Paulo Pereira, diretor executivo do Calçado Guimarães

“Temos de aproveitar cada momento como uma oportunidade”

“Temos de aproveitar cada momento como uma oportunidade”“Nestas situações de crise existem sempre oportunidades que noutras alturas não existiriam”. Por isso, a empresa Calçado Guimarães tem feito o “esforço para continuar a expansão” que a levou, no ano passado, a abrir uma loja no Rio Sul Shopping e outra em Badajoz. Paulo Pereira, diretor executivo da empresa, realça, no entanto, que “a estratégia continuará sempre a ser a representação nos centros de cidade” porque “é um mercado que poderá decair mas nunca desaparecer”. O gestor reconhece “que as cidades estão a atravessar uma fase de decréscimo da atividade comercial” e justifica com a falta de “união entre os vários parceiros”. Nesse aspeto, admite que “apesar de muitas câmaras municipais apoiarem e incentivarem para que exista atividade nos centros históricos”, os centros comerciais levam vantagem, porque para atrair clientes “não chega só o produto e o preço, é também preciso melhorar o embrulho da loja”.

“Setúbal na Rede” – Qual o balanço que faz da atividade no distrito de Setúbal?

 

Paulo Pereira – O Calçado Guimarães tem alguma tradição no distrito. Iniciámos a nossa atividade em 1992, no centro da cidade de Setúbal, e foi aí que a nossa presença se foi cimentando. Fomos fidelizando clientes através da nossa postura habitual, dos preços que praticamos e da qualidade dos nossos produtos, fatores que tentámos manter ao longo do tempo e que nos fizeram ganhar clientes e crescer na cidade.

Mais tarde fizemos uma aposta num outro tipo de mercado com a abertura de uma loja de grandes dimensões no Atlantic Park de Setúbal. O Calçado Guimarães está aí representado por 730 metros quadrados que, de facto, fazem a diferença de uma loja pequena de cidade para uma loja com uma dimensão e capacidade de expedição maior. O público de Setúbal aderiu e temos tido bons resultados.

SR – No distrito de Setúbal o Calçado Guimarães tem ainda lojas em Almada, Barreiro e, recentemente, no Seixal.

 

PP – Sim, essa foi a nossa última aposta. É algo que já procurávamos há muito tempo para nos estabelecermos num outro lugar estratégico do distrito. Houve essa oportunidade e instalámo-nos num centro comercial do Seixal. Nessa nova loja avançámos já com a nossa nova imagem e com uma capacidade maior de exposição de todas as coleções que temos para oferecer. Esta é uma grande vantagem neste momento de forma a termos espaço suficiente para apresentarmos uma variedade completa de todas as gamas dos nossos produtos.

SR – O Calçado Guimarães continua a seguir dois conceitos de comércio diferentes, entre o comércio tradicional e a instalação de lojas nas grandes superfícies.

 

PP – Sim, são conceitos diferentes mas que se complementam. A estratégia do Calçado Guimarães é e continuará sempre a ser a representação nos centros de cidade. São lugares nobres da cidade que, apesar de agora sofrerem com uma transferência natural dos números de lojas para centros comerciais com maiores atrativos, continuam a ter uma importância vital.

Temos noção de que os centros comerciais oferecem melhores condições aos consumidores para permanecerem no espaço, quer em tempos de Inverno, com a chuva lá fora, quer em tempos de Verão, garantindo um ambiente mais fresco. No entanto, a nossa postura é nunca abandonar os locais tradicionais do centro da cidade onde começámos a nossa atividade. É um mercado que, na nossa perspetiva, poderá decair mas nunca desaparecer. Temos noção de que as cidades estão a atravessar uma fase de decréscimo da atividade comercial e isso nota-se no declínio da dinâmica dos comerciantes. Contudo, é apenas uma questão transitória porque, a partir do momento em que se fazem reinvestimentos no comércio local, em que as próprias autarquias apoiam o investimento dos proprietários na mudança dos edifícios e na melhoria das condições, as coisas tendencialmente mudam e isso nota-se. Esse fenómeno já se verificou em várias cidades.

