“As cooperativas nascem com a componente humana no centro”

“As cooperativas nascem com a componente humana no centro”

“As cooperativas de consumidores nascem para que estes possam aceder a produtos e bens de qualidade a preço justo”. Por isso, “a Pluricoop tem lojas de proximidade que estão bem inseridas nas comunidades” e aposta ainda no “desenvolvimento de várias ações, como é o caso de atividades desportivas, sociais e culturais”. Jerónimo Lopes e Jorge Santana, diretores da Pluricoop, não negam “a necessidade de chegar a níveis de rentabilidade que permitam que as lojas se mantenham”, mas afirmam a preocupação “de apoiar a economia local, regional e nacional, em estreita ligação com os produtores, garantindo produtos de qualidade a um preço justo para os consumidores”, até porque “Portugal é um dos países que tem das mais altas taxas de intermediação do mundo”. A Pluricoop está a procurar sair da situação a que tinha chegado com o encerramento da atividade e, neste momento, está numa fase de reabertura de lojas, quatro delas já a funcionar na península de Setúbal.

“Setúbal na Rede” – Qual a situação atual em que vive a Pluricoop?

 

Jerónimo Lopes – A Pluricoop está a procurar sair da situação em que tinha chegado com o encerramento da atividade e, neste momento, está numa fase de reabertura de lojas. É um processo que iniciámos, desde logo, com a necessidade de dar um sinal, quer aos consumidores, quer aos nossos fornecedores e à banca, no sentido de mostrar que era possível inverter a situação, depois da aprovação dos planos de insolvência, já numa perspetiva de recuperar algum do mercado e reabrir algumas lojas com vista ao funcionamento. Portanto, a Pluricoop neste momento está na fase final de obtenção dos seus financiamentos que permitam retomar a atividade da forma que está prevista nos planos de viabilização. Apesar de esse processo ainda não ter decorrido, reabrimos já cinco das nossas lojas, quatro delas de dimensão média aqui na península, as instalações de Setúbal, Poceirão, Palmela e da Baixa da Banheira. Até ao final do ano contamos poder reabrir até às 22 lojas, de acordo com o que está no plano de insolvência.

SR – Não vão reabrir todas as lojas que existiam?

 

JL – A Pluricoop tinha 34 lojas abertas e algumas delas vinham apresentando resultados negativos de forma consistente ao longo dos últimos anos. Portanto, há um conjunto de 12 lojas que não vão reabrir ainda durante este ano e que estarão aplicadas a estudos de viabilidade mais rigorosos no sentido de apurar quais delas poderão ser viáveis e contribuir para os resultados da Pluricoop.

Relativamente a estas lojas está também previsto no plano de viabilização algum desinvestimento para as instalações que não for possível reabrir. São projetos de desinvestimento que visam perspetivar e precaver aquelas que serão outras necessidades de financiamento que se colocam ao longo do percurso de recuperação e que, a algumas delas, o financiamento inicial não corresponderá.

SR – O que levou ao encerramento das lojas da Pluricoop?

 

JL – Houve um aspeto fundamental que levou ao encerramento e que tem a ver com a situação de intensa crise financeira internacional. A contração no mercado, fundamentalmente ao nível do crédito, afetou-nos de forma muito significativa. A Pluricoop procedeu a investimentos significativos na modernização das suas lojas e houve um processo de integração económica nas cooperativas que acabou por levar à fusão de várias delas e, portanto, isso ocasionou que neste prazo houvesse necessidade de fazer investimentos na casa dos 12 milhões de euros. Esse investimento surge com um enorme esforço de tesouraria, porque não houve um financiamento de médio ou longo prazo. Embora essas cooperativas tivessem património, de facto a Pluricoop acabou por assumir quer os passivos de fornecedores, quer o financiamento da modernização das lojas.

