“Começamos a sentir sinais de confiança do consumidor”

“Começamos a sentir sinais de confiança do consumidor”

Desde setembro do ano passado que o Rio Sul Shopping tem vindo a registar dados “animadores em termos de tráfego e em termos de vendas”, o que faz os seus responsáveis sentirem-se “otimistas” e terem “confiança no futuro”. O diretor do centro comercial reconhece que a atividade foi “afetada pela crise”, mas a situação está a inverter-se porque há uma “nova confiança do consumidor na economia” e porque se trabalhou no sentido de “não esquecer os clientes”, de “renovar constantemente o espaço” e de garantir “a entrada de novas insígnias”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Luís Pinto Soares destaca igualmente a “forte envolvência com a comunidade”, nomeadamente através de ações desenvolvidas no espaço e que tornam o centro comercial num “espaço familiar”.

“Setúbal na Rede” – Que balanço se pode fazer da atividade recente do Rio Sul Shopping?

 

Luís Pinto Soares – O Rio Sul Shopping existe, como centro comercial, há oito anos, quando veio preencher uma lacuna em termos comerciais e de espaços de lazer no concelho do Seixal e tem vindo a ter um tráfego médio à volta dos oito milhões de visitantes. Em termos de performance, tal como todos os espaços comerciais, fomos afetados pela crise mas, dada esta nova confiança do consumidor na economia, e também pelo facto de estarmos constantemente a renovar o nosso espaço, estamos a viver uma tendência inversa. Ou seja, desde setembro do ano passado, que temos refletido estes sinais positivos de que agora se fala, tanto em termos de tráfego como em termos de vendas.

Fazendo um balanço desde o princípio do ano, por exemplo, estamos a crescer 4,7 por cento em tráfego e 5,4 em vendas, fruto não só das ações de marketing que fazemos para captar clientes e para satisfazer as suas necessidades, mas também devido ao mix de lojas de que dispomos. Nós temos um cliente fiel, pois apesar do centro só ter oito anos, como espaço comercial temos vinte, pois abriu em 1994 apenas como hipermercado com uma galeria de lojas associadas. Isto permitiu criar uma proximidade muito grande com o nosso cliente, o que faz com que, sendo um centro de menores dimensões face à concorrência mais direta, as pessoas o escolham como local de encontro, de convívio, de consumo e para passar alguns momentos.

SR – A recuperação não tem tanto a ver com a cativação de novos clientes mas sim com uma mudança de comportamento, ou seja, podemos dizer que a crise está a passar?

 

LPS – Não podemos dizer que a crise está a passar, pois só o Governo o poderá dizer. Mas começamos a sentir sinais de confiança do consumidor na economia, mas também temos trabalhado no sentido de, por um lado, não esquecer os nossos clientes, com as ações que fazemos e que lhes são vocacionadas diretamente, mas também com a renovação de novos espaços e a entrada de novas insígnias. No ano passado, por exemplo, entraram quinze novas insígnias neste centro comercial e isso reflete o caráter dinamizador e interativo que pretendemos. Por outro lado, também temos uma forte envolvência com a comunidade através de ações que desenvolvemos, quer por nossa iniciativa, quer por iniciativa da comunidade e tudo isto acaba por tornar o centro comercial um espaço familiar. Não vou dizer que a crise esteja a passar, porque não está, pois continuamos a ter algumas dificuldades, as pessoas e as empresas continuam a ter dificuldades. O consumidor continua a ver a sua receita mensal a ser cortada mas, em alturas de crise, este que é um espaço mais familiar e mais pequeno acaba por ser bem acolhido e está no topo da preferência dos consumidores locais.

SR – Tem havido muita rotatividade de lojas?

 

LPS – A rotatividade de lojas é algo que faz parte da realidade de um centro comercial. Os centros comerciais são espaços vivos que mudam, há conceitos que se adaptam ao mercado, há conceitos que não se adaptam, há conceitos que foram afetados pela crise, mas felizmente a nossa procura de espaços mantêm-se. Havendo rotatividade, há maior possibilidade de colocar conceitos que estão neste momento em voga e que é aquilo que o cliente procura.

SR – Mas houve situações de insolvência na origem do encerramento de algumas lojas?

