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• 08-10-2003 •
Património
por
(Historiador)


O “território dos Escatalares” e o IP8


À volta de Santiago do Cacém, nos arrabaldes da antiga vila, como que à sua sombra, a coroa pomícola espraia-se para as bandas do mar. Aproveita a vida que escorre das ribeiras que descem da serra e que, apesar de hoje reduzidas a cabelos de água, se continuam a deitar na Lagoa de Santo André. Bebe em olhos borbulhantes que se derramam depois por barrancos e valados.


Ontem, mais largas e caudalosas as ribeiras, mais pujantes e numerosas as nascentes, rasgavam de modo generoso a planície litoral, protegida pela serra dos ventos mais agrestes, conferindo-lhe um verde quase perene que falta a tanto Alentejo.

 

No século XVIII, um eclesiástico erudito, Frei Bernardo Falcão, bom conhecedor da zona, alude à fertilidade do que chama o “território dos Escatalares”, em carta enviada ao bispo de Beja, de que, infelizmente apenas foi publicada parte num amarelecido jornal local. Vale a pena, por isso, convocar as suas palavras:

 

Contam-se nelle,. E no mais subúrbio 95 pomares, entre estes algumas Quintas de m.to bom predicamento he a laranja da Xina de q’averiguei haver nove mil pés; Limão doce, azedo, laranja azeda, ebical; tem particular gosto a china deste citio, são famozos os miraolhos, alperces camoezes; há de toda a fruta conhecida neste Reyno e ainda alguá de coriosidade como são bananas, tâmaras, pimenta, canas de assucar, erva-doce e alfazema… He fertilizado o citio do escatalar por três groças correntes q’ se repartem por dias aos pomares, só a Quinta de Olhos belidos, a muita q’ tem he toda própria, sem sujeição alguma…” [Memorias sobre a antiga Miróbriga, in Nossa Terra, 28, 31 de Julho de 1932].

 

De então para cá, nas sucessivas descrições da zona, a referência aos pomares dos Escatalares, às quintas de Santa Cruz e Santo André, às vinhas do Giz e do Pomar Grande, é incontornável. Por aqui passou também, ao sabor dos tempos e das modas, a modernização agrícola, como no Pomar Grande, a que o Álbum Alentejano dava expressivo relevo. Quinta fundada em 1824, dotada de moagem, lagar, adegas, celeiros, estábulos e malhadas.

 

Mas como estas, os Olhos Bolidos ou o Pomar Grande, outras quintas, a de S. João ou a Quinta do Meio…, demarcando espaço, afirmando poder social e económico, com as suas casas apalaçadas, jardins, fontes, salas de fresco, vegetação exuberante, árvores seculares. Quintas às portas da vila, onde residiam, em cujo miolo histórico residiam, os seus proprietários, oligarcas, eclesiásticos, notáveis.

 

A dos Olhos Bolidos, que já existia em 1706, foi depois propriedade de D. António Pais Godinho, Bispo de Nanquim, que, segundo a tradição, aí teria introduzido a extravagância arbórea que trouxera ou mandara trazer da China, do Japão ou da Índia. O seu sobrinho e herdeiro foi justamente Bernardo Falcão.

 

Independentemente do estado de conservação de cada uma, independentemente do interesse e do ponto de vista com que os actuais proprietários as encaram, há no emaranhado de estradas e caminhos, de ribeiras e barrancos, nesse mosaico de quintas, como nos intervalos e margens que as limitam, pequenas propriedade, montes, hortas e pomares, olivais, vinhedos e manchas de montado toda uma memória social que respira, que resiste como pode.

 

Uma memória feita de memórias, naturalmente, mas também de edifícios modestos e “notáveis”, de caminhos, de celeiros, de fontes, de lavadouros, de lagares, velhas oficinas de ofícios e saberes esquecidos, mãos tecedeiras no linho ou no vime, vozes de poetas, contadores de histórias, de episódios ou de utopias esgarçadas pelo tempo.

 

Pelo “território dos Escatalares”, como lhe chamava Frei Bernardo, poderá passar, dizem-me agora, um dos traçados previstos para o IP8. O carácter estruturante desta transversal alentejana, que ligará Sines a Espanha, terá absoluta necessidade de estilhaçar este território? Não será possível compatibilizar a importância da obra com esta funda realidade sócio-histórica, patrimonial?

 

Não vai ser mais uma vez possível que as grandes infra-estruturas rodoviárias respeitem, nas malhas do seu traçado, territórios com identidade própria potenciando o seu desenvolvimento, social, cultural, também económico?

 

Trata-se tão simplesmente, respeitando, de fazer do património e da identidade cultural, objectos de turismo, de fruição cultural e, também como tal, factores de desenvolvimento, porventura de um outro, ou de um verdadeiro desenvolvimento, que tem nos locais concretos memória, património, identidade e, acima de tudo, homens e mulheres, gerações diferentes, como destinatários.

 

Se, para isso, for necessário dar opinião, reclamar, assino por baixo.


- 08-10-2003 16:36

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