Quando chegámos a 2008 deparámo-nos com as necessidades muito urgentes dos bancos e cobradoras de crédito que pretendiam implementar uma diminuição drástica nos créditos a curto prazo. Em consequência, diminuiu-se muito os plafons de crédito existentes nos fornecedores e isso gerou uma situação de impossibilidade de fornecimento e uma dificuldade grande em termos de financiamento que acabou por impedir o abastecimento das lojas, originando um círculo vicioso. Sem produtos nas lojas não há vendas, sem vendas não há receitas. Portanto, digamos que esse foi de facto o aspecto fundamental que levou, num curto espaço de tempo, ao encerramento das lojas da Pluricoop.

SR – No entanto, o cenário económico não se alterou, estando hoje até agravado. Com que perspetivas retoma agora a Pluricoop a sua atividade?

 

JL – Essa foi a questão de fundo que nos levou também a nunca encarar a liquidação da cooperativa mas sempre a perspetivar que existiam condições para a sua viabilização. Não foram questões nem de mercado nem questões económicas que acabaram por levar a este processo. Foi de facto a inexistência de liquidez e a incapacidade de financiamento. O processo de insolvência permite que todos os envolvidos, de facto, façam contas e vejam se o projeto interessa ou não interessa. E de facto foi possível, com uma negociação e uma proximidade muito grande com fornecedores, trabalhadores e a banca, entender que ao ser reestruturada a dívida que tinha levado àquela situação de falta de liquidez a longo prazo, com um financiamento mínimo, seria possível voltar a pôr as lojas a funcionar, voltar a ter um mercado para fornecedores e fabricantes, e garantir um conjunto de postos de trabalho ainda bastante significativo. Por via dos números e do próprio plano de insolvência procurámos demonstrar aos fornecedores e às entidades financeiras que era possível ir caminhando nesse sentido. As duas primeiras lojas que reabrimos acabaram também por ter esse papel.

SR – Pensa que o modelo cooperativo terá neste momento dificuldades acrescidas na atual conjuntura económica?

 

JL – Dificuldades tem seguramente. Hoje, todos os setores têm muitas dificuldades. Do ponto de vista da vertente associativa e nas possibilidades daquilo que há de eventual fidelização dos consumidores, de facto, o mercado aponta para uma menor ou quase inexistente fidelização. Mas nós temos na Pluricoop 68 mil sócios da cooperativa. Portanto, sendo a questão da fidelização hoje muito ténue, nós temos uma base sobre a qual podemos desenvolver um trabalhar específico. Aquilo que fomos acompanhando ao longo do processo de insolvência, com algumas reuniões com os compradores e consumidores que se mostraram muito interessados na reabertura das lojas, foram-nos dando essa indicação. Portanto, existe a necessidade da abertura das lojas da cooperativa num ponto de vista geral e local. No fundamental, nós temos lojas de proximidade com dimensões diferentes que estão bem inseridas nas comunidades e essa é uma mais-valia neste momento.

SR – Que argumentos apresenta a Pluricoop perante os grandes espaços comerciais existentes por todo o país e que apresentam apelos ao consumidor muito mais fortes?

 

Jorge Santana – Relativamente a essas grandes superfícies, nós temos de ver que estas não estão inseridas nos centros habitacionais. Para as visitarem, os clientes gastam grandes recursos com transportes e hoje é possível verificar que existe uma grande contração na económica familiar, passando muito pela poupança, traduzindo-se na utilização menor do carro. As lojas de retalho de proximidade têm vindo a aumentar e nós acreditamos que temos condições de conseguirmo-nos integrar no mercado e desenvolver os nossos próprios princípios e a nossa vertente comercial. Apresentamos um mercado justo e as pessoas sabem com o que podem contar.

A Pluricoop apresenta também uma oferta diversificada e um novo modelo de loja que estabelece uma interação grande com o consumidor para perceber os seus desejos e fazer com que participe na vida da loja. Por outro lado também, pretendemos passar a cooperativa para fora daquilo que é a sua esfera comercial, participando no desenvolvimento das sociedades no local onde as lojas estão inseridas. Este processo é importante para nós porque acreditamos que o desenvolvimento tem de ser para todos, de uma forma equitativa. À partida, existem condições de colaborar nesse desenvolvimento e encontrar um modelo e um projeto comuns a todos e que nos façam beneficiar disso.

