Empresas fornecedoras facturavam três vezes mais do que alimentos que entregavam. Lucros chorudos eram repartidos com militares, incluindo um oficial do Estado Maior da Força Aérea. Buscas passaram também por Beja

 

A Base Aérea número 6, no Montijo, foi uma das 10 instalações militares da Força Aérea alvos da mega-operação de investigação de uma fraude que terá lesado o Estado em 10 milhões de euros.

A confirmação de que a Base Aérea do Montijo foi alvo de buscas, ontem, tal como a Base Aérea de Beja, foi feita pelo porta-voz da Força Aérea. Rui Roque disse a que as acções de investigação desencadeadas ontem, cerca das 10 horas, decorreram em “dez unidades” da Força Aérea no continente. Exceptuam-se, disse, as unidades nos Açores e na Madeira e as três estações de radar do continente e o aeródromo número 1, em Ovar.

A Força Aérea Portuguesa afirmou que a cadeia de comando está a prestar “toda a transparência e colaboração” às autoridades judiciais na investigação em curso, tal como fez “nas investigações preliminares”.

A Polícia Judiciária realizou, durante o dia de ontem, 180 buscas, em simultâneo em 12 bases militares, em 15 empresas e em diversos domicílios, foram apreendidas elevadas quantias em dinheiro, que os investigadores presumem ser o produto da prática dos crimes.

De acordo com a PJ, foram ainda apreendidos outros elementos de “grande relevância investigatória”.

Segundo a PGR, já foram emitidos mandados de detenção e em causa estão factos susceptíveis de integrarem a prática de crimes de corrupção passiva, corrupção activa e falsificação de documento.

No inquérito investigam-se suspeitas de, pelo menos, desde o ano de 2015, algumas messes da Força Aérea serem abastecidas com géneros alimentícios, cujo valor a pagar, posteriormente, pelo Estado Maior da Força Aérea seria objecto de sobrefacturação.

De acordo com a PGR, “tal sucederia por acordo entre militares que trabalham nas messes, fornecedores dos géneros alimentícios e um elemento do departamento do Estado Maior da Força Aérea com funções de fiscalização das referidas messes”.

“Com a concordância destes intervenientes, os fornecedores de diversas empresas entregariam determinadas quantidades de alimentos, mas, o valor facturado no final de cada mês seria cerca de três vezes superior ao dos bens entregues na realidade. A diferença entre o valor facturado e o dos produtos efectivamente fornecidos seria dividida pelos elementos envolvidos”, explica a PGR.

Fonte ligada à investigação disse à agência Lusa que as buscas decorreram em todo o país, com incidência na base de Monte Real.

Segundo a PGR, participam na denominada Operação Zeus 27 magistrados do Ministério Público, cerca de três centenas de elementos da Polícia Judiciária (PJ), cerca de quatro dezenas de elementos da Polícia Judiciária Militar e trinta peritos da Unidade de Perícia Financeira e Contabilística e da Unidade de Tecnologia e Informação da PJ.

Nesta investigação, o Ministério Público é coadjuvado pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ e pela Polícia Judiciária Militar.

Investigação já fez 5 detidos

Até há hora de fecho desta edição, cinco homens tinham já sido detidos na Operação Zeus que investiga crimes de corrupção activa e passiva para ato ilícito e falsificação de documentos no fornecimento de bens alimentares à Força Aérea, informou hoje a Polícia Judiciária.

Em comunicado, a Polícia Judiciária (PJ) referiu que o esquema fraudulento poderá ter lesado o Estado em cerca de 10 milhões de euros.

Na operação, desencadeada depois de um ano e meio de uma complexa investigação da PJ, com a colaboração da PJ Militar, participaram cerca de 330 investigadores e peritos da Polícia Judiciária, de diversas unidades orgânicas, acompanhados por cerca de 40 elementos da Polícia Judiciária Militar, bem como de 27 magistrados do Ministério Público.