“Deixa de fazer sentido ser empresário em Portugal”

“Deixa de fazer sentido ser empresário em Portugal”

“As empresas estão a encerrar a um número galopante, tudo porque o Governo mediu mal as consequências desta política de austeridade ao apertar o cinto dos comerciantes e dos consumidores para tentar extrair o máximo possível de verbas”. A conclusão é de Francisco Carriço, presidente da Associação de Comércio e Serviços do Distrito de Setúbal, que considera que se está “a matar o país com o consentimento de todos”. O dirigente defende que “a maneira como as medidas estão a ser impostas é completamente insustentável” e explica que “os casos de pobreza maiores são precisamente os dos empresários que entraram em insolvência”. Para ajudar a dar a volta à situação, a associação pede “uma maior abertura por parte das autarquias” para se criar “um projeto comum de salvação dos centros históricos das cidades”. Numa altura em que esta associação está em fase de agregação à Aerset, Associação Empresarial da Região de Setúbal, o seu presidente espera atingir a “força máxima em termos de representatividade” para “conseguir ser muito mais ouvidos pelo Governo e pelas autarquias”.

“Setúbal na Rede” – Como vê a situação atual do comércio no distrito de Setúbal?

 

Francisco Carriço – O comércio continua a viver uma situação muito má, tal como todos os outros setores. Este Governo decidiu tomar políticas de recessão económica que têm prejudicado em muito os comerciantes portugueses. Para fazer face à situação atual que vivemos seria necessário aumentar os níveis de Produto Interno Bruto e, com isso, enriquecer Portugal. No entanto, estamos há cinco anos a assistir à diminuição desses valores, que decrescem de ano para ano e conduzem a uma degradação de toda a economia nacional, em todos os setores de atividade. A verdade é que o comércio é o grupo que mais sofre em alturas de crise.

SR – Que retrato faz das dificuldades que o comércio atravessa hoje no distrito?

 

FC – O comércio em Setúbal acaba por sofrer a todos os níveis, tanto no centro histórico da cidade, como nas grandes superfícies. Os impostos e a banca agravam a situação ao prender completamente a atividade comercial, tendo em conta a falta de aposta nos comerciantes que se tem gerado. A maneira como as medidas estão a ser impostas é completamente insustentável. Acredito que os impostos deveriam ser aplicados consoante a dimensão de cada empresa. As micro e pequenas empresas são prejudicadas com estes aumentos generalizados, e ainda as fazem avançar com verbas para o Estado, com impostos como o pagamento por conta ou o pagamento especial por conta, num pressuposto de lucro que nunca vai existir. As decisões que este Governo tem tomado estão a descapitalizar as empresas que deixam de poder fazer os seus próprios investimentos e melhorar a sua situação financeira.

Por outro lado, existe também uma série de outros impostos que atingem especialmente o setor da restauração. O aumento do IVA em relação a este grupo, que foi de 13 para 23 por cento, representou na realidade um aumento de 78 por cento. A restauração não estava devidamente preparada para conter o agravamento de impostos e os seus efeitos, tendo acabado por sofrer com isso.

Vemos hoje as micro e pequenas empresas locais a serem estranguladas com medidas que o Governo apresenta e que agravam a sua situação financeira. Por sua vez, o agravamento das suas condições económicas conduz a um cerco mais apertado imposto pela banca que não vê esperança no setor do comércio, numa altura em que os próprios consumidores estão a perder poder de compra. Deixa de fazer sentido ser empresário em Portugal. É uma situação sufocante que faz com que os empresários não tenham saída desta descapitalização e que deixem de fazer investimentos fundamentais para a sobrevivência do negócio. O comércio precisa de melhorar as montras sazonalmente, as prateleiras, o software da máquina registadora, toda a parte informática da empresa e todo o aspeto de publicidade e de promoções. Para tudo isso, é necessário ter capital disponível para o fazer, alimento que o Estado retirou. É impossível que hoje uma empresa média do comércio e serviços possa sobreviver.

SR – Essa situação reflete-se no encerramento de lojas?

 

FC – Exatamente. As empresas estão a encerrar a um número galopante, tudo porque o Governo mediu mal as consequências desta política de austeridade ao apertar o cinto dos comerciantes e dos consumidores para tentar extrair o máximo possível de verbas. As empresas estão a morrer, a economia nacional está a morrer e, fundamentalmente, as micro e pequenas empresas, responsáveis por cerca de 92 por cento dos postos de trabalho do país, estão a entrar em insolvência e a criar um número brutal e histórico de desemprego em Portugal. Estamos a matar o nosso país com o consentimento de todos e com o aplauso do Governo e dos anteriores Governos, que também nos fizeram caminhar para esta situação.

SR – Quais as situações que esta associação tem encontrado nos últimos tempos?

