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O cavalo de Tróia na estrebaria

Francisco Alves Rito Director do DIÁRIO DA REGIÃO

Francisco Alves Rito
Director do DIÁRIO DA REGIÃO

No aniversário do DIÁRIO DA REGIÃO, gostava de partilhar o sonho que acalenta este projecto há quase duas décadas. O que nos move, desde 1998, é fazer Jornalismo: não só fazer as notícias para a edição de amanhã, mas preparar o jornal do futuro, criar as condições de liberdade e qualidade.

Claro que está quase tudo por fazer, mas a semente continua a crescer

No mês em que completamos cinco anos de DIÁRIO DA REGIÃO, e no ano em que fazemos 18 anos de edição de jornais no distrito de Setúbal (recorde-se que o diário resultou da fusão de 7 antigos semanários locais desta mesma empresa), assinalamos hoje esses marcos que, sem falsa modéstia, constituem verdadeiros feitos.

Basta lembrar que Setúbal nunca teve um jornal diário de dimensão regional para dar uma pequena ideia da dimensão deste empreendimento, com tantas e tamanhas implicações de sacrifício, dificuldade e frustração, mas também de paixão, valor e mérito. Como pode não ter mérito a edição regular, digna e séria, de um diário durante cinco anos, num distrito que nunca o teve e em que até os semanários espelham tão bem a penúria do sector?

Porque me apetece, e como estamos em maré de aniversário, permita-me algum abuso.

Como disse António Lobo Antunes, “é pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios”. E nesta terra, tão fértil em quase tudo, abundam também as cavalgaduras jornalísticas. Temos as manhosas, as quadradas e as simplesmente burras, todas ferradas das quatro-patas e igualmente nocivas para a saúde da comunicação social na região.

Lamento ter que referir-me a esta questão e, pela primeira vez, usar o DIÁRIO DA REGIÃO para um desabafo (que, ainda assim, é profissional e não pessoal). Nunca um jornal dirigido por mim serviu – nem servirá – para arma de arremesso, instrumento de justiça à Talião, ou destilador de ódios. Deixámos sempre – e deixaremos – essas patifarias e feitiçarias para outros.

Não quer isso dizer que tais criaturas não mereçam o devido tratamento ou que, o que é realmente importante, que o problema não exista e careça de solução.

Hoje, não podemos ter medo de o dizer, a Comunicação Social está mais pobre. Não apenas na força económica, mas igualmente, ou talvez até mais, no vigor ético e na pujança axiológica. O meio sofre de uma quebra de nível generalizada (felizmente com honrosas excepções) e é conspurcado por pseudo-profissionais do sector – de jornalistas a empresários – que atentam permanentemente contra as regras mais básicas desta arte, e até da simples boa-educação.

O problema reside em parte, com a devida diferença, na mesma causa que César identificava na antiga Lusitânia, onde vivia um povo “que não se governa nem se deixa governar”. No caso do jornalismo teremos de trocar o “não se deixa”, pelo “não se pode” governar. A imprensa é um campo onde a regulação não tem funcionado, nem funciona – porque o seu caracter impositivo é contrário à liberdade de expressão e porque, nos aspectos formais e de acesso e (sobretudo) de manutenção da profissão de jornalista não há forma de encontrar as “pinças” adequadas à delicadeza da operação – e a auto-regulação é um falacioso sistema (ainda assim, talvez o melhor) que assenta na mesma ilusão que faz do bom-senso o melhor exemplo de igualdade: de bom-senso ainda não encontrei nenhum pobre, todos achamos que temos o suficiente.

Na auto-regulação (sctritu-senso) é a mesma coisa. Todos os jornalistas (principalmente os maus) acham que são bons. Na auto-regulação através de estruturas de classe, temos cruzamento dos dois vícios; juízes em causa própria e imposição.

Num quadro destes, cabe ao leitor (e só ao leitor), fazer a devida separação, contribuir, com a sua exigência, para uma selecção de mercado que possa valorizar o mérito. O papel dos leitores, dos cidadãos enquanto colectivo, é, nesta matéria da qualidade do jornalismo, como em todas as outras áreas da realização humana, essencial.

Na Imprensa, como na Política ou na Cultura, o nível a que se chega depende da condição imposta colectivamente pelo povo. Bem sabemos que há imensos factores de perversão desta soberania, mas não podemos esquecer que as nossas escolhas individuais são a substância dessa vontade geral.

É por isso que é importante não nos esquecer de ler jornais, de os apoiar e de contribuir, positivamente, para a selecção daquilo que queremos para o nosso futuro colectivo.

É com esta consciência que continuamos a trabalhar no sonho de construir um jornal que nos possa orgulhar a todos – jornalistas, leitores e região -, que possa vir a ser um autêntico cavalo de Tróia nesta estrebaria, com génio e arte para vencer os vícios próprios do sector e os males que empobrecem a nossa vida colectiva.