 

LPS – Significativamente não houve. Há várias razões para os espaços fecharem, desde a inadaptalidade à procura do consumidor à inadaptalidade ao mercado e isto quer em ternos de crise ou sem crise. Nós temos uma atenção especial para com os nossos clientes lojistas e fazemos um acompanhamento regular. Quando achamos, em conjunto, que um conceito não está a resultar, entramos em negociações com o lojista no sentido de encontrarmos uma alternativa ou então, face às alternativas que temos de procura do centro comercial, poderemos ter uma janela de oportunidade de aceitar uma nova insígnia e chegamos a acordo com os lojistas.

SR – Apesar da situação de crise tem havido marcas interessadas em instalar-se?

 

LPS – Estamos em vésperas de abrir seis novas insígnias neste centro comercial, o que significa que existe procura, embora ainda existam, infelizmente, algumas limitações em termos de mercado, pois as empresas ainda não têm os apoios que já tiveram no passado, porque abrir um espaço requer algum investimento. O centro nunca deixou de ter procura porque temos um tráfego bastante interessante, com cerca de oito milhões de visitantes por ano, e isso já revela a atividade que o centro tem. Por outro lado, é um centro que está bem localizado, tem bons acessos e tem boas insígnias, pois o que faz a atratividade de um centro são também as insígnias que tem, além dos serviços que podemos proporcionar. Portanto, o centro continua com atratividade e felizmente já começa a haver algum apoio da parte das instituições bancárias para quem quer investir. Outro dos nossos objetivos é tentar também trazer novos conceitos, conceitos locais, para o centro comercial e alguns projetos estão a avançar.

SR – O que podemos entender por conceitos locais?

 

LPS – São operadores de rua que contatam connosco, interessados em abrir lojas no centro. Hoje os centros funcionam basicamente todos alinhados e uma das formas para nos podemos diferenciar, para além dos serviços que oferecemos, é termos novas insígnias. Há efetivamente um número de operadores, que operam habitualmente na rua, que estão interessados em fazer experiências em centros comerciais e que nos têm contactado e temos fechado alguns negócios nesse sentido.

SR – Estamos também a falar de uma nova realidade, pois o comércio tradicional está também a ocupar agora um espaço nos centros comerciais?

 

LPS – Posso dizer que neste centro abrimos uma frutaria, que é algo que não se costuma ver e até penso que é o único centro comercial do país que tem uma. É de um operador de rua que tem estado a ter uma aceitação muito grande, o espaço ficou bonito e a qualidade dos produtos é boa. Temos restaurantes interessados em abrir novos espaços, assim como lojas de moda. Nós temos as portas abertas a todos aqueles operadores que estejam interessados em trabalhar connosco e que poderão vir a ser uma mais-valia para o centro comercial. Temos de fazer uma gestão equilibrada do mix e a novidade é um fator diferenciador e é isso que procuramos, até porque o operador local também tem outra vantagem, pois já está familiarizado com o mercado, embora sendo um mercado de rua.

SR – Afinal, o centro comercial é ou não um inimigo do comércio tradicional?

 

LPS – Os centros comerciais são um complemento aos centros de rua das cidades e acho que os centros da cidade são complementos aos centros comerciais. Os centros da cidade têm as suas caraterísticas próprias e os centros comerciais têm também as suas caraterísticas próprias, entre as quais o seu horário. Os centros comerciais assumem-se como espaços de consumo e de lazer, são pontos de encontro, onde as pessoas podem vir esteja sol ou esteja chuva, onde em qualquer altura se sentem confortáveis e em qualquer momento podem vir às compras. As pessoas que privilegiam outra vertente e têm disponibilidade de tempo para o fazer, podem deslocar-se aos centros das cidades e apanhar ar livre, mas nada impede que o mesmo conceito esteja nos dois espaços. Os operadores locais que nós temos não fecharam os seus espaços na rua e complementam a sua atividade aqui no centro precisamente pelo facto de termos um número avultado de visitantes, temos o cliente fidelizado, temos potencial para captar novos clientes e ainda o facto de podermos continuar a atividade para além de um determinado horário com o qual estão habituados a trabalhar. São duas atividades que se complementam, pois quanto mais e melhores lojistas tivermos, mais captação trazemos para as cidades, e quanto mais lojistas o centro da cidade tiver mais pessoas temos que possam vir a visitar-nos, dadas as nossas caraterísticas de complementaridade. É por isso que as nossas ações de marketing também visam captar os vários públicos, não só da nossa zona de influência primária, como também de outras zonas de influência.