 

FC – Encontramos casos muito complicados de empresários que ficaram sem os seus negócios e que não têm direito ao desemprego. Na verdade, os casos de pobreza maiores neste país são precisamente os dos empresários que entraram em insolvência, acabando por perder a própria empresa e tudo o que tinham para a sustentabilidade da sua vida pessoal.

As situações mais degradantes a que assisti foram, precisamente, as de antigos empresários que deram tudo pelo país, criaram postos de trabalho e contribuiram para a riqueza nacional na altura em que estavam abertos. Depois de fecharem as portas, os únicos contributos do Governo foram impostos avultados e a miséria. Não têm direito a subsídio de desemprego, têm as vidas completamente arruinadas e estão no estado mais degradante que existe neste país.

SR – Como reage às acusações de que as empresas que fecharam foi por não saberem adaptar-se aos tempos atuais?

 

FC – Houve em todo o país alturas em que o tecido empresarial não estava dotado de conhecimentos suficientes para levar os seus negócios para níveis de sucesso. O comércio era dominado por micro e pequenos empresários, com lojinhas de bairro, mercearias, tasquinhas e pastelarias. Por outro lado, também sabemos que mesmo não tendo esses conhecimentos, conseguiram conduzir os seus negócios numa altura em que era possível, em que havia as condições necessárias para os levarem para a frente. Vivíamos uma época de grandes alterações de mercado e políticas, como a entrada de Portugal para a União Europeia.

No entanto, essa altura acabou por não ser tão propícia como se esperava que fosse. Os bancos corriam atrás dos comerciantes para que estes aceitassem créditos, levando-os ao endividamento.

SR – Pode-se dizer que esta crise está a motivar uma seleção natural própria da evolução, em resultado dos maus investimentos que foram feitos no passado?

 

FC – Precisamente. Esta crise está a conduzir a uma seleção natural, sem que nós consigamos tirar partido desta situação. Quando esta associação contactou o anterior Governo foi-nos dito que resistiriam as melhores empresas. A verdade é que os melhores é que acabam por pagar a gordura do Estado, não sendo suficientes em número para o fazer na totalidade. As empresas que ficam vivas acabam por ter de suportar estas medidas de austeridade.

SR – É possível constatar que o comércio tradicional está a sofrer com a falta de planeamento que, por sua vez, contrasta com a resistência das grandes superfícies comerciais?

 

FC – Todos nós assistimos, há cerca de 20 anos atrás, a uma altura em que Portugal batia recordes, quase duas vezes por ano, de abertura do maior centro comercial da Europa. Verificámos essa situação com a abertura do Vasco da Gama, do Colombo, do Almada Fórum ou do Loures Shopping. No entanto, aceitámos essa condição como algo meritório, mas não nos questionámos porque é que países maiores do que Portugal não tinham objetivos semelhantes para quebrar esses recordes. A verdade é que, ao contrário de Portugal, os restantes países da Europa protegem as micro e pequenas empresas e não permitem que estas passem por sacrifícios que ponham em risco o comércio local.

No caso de Portugal já não assistimos a essa proteção. As micro e pequenas empresas subsitem por funcionarem sob um ambiente familiar protetor. Quando o Governo propôs aumentar a Taxa Social Única do trabalhador de 11 para 18 por cento e diminuir o IMI da entidade patronal de 23,5 para 18 por cento, os empresários não quiseram e oposeram-se a essa medida. Esta atitude verificou-se porque as empresas de pequena dimensão tendem a funcionar através de um ambiente familiar, com relações próximas estabelecidas entre empregadores e trabalhadores, que contrastam com a impessoalidade dos postos de emprego nas grandes superfícies.

SR – Os grandes centros comerciais beneficiam com todo o restante enquadramento e complemento que o comércio tradicional não consegue oferecer.

 

FC – Penso que a base de todo o negócio vem do planeamento. As próprias grandes superfícies têm uma planificação em termos de lojas que estamos a tentar transportar para as ruas junto do comércio local. No entanto, as associações não conseguem fazê-lo sozinhas, precisam do apoio das câmaras municipais. Os autarcas não percebem nada da vida civil e não querem dar as mãos às empresas que fazem parte deste setor de atividade.

Acredito que a solução passa, por exemplo, por tornar o espaço do comércio tradicional da cidade de Setúbal mais atrativo. A implementação de um horário semelhante à rotina espanhola poderia garantir às lojas da baixa uma maior correspondência por parte dos consumidores. A abertura do estabelecimento passaria a ser feita num horário de Inverno, das 10 às 14 horas e das 16 às 20 horas, e num horário de Verão, das 10 às 14 horas e das 17 às 21 horas. Este seria um bom arranque para estas micro e pequenas empresas que poderiam fazer concorrência à oferta dos centros comericias que se mantém abertos até às 23 horas.

