Presidente da Câmara de Setúbal critica Ana Paula Vitorino e lembra que os socialistas há muito que defendiam marina para a cidade

As mais recentes declarações da ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, sobre o projecto da Macau Legend para a zona do Naval, em Setúbal, publicadas na edição de ontem do DIÁRIO DA REGIÃO, motivaram a reacção da presidente da Câmara Municipal. A ministra revelou, durante as Jornadas Parlamentares do PS, realizadas em Sesimbra no último sábado, que o Governo tem “as maiores reservas” quanto à criação de uma nova marina no território sadino. Ontem, a presidente da autarquia, Maria das Dores Meira reagiu, manifestando “preocupação” e considerando que o objectivo da tutela passa por criar dificuldades ao projecto para beneficiar o PS nas próximas eleições autárquicas.

“A preocupação municipal justifica-se pelo facto de todo o processo de preparação do memorando de entendimento entre a autarquia e a Macau Legend, o grupo empresarial macaense interessado na construção da marina, ter sido acompanhado de perto pela Administração do Porto de Setúbal, no âmbito do grupo de trabalho que junta as duas entidades”, começou por explicar a autarca ao DIÁRIO DA REGIÃO.

Dores Meira lembrou que a APSS conhece, desde o início do processo e sem que tenha colocado objecções, “todos os detalhes das trocas de informação com o grupo macaense que conduziram à assinatura de um memorando de entendimento” e sabe ainda, adiantou a autarca, que “o esboço do projecto divulgado publicamente é um plano preliminar conceptual”. Esboço esse que, sublinhou, “como o próprio nome indica, terá ainda de ser sujeito à necessária adequação às condições existentes no terreno onde se pretende que seja implantado e ao escrutínio das várias entidades com responsabilidades na matéria, de forma a que seja totalmente compatível com os instrumentos legais de ordenamento do território relevantes”.

PS foi “acérrimo defensor de uma marina”

“Além da preocupação com que encaramos estas declarações, manifestamos também estranheza pelo facto de a senhora ministra ter escolhido uma iniciativa partidária para dar conta das dúvidas que o projecto preliminar conceptual da marina lhe causa, em particular porque, desde o início deste processo, tem havido sempre uma troca franca e aberta de opiniões e consensualização de ideias entre a autarquia e a administração portuária no contexto do grupo de trabalho já referido”, lamenta a presidente da Câmara de Setúbal, sem poupar críticas à actuação de Ana Paula Vitorino. “Seria, pois, de esperar que as dúvidas ministeriais tivessem sido canalizadas no contexto deste grupo de trabalho — que deverá ser alvo, em breve, de uma remodelação — onde, com toda a facilidade, seriam esclarecidas, e não divulgadas numas jornadas parlamentares do Partido Socialista”, observou.

Maria das Dores Meira vai mais longe e diz acreditar que o que está em causa, face à posição adoptada pela ministra, “é a criação, em ano eleitoral, de dificuldades públicas à concretização de um projecto transformador de Setúbal, de forma a beneficiar o Partido Socialista no processo eleitoral autárquico que se avizinha”.

Tendo em conta que as afirmações da governante foram feitas numa iniciativa partidária, a Câmara Municipal de Setúbal apela a que o PS “clarifique qual a sua posição sobre o projecto de construção de uma marina em Setúbal”, ao mesmo tempo que recorda que “este é um objectivo perseguido na cidade desde que, em 2000, foi pela primeira vez defendido institucionalmente pela gestão autárquica socialista”.

“Será difícil entender que o PS, que foi sempre acérrimo defensor da construção de uma marina na cidade de Setúbal, vocacionada para acolher embarcações de grandes dimensões, numa infra-estrutura que, como defendia na altura, deveria tornar-se o principal pólo de atracção, com um hotel e áreas de comércio, restauração e serviços de apoio à marina, com um porto seco para reparação de embarcações, queira agora criar, artificialmente, dificuldades a este projecto apenas por mero cálculo político e eleitoral”, concluiu a autarca.