SR – Que relação tem este centro comercial com o Seixal?

 

LPS – Temos uma relação muito grande com a comunidade, pois esse é um dos nossos principais objetivos. Por exemplo, fazemos ações que visem sensibilizar a população para questões de segurança ou de ambiente, como uma feira de energias alternativas ou a feira de emprego e formação desenvolvida com o centro paroquial da Arrentela. Recebemos no ano passado vinte instituições de cariz social, que utilizam este espaço para fazer as suas ações de captação de fundos para poderem desenvolver as suas atividades. Quer seja por iniciativa própria, quer quando somos contactados por operadores a pedirem o nosso apoio, temos sempre as nossas portas abertas para iniciativas e sempre que possível nós apoiamos.

SR – Como define a área de influência do centro e qual o perfil do cliente?

 

LPS – A nossa área de influência primária é o concelho do Seixal e todas as zonas envolventes. No entanto, captamos uma percentagem de clientes que vem de Almada, alguns clientes de Palmela e uma percentagem muito reduzida que vem de Setúbal. Mas a nossa área de influência primária aqui à volta são 130 mil habitantes. Tendo em consideração toda a envolvência, conseguimos captar uma área que vai até 430 mil habitantes. 62 por cento dos nossos clientes são famílias jovens, de classe média e que abrange praticamente todas as faixas etárias. Mas basicamente, como somos um centro familiar, a maioria do tráfego são famílias recém-formadas ou já consolidadas, também porque as nossas campanhas visam essa interação, pois fazemos imensas atividades para crianças.

SR – Pode explicar o conceito de centro comercial familiar?

 

LPS – O centro comercial familiar é um centro que satisfaz as necessidades da família na sua totalidade, ou seja, da senhora, do esposo e da criança. Dando uma volta pela nossa área central, temos um parque infantil rodeado de lojas para crianças. Todos os fins-de-semana fazemos atividades para crianças, desde ateliês, como teatros, como espaços com oficinas didáticas, que recebe em média cerca de 750 crianças. Fazemos ações promocionais para apoiar as famílias nas suas compras. Criámos um espaço infantil na restauração para as famílias alimentarem os seus filhos mais pequenos e remodelámos os nossos fraldários. Temos um parque infantil também no exterior, ao lado da esplanada da restauração. Portanto, tudo é visto de forma a integrar a família no conjunto, não esquecendo ninguém. Depois, temos todas as áreas destinadas a compras para o segmento mais feminino e mais masculino, mas pretendemos até no mix de loja ter essa questão bem delineada na nossa estratégia.

SR – A estratégia passa por afirmar este espaço não apenas como um espaço comercial mas também de lazer?

 

LPS – Somos um centro que assume as duas vertentes, de lazer e comercial, assim como todos os centros da Sonae CR. Nós pretendemos que os nossos espaços extravasem a componente do comércio e que sejam pontos de encontro, sendo que a fonte de receitas é a vertente comercial. Mas pretende-se que estes espaços sejam mais do que espaços de consumo e que sejam sobretudo centros de encontro. Inclusivamente, temos uma componente de serviços desde farmácia a um dentista. Portanto, o objetivo é irmos satisfazendo as necessidades das pessoas nas mais diversas vertentes.

SR – Sente que isso é reconhecido pelos clientes?

 

LPS – Fazemos todos os anos um estudo de mercado aos nossos clientes, precisamente para ver qual é o seu grau de satisfação face ao centro comercial, quais as suas expetativas e o que é que valorizam e a maior parte dos nossos clientes está satisfeita com o centro comercial. Bastante satisfeita até.

SR – Tem havido preocupação na renovação do próprio centro, mesmo em termos de infraestruturas?

 

LPS – Todos os anos o edifício tem um plano de investimentos que visa fazer melhorias no espaço, por um lado, e, por outro, incrementar e investir em coisas novas. No ano passado investimos na área destinada a famílias na restauração e no próprio parque infantil. A nível de estruturas do edifício, vamos colocar uma cobertura no exterior para maior comodidade dos nossos clientes, nomeadamente junto da tomada de táxis, para que se possa estar em boas condições, protegidos da chuva e do frio. Investimos na mudança do chão, no ar condicionado e houve mudança de equipamentos. Todos os anos são feitos investimentos e há a preocupação de melhorarmos, inovarmos e modernizarmos também em termos de imagem.