SR – Como referiu há pouco, um modelo cooperativo pressupõe a participação dos consumidores. Como é possível desenvolver esta perspetiva de cooperação?

 

JS – É difícil mas não impossível. Acreditamos que podemos ter sucesso nesse modelo, apesar de a participação das pessoas na sociedade ser cada vez mais ténue. Temos noção também de que a nossa gestão tem de ser transparente e dirigida integralmente no sentido de valorizar estes padrões. Procedemos, numa primeira fase, atraindo os nossos compradores à loja e, numa segunda fase, fazendo com que participem na vida da cooperativa. A cooperativa foi criada com um objetivo, por um lado pela vertente comercial e por outro pelo sentido social. O nosso objetivo é trazer os reais donos da cooperativa até à cooperativa, criando aqui algum índice de fidelização. A nossa estratégia de proximidade passa também pelo desenvolvimento de várias ações que fazem parte do nosso estatuto, como é o caso de atividades desportivas, sociais e culturais. Acreditamos que por esta via conseguiremos trazer os consumidores às nossas lojas.

SR – Acreditam que os 68 mil sócios se sentem de facto como donos da cooperativa?

 

JL – Muito seguramente. Neste momento alguns poderão sentir a cooperativa um pouco mais afastada, mas seguramente que sim. Vamos procurar reforçar esses laços de proximidade entre o associado e cooperativa e procurar que haja também um reflexo em termos de financiamento.

Neste momento, a cooperativa tem várias atividades em desenvolvimento com os sócios, como é o caso dos grupos corais, grupos de pesca ou de chinquilho. Também o grupo de cicloturismo vai com certeza voltar a dar muitos e grandes passeios e ao fazê-lo levará a imagem da cooperativa a muitos lados. Portanto, toda esta atividade vai ser reforçada. Nestes dois dificílimos anos realizámos algumas reuniões com delegações locais e hoje encontramo-nos a desenvolver experiências diferentes. Vamos procurar reforçar esta valência, mantendo sempre, em todas as vertentes, esta característica diferente da empresa cooperativa.

Também em relação ao escoamento da produção local, regional e nacional, quando olhamos para os dados de 2009, os produtos que passaram nas caixas das lojas da cooperativa estão representados em 83 por cento pela produção nacional. E se esta percentagem não é maior é porque houve, em algumas alturas, a necessidade de oferecer produtos fora de época, tendo de ser importados doutros locais, como é o caso da banana ou da batata. Mas de facto, já estamos a tentar negociar com as associações de produtores na área agro-alimentar e já existe uma relação muito próxima também com as cooperativas agrícolas nesse sentido. Por esse motivo, vamos ter sempre presente a componente de apoiar a economia local, regional e nacional, em estreita ligação com os produtores, garantindo produtos de qualidade a um preço justo para os consumidores.

SR – Por onde passa a preocupação da cooperativa na vertente social?

 

JL – Essa questão é, de alguma forma, inata à própria cooperativa. Porque nem só de pão vive o homem, as cooperativas são entidades que nascem com a componente humana no centro do seu interesse para resolver problemas concretos e dar resposta a necessidades concretas do ser humano. É obvio que as cooperativas de consumidores nascem para que os consumidores possam aceder a produtos e bens de qualidade no tal preço justo de que falávamos. Mas como seres humanos que são têm também necessidade de ter uma atividade social e cultural forte e que esteja presente na sua vida.

De forma natural, surge a vertente associativa da cooperativa. Existe património de espaços que permitem o usufruto de grupos de teatro que podem utilizar os locais da cooperativa para fazer os seus ensaios e para trabalhar, como foi o caso de Samora Correia e de outros locais. Estamos também a falar de pessoas que são consumidores, sócios da cooperativa, que têm capacidade de iniciativa, necessidades e, naturalmente, a cooperativa tem todo o interesse em apoiar e criar as condições para que também por aí estes sócios se realizem.

