“É um grupo que está a crescer interna e externamente”

“É um grupo que está a crescer interna e externamente” O Pingo Doce “tem vindo a reforçar a sua presença em Setúbal”, contando com um total de 24 lojas no distrito, e “continua a ter intenções de investir em Portugal”, apesar de “grande parte da fatia de investimentos da Jerónimo Martins” estar destinada às operações na Polónia e na Colômbia. Ricardo Mateus, diretor adjunto de operações do Pingo Doce, explica que a cadeia de distribuição assinalou um ponto de viragem no dia 1 de Maio, em que pretendeu “transmitir ao consumidor final a ideia de que poderia contar com a oportunidade de poupança imediata” nas lojas desta marca. O responsável realça ainda a relação de “parceria com os produtores locais” e apresenta o exemplo do moscatel de Setúbal, “que foi o primeiro vinho de marca própria a ser premiado num concurso nacional de vinhos”.

“Setúbal na Rede” – Qual o balanço que faz da atividade das lojas do Pingo Doce no distrito de Setúbal?

 

Ricardo Mateus – Nos últimos anos, o Pingo Doce tem vindo a reforçar a sua presença em Setúbal, sendo que hoje contamos com um total de 24 lojas no distrito, nomeadamente em Alcochete, Montijo, Setúbal, Moita e Barreiro, onde a presença foi reforçada recentemente com a integração do Feira Nova e a aquisição do Plus. A nossa mais recente inauguração foi feita em Vila Nogueira de Azeitão. Temos vindo a aplicar algumas estratégias de expansão, iniciadas com a compra das instalações do Plus em 2008, que vieram reforçar a nossa presença no distrito.

SR – Como avalia a cobertura do Pingo Doce no distrito?

 

RM – Penso que o Pingo Doce tem uma cobertura bastante boa nos principais pontos do distrito de Setúbal, em particular entre os meios habitacionais mais importantes. Poderemos vir a considerar outros locais que poderão ser interessantes para a instalação de novas lojas e que necessitam de ser analisados caso a caso.

SR – Existem perspetivas de expansão?

 

RM – Eu acredito que as ideias de expansão estão sempre presentes, mas será sempre necessário realizar uma análise profunda que depende de vários fatores, como é o caso da oportunidade de negócios. De facto, a recente inauguração de uma loja revela que o Pingo Doce tem estado atento ao mercado e a apostar na expansão.

SR – O facto de o mercado estar a atravessar uma situação de crise económica constitui um momento de oportunidade para expansão ou de contenção para o Pingo Doce?

 

RM – É público que, neste momento, grande parte da fatia de investimentos da Jerónimo Martins está destinada às operações na Polónia e na Colômbia, mas o Pingo Doce continua a ter intenções de investir em Portugal. Desde que continuemos a considerar interessante o ciclo “investimento, oportunidade, retorno”, vão existir oportunidades de investimento consideráveis.

SR – Os níveis de faturação do Pingo Doce têm sido afetados pela crise?

 

RM – Apesar do ambiente macroeconómico difícil, temos conseguido manter uma performance de vendas estável. Temos lojas com volumes de faturação grandes, por estarem localizadas em zonas de influência com muita população, que felizmente têm-nos possibilitado assegurar essa mesma estabilidade.

SR – Podemos dizer que a venda de bens essenciais permite que o Pingo Doce não sinta a crise a sério?

 

RM – Não podemos dizer isso, pelo contrário. Obriga-nos a ser ainda mais determinados na procura de soluções interessantes de poupança para os nossos consumidores. O consumidor de hoje é muito mais racional no seu ato de compra e faz a gestão das suas finanças, o que nos obriga a ser cada vez mais criteriosos na nossa oferta e nas oportunidades de poupança que oferecemos.

SR – Como é que o Pingo Doce se distingue da concorrência?

 

RM – Durante o ano de 2012 alterámos a nossa política comercial. O ponto que marcou essa viragem foi o dia 1 de Maio, em que quisemos transmitir ao consumidor final a ideia de que poderia contar com a oportunidade de poupança imediata nas nossas lojas. Nesse dia fizemos o desconto direto de 50 por cento nos nossos produtos e tivemos um volume de vendas que equivaleu a uma semana normal de faturação. Esse momento marcou uma viragem comercial do Pingo Doce porque passámos a oferecer condições de poupança imediata. Aliámos esse fator a uma qualidade da marca própria e continuámos a posicionar-nos como especialistas em frescos.

