, de 250 milhões de euros, do empresário macaense David Chow, num projecto turístico que pretende ligar Setúbal e Tróia, aproveitando a baía de Setúbal, que integra o clube das mais belas do mundo, e que passa pela construção de um resort integrado, na cidade sadina, e pela entrada no capital do Casino de Tróia, do grupo Amorim.

A empresa Macau Legend Development, que é um dos maiores operadores de jogo e entretenimento de Macau, com um volume de negócios de 350 milhões de dólares, e o Município de Setúbal, assinam hoje de manhã, em Macau, um memorando de entendimento para a concretização do resort, que inclui uma marina, dois hotéis, de cinco e quatro estrelas, vários espaços comerciais, culturais e desportivos, como um pavilhão gimnodesportivo, e blocos de habitações privadas.

A assinatura do memorando, marcada para as 10 horas de hoje (hora de Lisboa), foi confirmada ao DIÁRIO DA REGIÃO pela presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, que se encontra em Macau.

Maria das Dores Meira e David Chow assinam acordo hoje de manhã, em Macau. Setúbal é o terceiro destino de internacionalização da empresa Macau Legend, um dos maiores operadores do jogo na península de Macau

Maria das Dores Meira e David Chow assinam acordo hoje de manhã, em Macau. Setúbal é o terceiro destino de internacionalização da empresa Macau Legend, um dos maiores operadores do jogo na península de Macau

David Chow Kam Fai, fundador e presidente da Macau Legend, escusou-se, por enquanto, a responder às questões colocadas pelo DIÁRIO DA REGIÃO, por não ter sido ainda informada a Bolsa de Hong Kong, onde a empresa é cotada, mas uma fonte próxima do empresário confirmou o interesse em Setúbal.

“A Macau Legend tem todo o interesse em Portugal e particularmente em Setúbal”, disse a referida fonte, acrescentando que “os investimentos são sempre em resort integrado, com hotel, marina, zonas de entretenimento e outros equipamentos e, em Portugal e Setúbal, o modelo de interesse é o mesmo”.

O pré-projecto elaborado para Setúbal prevê ainda táxi marítimo e terminal de ferries, com o objectivo de articular a operação turística entre a cidade e a península de Tróia, onde se localiza o casino, do grupo Amorim Turismo, que o empresário macaense pretende integrar no investimento.

O DIÁRIO DA REGIÃO apurou que a Macau Legend está em negociações com a Amorim Turismo para participar na estrutura accionista do Casino de Tróia, detido pela Blue and Green, participada por Américo Amorim e pela Oxy Capital, através do Fundo Aquarius, e que o empresário português pode vir a ser parceiro do investimento na península de Setúbal.

Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo, disse ao DIÁRIO DA REGIÃO que “conhece o processo”, confirmou “conversações” com a Macau Legend, mas recusou fazer mais comentários sobre o projecto.

Segundo a presidente da Câmara de Setúbal, o investimento em Portugal tem “autorização do governo chinês” e está “a ser acompanhado” pelo governo português, com quem David Chow já se reuniu, em Lisboa.

O empreendimento, que será concretizado em duas fazes – a primeira, no valor de 150 milhões de euros, será a construção da marina, do hotel casino, dos apartamento e de novas instalações para o Clube Naval Setubalense (CNS) – representa o início de uma profunda transformação daquela zona da cidade.

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“É uma revolução que se vai operar na zona ribeirinha e este projecto vai ser uma âncora para renovar toda a zona de frente do rio, porque temos a certeza que a seguir a este investidor, virão outros”, diz Maria das Dores Meira.

Os terrenos para a implantação do novo complexo turístico são propriedade pública, sob administração portuária, mas a autarca garante que esse aspecto não constituirá impedimento ao negócio. “Há coisas por resolver, os terrenos de uso portuário têm de passar para domínio municipal, mas o Governo está a acompanhar as negociações e vai haver cedência de uso com toda a urgência, talvez em Julho ou Agosto.”, diz Dores Meira.

Além disso, o processo de abordagem e negociação com a empresa chinesa tem sido desenvolvido com base num dossiê preparado pelo município em conjunto com a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS).

O investimento em Setúbal é o terceiro grande projecto de internacionalização da Macau Legend, no espaço de um ano, depois da aquisição, em Maio, do casino Savan Vegas, no Laos, e do início da construção, em Fevereiro, no ilhéu de Santa Maria, em Cabo Verde, de um empreendimento turístico, no valor de 250 milhões de euros, idêntico ao agora previsto para Portugal.

Para a autarca sadina, este novo projecto vai projectar Setúbal como “destino turístico de renome mundial”. Dores Meira revela ainda que o município tem outros investimentos turísticos em curso, designadamente a construção de um hotel junto ao Forte de Albarquel, cujo pedido prévio “já deu entrada na câmara”, a recuperação do mesmo forte, que vão “começar em Setembro” e a hasta pública para utilização privada da Bateria do Outão, que “vai ser lançada”.

 

Naval recusa mudar de instalações

Na doca de recreio de Setúbal, local de implantação do investimento chinês, está instalado, desde 1934, o Clube Naval Setubalense, o segundo maior clube sadino (depois do Vitória Futebol Clube), com 94 anos de existência, dez mil associados e cerca de mil praticantes, sobretudo de modalidades ligadas à água e ao rio, como natação, vela ou canoagem.

O Naval é o possuir do espaço, vedado há muitos anos, onde se a dica, piscinas e um pavilhão gimnodesportivo.

O projecto prevê a deslocalização do clube, mas a autarquia garante que os associados não têm nada a temer, porque serão construídas, pelo promotor macaense, novas instalações para o Naval, a alguns metros das actuais.

“Os sócios do Naval podem ficar descansadíssimos”, assegura Dores Meira. A autarca acrescenta que o investidor macaense “vai dar uma sede nova para o Naval, descida para a água [acesso à utilização do rio], tudo novo”, e que a autarquia vai acompanhar a elaboração do projecto definitivo com uma equipa especificamente “criada para isso”.

Apesar destas garantias, a direcção do CNS não se mostra disponível para aceitar a deslocalização.

“Está fora de questão o clube sair daqui, do local onde se encontra desde 1934”, diz o presidente do Naval ao DIÁRIO DA REGIÃO. Hugo O’Neill acrescenta “desconhecer” o projecto, embora tenha já conhecimento da “ideia”. Segundo o dirigente, a eventual deslocalização “prejudica o clube” pelo que a direcção está em “completo desacordo” com essa hipótese e, “se assim for, o Naval é contra”.

Embora admita que o CNS não é o originário proprietário dos terrenos, e que paga uma renda pelo espaço, o presidente do clube defende que “há um direito adquirido pelo clube”.