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Contra a macrocefalia de Lisboa

PREC viu nascer Teatro de Animação de Setúbal


No dia 26 de Dezembro de 1975, a cidade de Setúbal via nascer a primeira companhia de teatro profissional do distrito e a terceira do país radicada fora de Lisboa. Acabado de chegar de França, Carlos César quis ajudar na descentralização da cultura num período revolucionário, tendo apostado na capital de distrito com a ajuda de Odete Santos, na altura membro da Comissão Administrativa da Câmara. 25 anos depois, admite que teve muita 'pedra' para partir em termos culturais na região mas acredita que o TAS faz a diferença. Algo desiludido com a actual situação duvida que, se voltasse atrás, tomasse a mesma decisão de há 25 anos.


Setúbal na Rede - Onde é que estava no dia 26 de Dezembro de 1975?

 

Carlos César - Estava em Setúbal, para a abertura do TAS/Teatro de Animação de Setúbal, uma companhia profissional que fundámos e nesse dia demos a conhecer através da estreia da peça "A Maratona" com os actores Carlos Daniel, António Assunção e Francisco Costa. O TAS era para ter começado um pouco antes do Natal mas houve problemas de interligação entre a representação e o trabalho dos músicos, o que levou a que a peça estreasse só nesse dia. Estreámos na FNAT, actualmente o Inatel, onde ocorreu um facto curioso: como era o nascimento de uma companhia profissional numa altura em que não se acreditava muito que as companhias profissionais pudessem existir fora de Lisboa - o que parece estar a acontecer novamente - a sala ficou cheia de espectadores muito curiosos e, na altura de começarem a sentar-se faltou a luz em toda a cidade, com excepção do Fórum Luísa Todi.

 

As pessoas ficaram sentadas nas escadas da FNAT à espera durante mais de uma hora e parece-me que poucos se foram embora. Realmente era um espectáculo diferente do que as pessoas estavam habituadas a ver, pois os três personagens corriam como se estivessem numa maratona e enquanto isso iam falando sobre a vida. A ideia do autor era criar uma espécie de mundo, com três figuras diferentes da sociedade falando das dificuldades com que a sociedade se deparava na altura. A peça tinha alguma profundidade e permitia várias leituras diferentes, pois foi inspirada nos acontecimentos de Maio de 1968, em França. Teve muita aceitação e, inclusivamente, foi das mais representadas pelo TAS, que fez uma digressão por todo o distrito.

 

SR - A que é que se deveu tanta afluência de público?

 

CC - Acho que algumas pessoas não acreditavam ser possível a existência de uma companhia profissional e quiseram ver se era verdade, e que para outras foi mesmo a curiosidade pois havia alguma expectativa em volta do TAS. Devo dizer que a maior parte das pessoas não acreditava nesta possibilidade, estavam perplexas e algo pessimistas em relação à ideia. É uma questão de mentalidade e acho que isso ainda acontece hoje. As pessoas vêem muito os actores da companhia na televisão e isso parece que lhes dá um estatuto profissional diferente. Um dia destes, uma senhora que me viu numa novela da televisão disse-me que agora eu já era profissional. Mas eu sou profissional há já muitos anos.

 

SR - O que é que o levou a fundar uma companhia de teatro profissional em Setúbal?

 

CC - Não sei, às vezes penso que foi um bocado disparatado. Eu tinha vindo de França, onde estive onze anos no teatro, e tinha perdido completamente a pedalada artística daqui. Algumas pessoas da minha idade sabiam que eu era actor, que tinha sido formado no Conservatório e tinha trabalhado no Teatro Nacional mas ficava por aí. Estava convidado para duas companhias em Lisboa e tive um momento de hesitação entre ir para uma ou ir para outra. E numa conversa com Carlos Daniel e António Assunção, com quem estava a preparar um trabalho para a televisão, disse-lhes que queria fazer uma coisa na província.

 

Primeiro eles riram-se mas continuei a conversa, aprofundei a ideia e disse que ia mesmo fazer uma companhia em Setúbal pois embora não seja de cá, vim para aqui com quatro anos e conhecia melhor esta terra do que Elvas, a minha terra. Formámos a companhia e a Comissão Administrativa da Câmara apoiou, através de Odete Santos que também era uma pessoa ligada ao teatro. Depois pedimos subsídio ao Governo, através de uma secretaria de Estado cujo nome não me lembro mas que na altura ainda não se chamada da Cultura.

 

Depois da "Maratona" fizemos uma peça que estreou em Alcácer do Sal e ensaiávamos onde calhava. Ou era numa colectividade ou numa sala o mercado municipal ou no Ateneu. Começámos com uma companhia de teatro sem termos instalações e andámos cerca de sete anos assim. Durante todo esse tempo, a nossa maior dificuldade era essa pois as pessoas não sabiam onde é que nós estávamos. Não havia a possibilidade de termos uma corrente de público.

 

SR - A companhia teve dificuldades em implantar-se?