SR – Com integração e envolvimento dos próprios lojistas?

 

LPS – Todos os meses fazemos uma reunião com os nossos lojistas para dar o feedback daquilo que é a operação do nosso lado e ouvir as opiniões do outro lado. Alguns dos melhoramentos são resultantes do feedback que recebemos. Isso mostra a nossa abertura para ouvir e também dos lojistas virem falar connosco e nos mostrarem as suas preocupações. Na gestão do centro comercial tem que haver uma comunicação constante, seja com o nosso cliente consumidor seja com o nosso cliente lojista, e também eles estão satisfeitos. Temos lojistas que estão cá desde 1994, quando era apenas um hipermercado com uma dúzia de lojas à frente. Portanto, isto mostra a confiança que o cliente lojista tem no centro comercial e na vontade que tem de que as coisas funcionem. Alguns dos melhoramentos que fazemos são feitos tendo por base sugestões de lojistas, mas também estamos abertos a sugestões dos nossos clientes e recebemos algumas e aquelas que nos parecerem prioritárias e que façam sentido na altura são possibilidades que temos também para avançar.

SR – Como é que se posiciona este centro face à concorrência, nomeadamente tendo aqui perto o Almada Forum, um dos maiores centros da Europa, e estando para breve a abertura do Alegro de Setúbal?

 

LPS – Nós posicionamo-nos como um centro para o seu público, para o cliente que já nos conhece. Comunicamos com o nosso cliente de forma regular, acreditamos no “passa a palavra” e daí haver também o crescimento de tráfego. Face à concorrência, já marcámos a nossa presença e somos diferentes em termos de localização. Face ao Almada Forum somos mais pequenos, mas esse facto, principalmente em momentos de crise, é uma vantagem. O que nos difere são algumas lojas que eles têm e nós não temos, mas também se passa o contrário, com algumas lojas que temos e eles não têm.

Relativamente ao Allegro, apesar de não estar na nossa área de influência propriamente dita, se bem que ainda conseguimos captar cerca de três por cento de visitantes dessa área, vai ter impacto como têm todas as aberturas, mas acreditamos que será um impacto passageiro. Mas também não penso que esse impacto vá ser muito sentido quer no Almada Forum quer no Rio Sul, porque são localizações diferentes. Em termos de mix de lojas, as coisas também não vão diferir muito, mas vai haver a curiosidade de as pessoas irem conhecer o novo espaço e ver as diferenças que tem em relação àqueles que já existem. É mais um novo espaço, é algo para se conhecer e a que estamos atentos. Em termos de impacto, acreditamos que não nos irá afetar no dia-a-dia e o que vamos fazer é continuar a fortificar a relação com o nosso cliente lojista e com o nosso cliente consumidor.

SR – Que argumentos tem para fortalecer essa relação?

 

LPS – Para solidificar a relação com os clientes temos o trabalho já feito. Temos um centro agradável, confortável, cómodo, bonito, com uma arquitetura integrada e que procurou identificar-se com a localização onde estamos. Temos um mix de lojas muito bom, um número de lojas que consideramos razoável para um centro comercial, com 137 lojas. Temos um parque de estacionamento com 2300 lugares e gratuito. Temos fáceis acessos, estamos localizados ao lado da estação de comboio e facilmente pela autoestrada se chega cá. Temos uma oferta de serviços bastante interessante dentro daquilo que é possível ter num centro comercial. Há algo mais que gostaríamos de ter e estamos a trabalhar no sentido de vir a ter também. Temos um hipermercado, temos cinemas e temos o nosso cliente identificado connosco e nós estamos identificados com o nosso cliente.

SR – E têm confiança?

LPS – Temos muita confiança no futuro. Aliás, desde setembro que estamos a confirmar esta confiança, pois os dados de performance do centro são animadores em termos de tráfego, em termos de vendas e de vendas por setores também. O setor da moda está a evoluir nas vendas e a restauração também, que são os dois pontos dinamizadores num centro comercial. Isso faz-nos ser otimistas e ter confiança no futuro.