SR – Considerando as várias fases que marcam a evolução da marca, em que segmento se posicionam hoje?

 

RM – Somos uma loja que tem 40 por cento das suas vendas através de artigos de marca própria e que se continua a posicionar nos produtos perecíveis, como o talho, a peixaria, a frutaria e a padaria. Temos serviços de atendimento e qualidade nos nossos produtos, aliados a uma oferta de marca própria de grande qualidade.

SR – A iniciativa de desconto do 1º de Maio criou uma grande polémica. Considera que esta ação foi compreendida pelas pessoas?

 

RM – Penso que as pessoas compreenderam a ação que alterou a política comercial do Pingo Doce. É uma política de low price na maior parte dos seus artigos, com oportunidades grandes de poupança imediata num conjunto de produtos que vamos alterando semanalmente. Foi isso que quisemos mostrar no dia 1 de Maio de 2012 e é essa a política em que o Pingo Doce continua a apostar hoje.

SR – Considerando as muitas críticas que surgiram em torno desta campanha de desconto que alegavam eventuais prejuízos para os fornecedores, entende que a responsabilidade social foi devidamente tida em conta nessa iniciativa?

 

RM – Eu não partilho de todo dessa visão negativa. Já estive na área comercial antes de estar nas operações e, por esse motivo, conheço razoavelmente como funciona o modelo de negócio e a articulação com a área comercial. A iniciativa e a decisão de protagonizar esta campanha foi do Pingo Doce, e isso até está refletido nas contas que foram publicadas recentemente referentes ao ano de 2012, que indicam uma perda de dez milhões de euros nesse dia. De facto, houve aqui um assumir de perda de margem para reposicionar o Pingo Doce neste aspeto das promoções.

SR – A aposta nos frescos implica uma relação muito cuidada com os fornecedores, nomeadamente os locais?

 

RM – Há um trabalho profundo e de médio prazo nessa matéria. Apesar de 20 por cento do total daquilo que compramos chegar do exterior, temos parcerias muito interessantes com fornecedores e produtores locais. Com mais de 400 produtores na área do talho, dos legumes e dos hortícolas, 90 por cento daquilo que compramos vem das mãos de fornecedores locais. No caso concreto da loja de Azeitão, que abrimos recentemente, temos um sortido mais alargado em relação à maioria das lojas Pingo Doce. Contemplámos uma parceria com os produtores vinícolas da zona, como a José Maria da Fonseca, a Bacalhôa, com as Tortas de Azeitão e com os produtores de queijo.

Tentamos sempre que possível reforçar essa parceria com os produtores locais e um bom exemplo aqui da região foi o nosso moscatel de Setúbal, que foi o primeiro vinho de marca própria a ser premiado num concurso nacional de vinhos.

SR – Existe uma adaptação a cada uma das localidades onde estão instalados?

 

RM – Cada loja em si diria que não, mas olhamos para as regiões e tentamos proporcionar num conjunto de lojas a oferta local disponível que faça sentido comercializar. Exemplo dessa situação são as lojas Pingo Doce do Alentejo, que vendem chouriços e queijos produzidos naquela região, e de Azeitão que oferece uma gama de produto vinícolas locais. É uma estratégia que seguimos pontualmente sempre que o regionalismo o justifique.

SR – O Pingo Doce tem a preocupação de manter níveis de retorno aceitáveis para os produtores para que se mantenham em atividade?

 

RM – Na minha visão pessoal, esquecendo até o ramo da distribuição, acredito que é legítimo que qualquer empresa tente criar as melhores condições para operar no mercado em que está. Isso pode ser válido para a distribuição, para produtores ou qualquer outra empresa. Caberá a cada uma destas entidades defender da melhor forma os seus interesses. No entanto, não me parece que assim seja porque também não seria muito inteligente. O Pingo Doce não está interessado em prejudicar os fornecedores locais, tendo em conta que isso também conduziria a cortes na cadeia de abastecimento. Por aquilo que tenho vindo a assistir, a ação do Pingo Doce surge exatamente num sentido contrário, pois ajudamos alguns fornecedores locais ao encurtar prazos de pagamento e outro tipo de situações para aliviar a tesouraria e para que possam continuar a produzir e a entregar os produtos com a qualidade desejada e a certificação pretendida pelas empresas.