 

CC - Foi muito complicado, pois as pessoas estavam muito renitentes em relação à existência de uma companhia profissional. Depois foi a reacção negativa das colectividades culturais que achavam que nós iríamos acabar com o teatro amador. Inclusivamente chegámos a reunir com os grupos de teatro amador para discutir o assunto, tendo na altura algumas pessoas decretado a minha morte profissional. Mais tarde, alguns desse amadores vieram para o TAS e passaram a profissionais. Mas com o tempo as coisas foram ultrapassadas e o TAS implantou-se, pois a esperança que mantivemos durante anos consolidou-se. Lembro-me que naquela época ganhávamos à volta de doze contos cada um, o que não era mau tendo em conta que um professor ganhava muito menos.

 

SR - Que tipo de público tinham, numa altura em que Setúbal atravessava o período revolucionário?

 

CC - Contrariamente ao de hoje, era um público adulto, com pessoas de meia idade que, se calhar, estavam à espera que o teatro fosse um meio para consolidar a revolução e informar as pessoas acerca disso. Em parte poderia sê-lo e, em parte, era essa a ideia quando fizemos a peça de Alves Redol, "O Destino Morreu de Repente". Nos primeiros quatro ou cinco anos, as coisas funcionaram mais ou menos nestes moldes, mas tivemos alguma dificuldade de implantação. Normalmente um grupo amador levava três meses para preparar uma peça e depois apresentava-a uma vez ou duas. Mas uma estrutura profissional tinha de a fazer muitas vezes e até várias vezes por dia, como foi o caso da "Maratona".

 

E havia nas pessoas uma certa desconfiança e perguntavam como é que nós podíamos representar tanto, relativamente aos grupos amadores. As pessoas não compreendiam muito bem que na província também é possível ter actores profissionais, assim como temos médicos e professores, por exemplo. Isto ultrapassava um pouco aquilo que as pessoas pensavam que era um actor, pois para muita gente um actor era uma pessoa que estava em Lisboa e que de vez em quando fazia umas benesses e vinha à província representar. Por isso, olhavam-nos sempre com uma certa desconfiança.

 

SR - Chegou a fazer peças directamente relacionadas com o período que o país vivia?

 

CC - Em Lisboa, antes de fundar o TAS, estava a fazer uma peça na FNAT que andou pelo país inteiro. E no final havia um debate com a intervenção do MFA cujos representantes explicavam o que é que a peça significava. E lembro-me que às vezes havia debates que duravam mais que a própria peça. Já no TAS ocorreu uma coisa parecida com uma peça de Bertolt Brecht, onde se denunciava o fascismo. Fazíamo-la em fábricas e em escolas e acompanhávamo-la com debates com o público.

 

SR - Em 1975, sentiu que estava a desbravar caminho na área da cultura em Setúbal?

 

CC - Sim, isso para mim foi e continua a ser importante porque é uma grande aventura. Tinha assistido a uma parte da descentralização cultural em França, ainda nos anos 60, e achei que podia e devia ser aplicado aqui. A nossa própria Constituição da República diz que a cultura tem de ser para todos.

 

SR - Qual era o panorama cultural de Setúbal, em 1975?

 

CC - Lembro-me de que existia o Coral Luísa Todi e vários grupos de teatro amador, muitos deles de intervenção, entre os quais estava a Presença e o Sobe e Desce. Com o tempo foram desaparecendo e isso deve-se às dificuldades nesta área. Perdeu-se muita da carolice das pessoas que se encontravam numa colectividade para fazer teatro. Agora as pessoas encontram-se nas colectividades para jogarem às cartas e, por outro lado, há outras motivações como a televisão. Não se pode dizer que eles acabaram por se ter instalado aqui uma companhia profissional porque em muitos sítios, como é o caso de Faro, onde nessa altura não havia companhia profissional, chegou a haver 20 grupos de teatro amador e agora não há nenhum. Isto tem tudo a ver com a mudança no tipo de vida das pessoas.

 

SR - 25 anos depois, valeu a pena o esforço que fez nesta área?

 

CC - Sim, pois o TAS ajudou muito na formação cultural da população por força do trabalho que fazemos junto das escolas e com as autarquias. Quando começámos éramos seis e agora somos vinte e sete. Por outro lado, e dados os cortes que a Secretaria de Estado da Cultura fez nos subsídios para o ano que vem, não sei se terá valido a pena. Com este corte de 40 mil contos, que a Câmara de Setúbal decidiu cobrir, numa atitude que considero histórica, ficou provado que no Governo ainda persiste a mentalidade relativa à macrocefalia de Lisboa, de acordo com a qual a província não pode ter cultura.

 

Se não tivesse sido a Câmara, o TAS poderia fechar. Contudo o problema mantém-se para 2002, pois a autarquia não vai poder assegurar estas verbas por mais tempo. Vivo sempre nesta divisão entre o ter validou, ou não, mas o que me parece é que, passados todos estes anos, se soubesse como as coisas iriam correr, acho que se calhar pensava duas vezes.


- 25-12-2000 11:42

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