O Vitória vai de mal a pior. A derrota de anteontem, por 0-1, no Estádio do Bonfim, frente ao Tondela, último classificado da I Liga de futebol, colocou mais uma vez a nu as fragilidades da equipa de Quim Machado, que parece destinada a terminar a prova com a calculadora na mão. Com esta derrota, os sadinos, que somaram o 12.º jogo consecutivo sem vencer, desceram ao 15.º lugar, com os mesmos 29 pontos, cinco acima da linha de água.

Pica, defesa dos beirões que fez parte da sua formação nos sadinos, foi o autor do único golo da partida. Insatisfeitos com a fraca exibição e com o ciclo negativo que a equipa atravessa – nas últimas 12 partidas não conseguiram melhor do que empatar em quatro ocasiões –, cerca de uma centena de adeptos do Vitória, não esconderam no final do jogo o seu desagrado, contestando o treinador Quim Machado e o presidente Fernando Oliveira.

Depois de na jornada anterior quase ter surpreendido o Benfica na Luz, o técnico repetiu o esquema de 3x4x3, usando-o pela primeira vez no Bonfim, para tentar quebrar ontem o ciclo de 11 jornadas sem ganhar na competição. Um cruzamento de Nuno Pinto, logo aos quatro minutos, em que Frederico Venâncio cabeceou com perigo ao poste esquerdo, deu a ideia de que os sadinos podiam superiorizar-se aos beirões no jogo. Pura ilusão.

Instantes depois de Makuszewski ter cabeceado, após cruzamento de Nuno Pinto para defesa de Cláudio Ramos (20 minutos), o Tondela, a actuar sob a ameaça iminente de cair na próxima jornada na II Liga, conseguiu, num espaço de três minutos colocar em sobressalto a baliza defendida por Ricardo. Ao guarda-redes valeu a falta de pontaria de Erick Moreno (23’), Wagner (24’) e Nathan Júnior (25’).

Perante os sinais de nervosismo do púbico da casa, o Vitória apenas por um par de ocasiões conseguiu ameaçar antes do intervalo a baliza contrária. Em ambas as ocasiões, o avançado Vasco Costa, assistido por Toni Gorupec, não fez o que se lhe exigia. A falta de eficácia tem sido, aliás, o principal problema dos setubalenses no Bonfim (somaram anteontem o quarto desaire caseiro consecutivo por 0-1).

Antes do árbitro lisboeta Hugo Miguel apitar para o intervalo, o Tondela esteve muito perto de inaugurar o marcador na melhor ocasião dos primeiros 45 minutos. Aos 40, a defesa sadina facilitou e Nathan Júnior, um dos melhores do conjunto forasteiro, errou por centímetros para alívio dos vitorianos, que davam cada vez mais sinais de impaciência nas bancadas.

No segundo tempo, só a partir do minuto 63, quando o veterano Meyong rendeu o apagado Vasco Costa, os sadinos espevitaram. Aos 73 minutos, o camaronês cabeceou ao lado, após cruzamento do polaco Makuszewski, jogador polaco que esteve perto de marcar aos 54 e 75 minutos (guardião do Tondela evitou o golo) e se cotou como o melhor elemento em campo dos vitorianos.

Na melhor fase do encontro, apesar do ascendente dos sadinos, o Tondela não cessou de procurar a baliza de Ricardo. Aos 63 minutos, o defesa Pica só não teve êxito devido a um corte providencial perto da linha de golo de Frederico Venâncio. Aos 81, já depois de o central dos setubalenses ter cabeceado ao lado da baliza do Tondela (77), o brasileiro Nathan Júnior rematou forte de fora da área com muito perigo ao lado do poste direito da baliza sadina.

Numa altura em que se pensou que o nulo iria ser o desfecho do jogo, tal era o desacerto na finalização, o central Pica, após canto apontado na esquerda, aproveitou uma intervenção incompleta de Ricardo e a passividade dos defesas sadinos para empurrar, aos 86 minutos, para o golo do Tondela, que se mantém vivo na luta pela fuga à despromoção.

No lado do Vitória, o tento sofrido provocou uma onda de revolta nos adeptos que parecem, mais uma vez, destinados a terminar o campeonato com o credo na boca. Sp. Braga, Sporting (ambos fora) e Paços de Ferreira (no Bonfim) são as três ‘finais’ que restam ao emblema setubalense.

Refira-se que apesar deste triunfo, o Tondela mantém-se no 18.º e último lugar, agora com 23 pontos, a um ponto do penúltimo, a Académica, que no sábado perdeu em casa com o FC Porto, por 2-1.


«Prefiro que me assobiem a mim e apoiem os jogadores»

Quim Machado, treinador do Vitória

“Este não era o resultado que queríamos. Queríamos vencer e arrumar a questão da permanência. Fomos superiores e tivemos algumas oportunidades, mas está-nos a faltar eficácia. Pelas oportunidades que criámos merecíamos somar os três pontos. Controlámos sempre o adversário, mas quem marca é que ganha. O adversário aproveitou num lance de alguma infelicidade nossa. Mudámos o que tínhamos de mudar em termos tácticos. A estratégia foi a mesma que usamos na jornada passada, mas com outros jogadores devido às diferenças do caudal ofensivo do Benfica e do Tondela.

[Calendário difícil com Sp. Braga, Sporting e Paços de Ferreira?] São jogos que se seguem, não vale a pena falar neles agora. [Contestação?] Quando não se ganha é normal que mostrem insatisfação. Também já saímos daqui debaixo de aplausos mesmo perdendo. Os jogadores também têm aprendido com isso, alguns estão pela primeira vez na Liga. Prefiro que assobiem e mostrem lenços brancos a mim e apoiem os jogadores.”


 

Adeptos contestam treinador e presidente

Mal soou o apito final, cerca de uma centena de adeptos do Vitória deslocou-se para junto da sala de imprensa para manifestar o seu desagrado pela derrota e pelo momento vivido pelo clube. O treinador Quim Machado e o presidente Fernando Oliveira foram os alvos da ira dos adeptos, que pediram a demissão de ambos. O ambiente era de tal modo tenso que um cordão policial esteve perto do grupo de protestantes para assegurar que nada de grave sucedesse.

Ricardo Lopes Pereira