SR – No entanto, com a tecnologia e as facilidades de transporte, é muitas vezes mais barato colocar artigos estrangeiros à venda, do que adquirir produtos nacionais que têm custos de produção mais elevados.

 

RM – Não sei porque é que os fornecedores locais terão de ter custos de produção mais elevados. Do meu ponto de vista, essa situação é algo que terá de ser verificado porque, à partida, não fará nenhum sentido que assim seja. Se assim é, os produtores locais terão de criar as condições para conseguirem entregar o que é pretendido receber pela distribuição em termos de certificação, calibres e de quantidades, a um preço competitivo. Em igualdade de circunstâncias, o Pingo Doce opta sempre por um fornecedor português e os números mostram isso.

Essa escolha depende da competitividade, das quantidades que são necessárias entregar e dos prazos que são necessários cumprir. Dou-lhe um exemplo específico, pois quando se pede para receber cem borregos da Irlanda no dia seis, estão cá nesse dia à hora combinada e com o peso pretendido. Portanto, será legítimo também esperar que, se isso for pedido a um fornecedor português, sejam entregues nas mesmas condições. A verdade é que são entregues corretamente na maior parte dos casos porque, de facto, as parcerias que temos com produtores locais são muitas.

SR – O Pingo Doce é uma empresa com preocupações sociais?

 

RM – Eu diria que esse é um dos pilares do grupo há já bastantes anos. As ações da Jerónimo Martins são mais visíveis para o exterior através dos donativos que são feitos pelas lojas Pingo Doce para instituições carenciadas da zona envolvente. O ano passado, o Pingo Doce deu cerca de onze milhões de euros em bens alimentares a instituições de solidariedade que trabalham, principalmente, com pessoas mais vulneráveis, como crianças, adolescentes e idosos. Numa das lojas de Setúbal apoiamos uma instituição de pessoas sem-abrigo, que vem buscar artigos que sobram ao final do dia. Essa ação revelou resultados de cerca de mil euros por mês em donativos este ano, apenas no caso específico desta loja.

SR – Como podemos avaliar o clima laboral desta empresa?

 

RM – Do meu ponto de vista, o ambiente é bastante bom e, seguramente, acima da média de grande parte das empresas portuguesas. Ainda que penalizados pelos resultados de 2012, os trabalhadores do Pingo Doce receberam um aumento acima dos dois por cento. Existe também uma preocupação em apoiar os funcionários que mantenham uma situação momentânea de carência grande. Nesse sentido, foi criado um fundo especial que presta ajuda em termos financeiros, cuidados médicos e de apoio à educação, e que tem sido um grande contributo para muitos trabalhadores que se veem numa situação complicada.

SR – Existem muitos casos de trabalhadores em situação de carência?

 

RM – Sim, infelizmente existem. São casos em que um dos familiares ficou desempregado, em que surgiu uma doença repentina que agravou a situação económica ou mesmo em ocasiões de separação que provocaram um desequilíbrio financeiro no seio familiar.

SR – Apesar da atual situação de crise, os funcionários do Pingo Doce podem estar tranquilos com o seu futuro?

 

RM – Penso que neste momento em Portugal ninguém pode estar tranquilo com o futuro a curto e a médio prazo. No entanto, tenho a certeza que as pessoas que trabalham aqui estão mais seguras do que a restante população portuguesa. Sabem que é um grupo que está a crescer interna e externamente e que lhes oferece condições para ascender internamente.

SR – Esta é uma empresa que proporciona oportunidades aos colaboradores?

 

RM – Sim, proporciona oportunidades muito focadas ao nível das operações. Exemplo disso são os muitos gerentes que começaram a trabalhar no Pingo Doce em regime de part-time nas caixas e que conseguiram afirmar-se e ganhar um melhor posto na loja. Portanto, é sem dúvida uma empresa que proporciona oportunidades aos seus trabalhadores.