No caso particular de Setúbal fizemos um investimento há cerca de um ano que acompanhou a renovação da imagem do Calçado Guimarães. Fizemos uma obra de fundo na loja de Setúbal para melhorar o chão, as paredes, o teto e a iluminação. Ou seja, fizemos uma loja nova no sítio onde já estávamos inseridos. Acredito que estas renovações fazem falta à atividade comercial. Muitas das vezes, o enfraquecimento da atividade não se verifica apenas pela falta de visão dos empresários, mas também por uma certa inércia que não permite continuar a captar o público mais jovem. Com o passar do tempo, a tendência é que os estabelecimentos fiquem degradados e, por esse motivo, é preciso renová-los para continuar a atrair clientes. Não chega só o produto e o preço, é também preciso melhorar o embrulho da loja.

SR – Sente que falta união e uma estratégia comum aos comerciantes dos centros históricos para criarem atrativos semelhantes aos que existem nos centros comerciais?

 

PP – Exatamente. Penso que a dinâmica falha também por aí. Apesar de muitas câmaras municipais apoiarem e incentivarem para que exista atividade nos centros históricos, muitas vezes essa dinâmica não é atingida pelos próprios comerciantes. Naturalmente, a gestão comum dos centros comerciais faz com que as coisas funcionem de outra maneira. Os estabelecimentos comerciais fecham todos à mesma hora e partilham regras em relação ao seu funcionamento. Estes fatores levam a que se verifiquem melhores efeitos. Penso que é isso que falta nas cidades, a união entre os vários parceiros que, apesar de poderem ser concorrentes, não deixam de ser cúmplices num espaço que deveria ser de eleição.

SR – Entre essas duas vertentes, qual a que sente hoje mais fortemente a crise?

 

PP – É transversal. Nós podemos até estar a atravessar uma época de crise, é algo que é notório, mas no nosso caso particular termos curiosamente crescido numa altura de maiores dificuldades. Em muitas das situações mantivemo-nos sem qualquer tipo de quebra e conseguimos crescer com os nossos novos espaços. Inclusivamente chegámos a atingir a hipótese de nos expandirmos, algo que desejávamos há muito tempo. O ano passado abrimos a nossa primeira loja em Badajoz, Espanha, e voltámos a apostar na localização num centro comercial. É uma situação que se nota transversalmente porque, tanto num caso como no outro, nota-se que há uma certa retração no futuro. Tivemos de crescer com novas coberturas, e fizemos um bom ano sendo que, contrariamente às expectativas iniciais conseguimos manter os números. O que era antigamente uma desgraça por não conseguirmos crescer, hoje já é uma vitória. Enfim, temos de nos adaptar a esta nova forma de pensar e encarar a crise como algo que não é eterno e que é possível de ultrapassar.

SR – Como justifica esses bons resultados no contexto em que vivemos?

 

PP – O sucesso que temos tido está relacionado com um conjunto de situações e de resultados nos trabalhos que têm sido desenvolvidos já há muito tempo, tendo sempre por base a constante procura pelas novas tendências, materiais e produtos. O Calçado Guimarães tem seguido a filosofia de tentar conseguir sempre os produtos com a melhor qualidade e o menor custo possível. Ou seja, a nossa aposta principal é democratizar o acesso da moda à universalidade das pessoas porque sabemos que nem todas conseguem atingir o mesmo patamar da alta-costura e design de preços impraticáveis. É isso que temos feito no âmbito de um trabalho que já tem muitos anos, pela procura de coleções e de melhores produtos com os melhores preços para conseguirmos alargar cada vez mais o nosso leque de clientes.

SR – Como é feita a escolha de fornecedores do Calçado Guimarães?

 

PP – São vários os tipos de fornecedores que temos, sendo que na sua maioria são portugueses. Temos também calçado importado da Espanha, Bélgica e Itália, com diversas gamas de produto e um grande leque de artigos. Como referi, a maior parte dos fornecedores são nacionais porque fazemos questão de também proteger e apostar no que é nosso. A nossa portugalidade começa no nome, Calçado Guimarães, e as nossas escolhas são feitas através de critérios de seleção de fornecedores que têm muito a ver com os produtos que vendemos. Há um grande foco em perceber exatamente que tipo de calçado queremos e a que franjas dos nossos clientes se dirigem. Este procedimento faz com que um cliente que entra numa das nossas lojas, independentemente do seu status social, possa ter uma escolha acertada para ele. É uma filosofia simples mas é ao fim ao cabo a que tem produzido resultados.