SR – Também esteve sempre presente nesta cooperativa a defesa dos direitos do consumidor. Como é que conciliam a vertente de negócio com esta componente?

 

JS – As cooperativas foram criadas como instituições de defesa dos consumidores. A primeira cooperativa foi criada com o objetivo de os seus próprios cooperadores poderem, por um lado, ter acesso aos produtos que não tinham e por outro ter acesso a esses produtos através de preços justos. Nós não conseguimos dissociar a ação do negócio da cooperativa da defesa do consumidor, pois faz parte da ação e dos genes das cooperativas. A economia social rege-se por elevados padrões de ética e por princípios intransigentes no desenvolvimento da económica regional e nacional. Por outro lado, uma ação com uma postura dinâmica e justa vem defender os próprios consumidores.

Um agente económico que promove também um gabinete de defesa do consumidor substancia a ideia de que não está no mercado para enganar o consumidor. Aliás, os apelos ao consumo nas cooperativas são muito diferentes das outras áreas comericias. O nosso objetivo não é tentar levar o consumidor a comprar, mas fazer com que este compre o que quer e que tenha noção da gestão da sua economia familiar. As pessoas têm cada vez menos poder de compra e nós temos de ter uma ação de crescimento e de colaboração com o consumidor para que todos possamos caber dentro deste negócio.

SR – Como conjugam o papel de defesa dos consumidores com as necessidades dos produtores na obtenção de lucro?

 

JL – Penso que o grande problema de Portugal é que é um dos países que tem das mais altas taxas de intermediação do mundo. Ou seja, a diferença do preço pago entre a produção e o consumidor é enorme. Portanto, o que é interessante para todos é encontrar parcerias que sirvam todos os interesses. Tem-se verificado nos últimos meses algumas movimentações e há até necessidade do governo desenvolver um esforço de arbitragem e regulação no sentido de contrariar situações extremas que se têm.

Havendo, naturalmente, em todo o processo interesses diversos, julgo que os tempos de hoje obriguem a que seja colocado mais o enfoque na questão das parcerias pelo facto de todos dependermos da necessidade de encontrar situações de equilíbrio que permitam que o mercado se continue a desenvolver.

Portanto, esta também é uma das causas de agudização da crise e das dificuldades que as familias têm em aceder a esses bens de consumo e de géneros básicos e fundamentais para manter a sua qualidade de vida. Julgo que aqui temos um papel importantíssimo e que é este caminho que importa percorrer para que seja possível encontrar pontos de equilíbrio e de interesse comuns, permitindo que produtores não sejam tão penalizados e que consumidores possam adquirir produtos de qualidade a um preço aceitável.

SR – Também os funcionários pretendem ver os seus direitos assegurados depois de uma situação complicada de dois anos. Quais as garantias que estes têm neste momento?

 

JL – Há de facto a necessidade de uma profunda restruturação. O que é facto é que as alterações que se foram produzindo no consumo obrigam a que se produzam também alterações na disposição das lojas no sentido de que estas possam rentabilizar aquilo que são as capacidades de trabalho dos funcionários da Pluricoop.

Nesse sentido as lojas que reabrimos já mostram isso. Portanto, diria que estamos a percorrer bem esse caminho. Há uma participação extraordinariamente positiva de todos os trabalhadores da cooperativa e este caminho tem sido fundamental para eles. O plano existente permite a viabilização de 172 postos de trabalho e, portanto, julgamos que é de assinalar esta capacidade de ter postos de trabalho face à alternativa da extinção, à partida, de 314 empregos.

Os tempos são difíceis para todos e há uma atitude nova que tem de ter expressão nos dirigentes dos quadros e em todos os trabalhadores da Cooperativa que têm sido inexcedíveis e têm arregaçado as mangas e mantido um empenhamento no trabalho que permitiu que chegássemos aqui. Existe a necessidade de chegar a níveis de rentabilidade que permitam que as lojas se mantenham e que aquilo que os consumidores têm de pagar pelos seus produtos que seja concorrencial com aquilo que se pratica no setor