Há animais que passam as passinhas do Algarve nas mãos de certos donos. É o caso do burrico desta estória. É um burro na força da vida, pequeno e franzino, de pelo ruço e ar infeliz. Puxa uma carroça feita à sua medida. Segue sempre no mesmo trote, triste e lento, orelhas em baixo, indiferente aos maus tratos, olhar perdido no alcatrão. Um velho debruçado no assento, chapéu preto enterrado na cabeça, cara de poucos amigos, vara de marmeleiro nas mãos impiedosas, rédeas tensas, vai zurzindo e rezingando:

– Arre burro! Vai burro! Corre burro! Anda malvado! Burro, burro!

Está quase a chegar a Setúbal, onde vai deixar a carga de frutos, hortaliças e ovos, em meia dúzia de regatarias, fregueses antigos. Vem nisto desde a Quinta do Anjo: varadas atrás de varadas, ofensas à mãe do burro e ao próprio, palavrões, tudo serve. Confrange, só de ouvir a ladainha, que não cessa um momento:

– Arre burro! Ah, bandido! Burro! Burro! Burro! Vai burro! Corre, grande corno! Ah, malvado! Anda, filho duma grande…!

E vá de marmeleiro no lombo magro do ruço, que parece não ter nome.

Na volta, as penas do asno repetem-se. É assim há anos, duas ou três vezes por semana. Pelo caminho, o carroceiro ouve das boas, da parte de muita gente que não gosta de ver o tratamento que dá ao bicho:

– Ó seu velho rabugento, você tem a caixa dos pirolitos avariada, ou quê?

– É burro, o raio do velho!

– Deixe o animal, seu brutamontes! Gostava que lhe fizessem o mesmo?

O velho, ou é surdo que nem uma porta, ou tem um poder de encaixe nunca visto. Não responde a estas nem a outras diatribes ainda mais violentas. E continua a massacrar, esticões de rédea, vara lesta e prosa impertinente. O pobre do jerico, de tão acostumado, parece que ganhou imunidade à conversa e às sevícias. E cumpre a sua sina, seguindo no passo lento e triste, os olhos no alcatrão, como se nada fosse.

Mas há sempre um dia em que a rotina se quebra. E naquele dia quebrou-se. Um dia de maio, o mês da farra para os burros. O burrico lá vinha na passada do costume, triste e lenta, olhar baixo, orelhas descaídas. O velho, dando largas ao mau fígado, resmungava, dava esticões na rédea, ofendia, malhava. Por alturas da Quinta da Várzea, o burro levantou a cabeça e olhou em frente, espevitou as orelhas, inspirou a plenos pulmões, expirou numa sofreguidão ruidosa de ventas e, por um momento, abrandou a marcha. O velho gritou-lhe uma ordem ornada de palavrões e assentou-lhe duas varadas. O burro, de cabeça levantada, orelhas espetadas, olhos arregalados e fixos na carroça que vinha em sentido contrário, primeiro enrijou o trote, depois partiu à desfilada, a ornejar, him-hom! him-hom! him-hom!… O velho bem que tentava travá-lo, berrando impropérios e infligindo-lhe vergões no lombo. Qual coisa! Tentou o travão, mas já era tarde. O burro, as hormonas a ferverem no caldeirão do desejo, já se empinava à fêmea (uma mula de perna alta), a carroça às costas não dava jeito nenhum, não chegava lá, mais um empinanço… A mula, espantada, relinchava e furtava-se como podia aos ataques do violador. Os carroceiros tentavam acalmar as duas cavalgaduras. Nada. O asno, visivelmente pronto para a festa, atirou-se uma vez mais à mula, empinando-se de tal forma que tombou a carroça. Tentava soerguer-se, resfolgando e esperneando num grande esforço. Sem sucesso. O velho, aos gritos, foi bater com os costados no alcatrão, embrulhado com o cabaz dos ovos, as canastras e as sacas de calhamaço das hortaliças e das frutas.

Gente corria para acudir ao pandemónio. Uns tentavam acalmar a mula, outros esforçavam-se para virar o burro e a carroça, alguns ajudavam o velho.

O velho, careca alva ao léu, desfraldado, o casaco e as calças num nojo de poeira e gemada de ovos, um pé calçado outro descalço, a cara num santo cristo, as mãos, os cotovelos e os joelhos escalavrados, uma dor aguda nas costelas, a respiração ofegante, tentava levantar-se e carpia-se, entre gemidos, dirigindo-se ao burro:

– Ah, bandido, ah, canalha, que me mataste!

E, num acesso de fúria, jurava vingança:

– Eu dou cabo de ti, grande malvado!

Alguém que estava farto de assistir às maldades do camponês e que o ajudava a levantar-se, não se conteve:

– Você tem cá um feitiozinho… Quase morto e ainda quer fazer mal, hem?

O velho olhou o desconhecido com desconfiança e rancor. O outro, um riso de satisfação, gritou-lhe:

– O burro vingou-se!

– Vingou-se de quê?

– Dos maus tratos que você lhe dá, do que havia de ser? Nunca ouviu dizer que dono impertinente faz burro desobediente?

Durante uns dias, ninguém viu o velho e o burro. Mas, na semana a seguir, a vida voltou ao mesmo. Estrada a fora, os mesmos preparos. O velho, na rabugice, na ofensa, nos maus tratos. O jerico ruço, a trotar, imperturbável, no seu passo triste e lento, orelhas pendentes, olhar rasteiro.