SR – Este é um fator de distinção que o Calçado Guimarães tem em relação à concorrência?

 

PP – Não posso falar das outras empresas, mas acredito que sim. Talvez a forma de encarar o público, ou a nossa distinção e a forma de atendermos o cliente e de tentarmos sempre procurar captar novos clientes distinga o Calçado Guimarães da concorrência. Neste momento podemos dizer que temos quatro ou cinco gerações de clientes. São muitos anos de atividade como empresa, iniciada em 1979, e muitos anos a calçar avós, mães, filhos e netos. Isto representa, no nosso caso, enquanto empresa, o nosso esforço em conseguirmos estar sempre atualizados. É isso que faz a diferença. Mantemo-nos atualizados e procuramos sempre agradar à grande maioria dos clientes.

SR – Sente que isso é reconhecido pelo público?

 

PP – Eu creio que sim. Existe um reconhecimento direto do público quanto à nossa atividade. Podemos observar que, apesar de não termos uma grande aposta na publicidade, temos tido bons resultados e temos conseguimos medir o reconhecimento do público que continua a aderir às nossas lojas. É uma forma de estar e apostamos mais no marketing do produto do que propriamente no marketing mediático. Essa é a nossa filosofia e as nossas escolhas têm dado resultados.

SR – O Calçado Guimarães tem também uma loja online. Que balanço faz dessa atividade?

 

PP – Felizmente foi uma aposta ganha. Em três anos de atividade temos verificado níveis de crescimento homólogos na ordem dos 120 por cento. Sabemos que estamos a começar e que é no início que essas situações se apresentam. Mas esta é uma atividade com grande potencial, apesar do nosso receio inicial em relação às características próprias dos produtos que as pessoas fazem questão de experimentar. Essa foi uma dúvida que conseguimos ultrapassar através de um sistema de troca fácil. Uma pessoa que compre na Internet pode, com toda a facilidade, exigir fazer uma troca em qualquer uma das lojas físicas ou por via postal sem custos de envio. Só tem de nos enviar os sapatos e nós devolvemos sem custos o tamanho desejado. Essa foi uma aposta grande e que tem estado a dar resultados.

A verdade é que existe uma grande relação entre a venda online e a atividade física. Temos também conhecimento de algumas pessoas que experimentam na loja e que depois encomendam online, ou que veem um modelo numa loja online e acabam por procurá-lo na loja física. Por isso, acaba por ser também uma porta para o conhecimento da marca e da variedade que temos e, ao mesmo tempo, uma porta para que, no conforto da casa, os nossos clientes possam fazer as suas próprias compras. A loja online é também uma plataforma de ajuda porque, por vezes, as pessoas não encontram o tamanho certo na loja e podem encomendá-lo a partir de casa.

Tudo isto é uma situação que não é muito inesperada, face à evolução do mercado e à própria relação da juventude com a Internet. Acaba por não ser uma grande surpresa que o mercado esteja em ascensão. Os últimos relatórios são evidentes de que o potencial desta plataforma é enorme. Isto tudo acarreta uma outra situação que é ter de se preparar uma estrutura que funcione dessa forma. Não é só interessante e engraçado, implica também uma estrutura e logística diferente que atualmente não é totalmente comportável. Teve de ser tudo bem faseado e com um crescimento muito sustentado de forma a ser uma aposta ganha.

SR – Há perspetivas de expansão em número de lojas?

 

PP – A perspetiva de crescimento faz sempre parte da nossa estratégia e tem sido seguida, apesar da situação económica do país. Enquanto empresa, temos de ter a consciência de que nestas situações de crise existem sempre oportunidades que noutras alturas não existiriam. É nesse aspeto que temos feito o nosso esforço para continuar a expansão conforme os nossos planos.

SR – A filosofia do Calçado Guimarães é encarar a crise como uma oportunidade?

 

PP – A verdade é que temos de aproveitar cada momento como uma oportunidade e a atual conjuntura económica é um deles. As crises não são eternas e hão-de ser superadas. Quem conseguir arregaçar as mangas e levar as coisas para a frente, mais tarde ou mais cedo, vai ter o seu retorno. É nisso que vamos continuar a apostar.