“Sentimos que há uma concorrência desleal no setor”

“Sentimos que há uma concorrência desleal no setor”“Muitas das oficinas particulares não passam faturas em grande parte dos serviços que fazem, não têm os seus trabalhadores inscritos na Segurança Social ou não tratam dos resíduos que produzem nas suas instalações”. A denúncia é feita por Ricardo Kendall, administrador da Midas Portugal, que considera “que essas oficinas não são benéficas para ninguém a não ser para os seus donos”. Por isso, está convencido que se vai assistir “ao fecho de muitas pequenas oficinas devido ao decréscimo registado nos seus lucros”, o que contrasta com o crescimento da Midas, que “tem vindo a aumentar o número de clientes e espera abrir brevemente uma loja na cidade de Setúbal”. Proprietária de todas as oficinas da rede, a Midas Portugal não aposta no sistema de franchising, “pelo facto de os portugueses serem pouco associativistas”. Apesar de ser uma empresa de serviços, está hoje a instalar-se preferencialmente nos centros comerciais, pois “estes são espaços ótimos pelo seu conceito de conveniência levado ao extremo”.

“Setúbal na Rede” – Qual o balanço da atividade da Midas no distrito de Setúbal?

 

Ricardo Kendall – Temos hoje cinco oficinas no distrito de Setúbal e estamos muito satisfeitos com o sucesso que temos tido. A Midas tem vindo a aumentar o número de clientes nestas oficinas e espera abrir uma sexta loja na cidade de Setúbal. Estamos numa fase de negociação para encontrar espaços, o que ainda não se encontra assegurado. Acreditamos que nos últimos dois anos a Península de Setúbal tem vindo a crescer em termos demográficos e, por isso, tem vindo a ter cada vez mais clientes. O mercado automóvel tem vindo a evoluir de forma progressiva e temos registado valores positivos nas oficinas de Almada, Lavradio, Seixal, Rio Sul Shopping e do Fórum Barreiro.

SR – Como tem sido a entrada da Midas no mercado português, atendendo à origem americana desta empresa?

 

RK – A Midas já entrou em Portugal há doze anos e neste momento tem a seu cargo 50 oficinas que nos têm dado muito bons resultados. No ano de 2012 tivemos a oportunidade de reparar mais de 150 mil carros e sentimos uma aceitação muito boa por parte dos nossos clientes. A principal razão para o sucesso da Midas, nos últimos anos, tem sido a revisão oficial que disponibilizamos para qualquer tipo de carro, independentemente do seu modelo ou idade, sem que seja perdida a garantia.

SR – Mas sente que o conceito da Midas rompe com a tradição da pequena oficina?

 

RK – Eu acredito que sim. O grande problema que a pequena oficina atravessa hoje é que, em muitos casos, tem desempenhado uma operação que não é benéfica para ninguém. Normalmente, muitas destas pequenas instalações apresentam um valor por uma reparação que não coincide com aquilo que os clientes adquirem. Em termos de responsabilidade, estas oficinas não têm os seus trabalhadores inscritos na Segurança Social ou, em termos ambientais, não tratam dos resíduos que produzem nas suas instalações. Um litro de óleo queimado polui cinco milhões de litros de água. Portanto, diria que essas oficinas não são benéficas para ninguém a não ser para os seus donos. Hoje em dia representam 60 por cento do mercado, em contraste com o resto da Europa, onde constituem apenas cerca de 15 por cento. Acreditamos que em Portugal, nos próximos anos, vamos assistir ao fecho de muitas pequenas oficinas devido ao decréscimo registado nos seus lucros.

SR – A crise económica será um fator de vantagem ou desvantagem para a Midas?

 

RK – Sem dúvida que os níveis de taxas e impostos têm mostrado uma curvatura e nós podemos dizer que já ultrapassámos o ponto mais alto dessa curva. Portanto, esta situação é benéfica para a Midas porque as pessoas prolongam mais o tempo com que têm o seu próprio carro, surgindo uma maior necessidade de o reparar. Por outro lado, também os nossos clientes estão com cada vez menos dinheiro, com menos disponibilidade monetária e menos poder de compra. Por isso, assistimos a uma situação em que as pessoas evitam ir aos concessionários, indo a alternativas mais baratas como a Midas.

SR – Na Midas sente-se o decréscimo no mercado?

 

RK – Não, porque temos vindo a abrir muitas oficinas e temos sentido o aumento das nossas vendas. Inaugurámos instalações com uma cadência de cinco oficinas por ano e, por isso, o negócio tem vindo a correr bem e esperamos continuar este ano com a mesma evolução. Durante este mês vamos inaugurar ainda uma segunda oficina e contamos abrir ainda mais três novos equipamentos durante o segundo semestre deste ano. Portanto, penso que vamos voltar a cumprir o objetivo de instalar cinco oficinas por ano.

SR – As oficinas que integram o grupo da Midas são sua propriedade ou são em regime de franchising?

 

RK – Todas as oficinas portuguesas são propriedade da Midas. Normalmente, em cada país onde estamos representados, temos cerca de 30 por cento de oficinas nossas e 70 por cento franchisadas. Mas em Portugal são todas nossas. Esta situação explica-se pelo facto de os portugueses serem pouco associativistas e, portanto, dificilmente conseguirem trabalhar em rede e em franchising. Neste momento, a Midas não está interessada em fazer franchising no país por acreditar que não faz qualquer sentido abrir a porta ao franchising em Portugal.

SR – Como é que a Midas se diferencia da concorrência?

 

RK – Penso que as mais-valias da nossa equipa passam por uma qualidade de serviço muito forte e pelo investimento muito grande em formação. Na prática temos 51 oficinas, sendo que uma delas está completa de A a Z e se destina a desempenhar a função de centro de formação. Nessas instalações temos três pessoas a darem formação durante todo o ano em contínuo e não fazem mais nada para além de desempenhar esse papel. Esta ação vem-se a repercutir na qualidade do serviço da Midas.

SR – Consegue caracterizar o perfil do público da Midas?

 

RK – Não, hoje em dia é algo muito difícil de verificar. A atual média de carros que nos visita tem seis anos e temos todo o tipo de clientes, desde a classe baixa à classe alta. Contudo, por sermos um país com uma predominância de classe média, este poderá ser considerado o nosso maior cliente.

SR – A localização das oficinas tem assente nalgum critério específico?

 

RK – Nos últimos cinco anos temos crescido muito nos centros comerciais. Estes são espaços ótimos pelo seu conceito de conveniência levado ao extremo. Portanto, é conveniente para o nosso grupo e para o cliente que deixa o carro na Midas enquanto vai ao centro comercial, esperando pela revisão ou para mudar os travões.

SR – As oficinas da Midas vão tendo capacidade de resposta?

 

RK – Normalmente esse compromisso não resvala muito. Nós oferecemos um check-up gratuito a cada cliente que entre na Midas. Por isso, o que fazemos é, basicamente, manter o contacto com o cliente e aconselhá-lo para poder fazer as escolhas acertadas. E, nessa ocasião, diria que não temos tido grandes problemas.

SR – A Midas é uma empresa com responsabilidade social e com envolvimento na comunidade?

 

RK – Enquanto empresa norte-americana, a Midas tem muitos cuidados com os resíduos. Este é um tema que levamos muito a sério e respeitamos rigorosamente. A preocupação de faturar com IVA e de inscrever as pessoas na Segurança Social é algo de obrigatório e que não se questiona. No entanto, sentimos que há uma concorrência desleal no setor, que representa 60 por cento das reparações feitas em Portugal, pois sabemos que as oficinas particulares não passam faturas em grande parte dos serviços que fazem ou não têm os seus trabalhadores inscritos na Segurança Social.

SR – A Midas tem também a preocupação de se envolver com a região onde se instala?

 

RK – Normalmente o que fazemos é uma campanha inicial de lançamento em que enviamos cartas para os nossos vizinhos do centro a convidar para visitarem a Midas, as suas novas instalações, e dando também ofertas de serviços. É uma iniciativa a que chamamos de Carta do Vizinho para darmos a conhecer os nossos serviços. Para além destas campanhas, existe também uma comunicação diária com a população, seja por via de folhetos, da rádio ou mesmo da televisão, como aconteceu em 2012.

SR – A Midas é uma empresa que faz boa vizinhança?

 

RK – Acreditamos que sim. Ao longo de doze anos de atividade, nunca tivemos problemas com qualquer vizinho das nossas instalações. Preocupamo-nos com quem convive junto de nós e, felizmente, não existem razões para nos queixarmos sobre eventuais problemas com vizinhos.

SR – Mas há um cuidado específico nesse sentido?

 

RK – Sim. O tratamento dos resíduos é uma das ações que exemplifica esse cuidado por ser considerado por nós algo de importante para evitar cheiros ou fugas de óleos ou substâncias perigosas para as redes fluviais. Portanto, penso que também o facto de termos muitos cuidados com a parte ambiental e com os resíduos vem ajudar a que não haja problemas com a vizinhança e para manter um ambiente tranquilo.

SR – Sente que há perspetivas de futuro para a empresa, mesmo no contexto da atual conjuntura económica em que vivemos?

 

RK – Sim, mesmo no contexto em que vivemos. Como já referi, a Midas está a crescer e a ideia é atingir um total de 80 oficinas em Portugal. A nossa equipa prevê que, depois de 6 ou 8 anos deveremos atingir essa meta. Neste momento, falta-nos instalar 30 equipamentos comerciais para que consigamos atingir esse objetivo.

SR – Atendendo a que pertence a um grupo norte-americano, qual é o grau de autonomia que tem a Midas Portugal?

 

RK – A Midas tem uma autonomia bastante significativa. O grupo representante de Portugal não depende da Midas americana, mas sim da Midas europeia. É da Europa que recebemos o apoio de que necessitamos, principalmente a nível do sistema informático e da formação. Por isso, é possível dizer que temos uma autonomia forte também pelo facto dos resultados positivos que temos vindo a ter. A direção do grupo Midas percebe que os resultados saem e acredita na nossa equipa de gestão e, portanto, dão-nos uma autonomia maior.