Esta foi uma proposta que acabámos por ver contestada pelos sindicatos dos trabalhadores que exigiam o pagamento de horas extra pela alteração de horários. A verdade é que estas mudanças devem ser feitas com o contributo de todos porque vêm mexer com os contratos dos funcionários. No entanto, a mudança de horário continua a ser necessária neste país.

Um segundo ponto que a associação propôs implementar foi o melhoramento da envolvente das lojas. Nós entramos em centros comeriais e encontramos segurança reforçada, boa iluminação, música e um ambiente extremamente agradável. Sentimo-nos bem, seguros e descontraídos e é isso que pretendemos trazer para as nossas zonas de grande concentração comercial nos centros históricos das cidades. Isso só não acontece porque as autarquias do nosso distrito e o Governo não têm estado ligados a esta associação para conseguirem concretizá-lo.

SR – E os comerciantes estão disponíveis para essas alterações?

 

FC – Os comerciantes sabem que se não se adaptarem os seus negócios morrem e, por isso, fazem tudo pela sua sobrevivência. Estes empresários estão completamente disponíveis para a mudança porque sentem na pele, na algibeira e na caixa registadora o resultado destas medidas de austeridade. No entanto, não podemos tentar desenvolver todo um centro histórico sozinhos.

SR – O que pode e o que está esta associação a fazer?

 

FC – Volto a frisar que não nos é possível alterar o estado atual das coisas sozinhos, sem o apoio dos órgãos governamentais. No caso do concelho de Setúbal, tentámos formar um gabinete de apoio ao comércio numas instalações que temos na baixa, mas acabámos por ter de deixar de parte a ideia porque não pudemos contar com o apoio da câmara municipal.

O que a associação pede é apenas uma maior abertura por parte das autarquias de forma a criarmos um projeto comum de salvação dos centros históricos das cidades. A verdade é que o Governo atribuiu verbas para esse propósito que acabaram por ser usadas para outros interesses. Dando um exemplo, podemos falar do som da baixa que ainda nos custa algum dinheiro e que é suportado pelos comerciantes, com pequenos anúncios que fazem, e pela associação. Nunca houve um tostão da câmara para este projeto. Portanto, precisamos de uma autarquia que nos dê a mão e que queira trabalhar num projeto bem elaborado a fundo.

SR – Não sofrerá a associação de alguma falta de força e representatividade?

 

FC – Não. Na verdade esta associação está a atingir pela primeira vez a força máxima em termos de representatividade. Esta posição é atingida por um projeto que ainda não tinha sido divulgado e que é a agregação à Aerset. Vamos passar a ser designados de Associação de Comércio, Indústria, Serviços e Turismo do Distrito de Setúbal, de forma a reforçar a nossa ação na economia local.

SR – O que podemos esperar dessa nova associação?

 

FC – Muito mais poder de fogo e representatividade perante todos os empresários a nível do distrito. Esperamos conseguir ser muito mais ouvidos pelo Governo e pelas autarquias. O país chegou a um ponto em que está completamente dominado por lobbies, sendo que todos os que não sejam políticos ou administradores públicos não contam para os nossos dirigentes. Por esse motivo, vamos tentar que esses órgãos nos oiçam e que ganhem interesse no setor do comércio e serviços.

SR – Existe uma atitude marcadamente ideológica em Portugal?

 

FC – Acredito que sim. Existem partidos que ainda vêem de uma maneira errada os empresários e que ainda vivem há 37 anos atrás. Os empresários são encarados como inimigos públicos e não conseguem ganhar a confiança que lhes permita usufruir de investimentos nos seus negócios. Este setor está a sofrer com o desinteresse das autarquias e do Governo, com a perda de poder de compra do consumidor e com a falta de financiamento das suas empresas. Estamos atentos ao estado em que vive hoje o comércio, principalmente no centro da cidade de Setúbal, e assistimos à progressiva extinção dos negócios no centro histórico.

SR – Com esta nova estrutura, a associação vai continuar a garantir o mesmo foco que tem mantido em relação aos comerciantes?

 

FC – Nós fazemos esta abrangência porque existem cada vez menos empresas. Há uma grande quantidade de negócios em insolvência, que necessita de ser apoiada. Por esse motivo envolvemo-nos com os setores da indústria e do turismo. Acredito que a indústria será a salvação para o comércio, porque terá outra visão e outro poder financeiro que poderá beneficiar o comércio. Vamos aproveitar as grandes empresas deste distrito para trazer financiadores que, no fundo, vão fazer o trabalho da câmara, subsituindo-a na parte dos investimentos. Acho que é um passo importante para a baixa de Setúbal.

SR – A proliferação das lojas de chineses também interfere com o comércio tradicional?

 

FC – Sim, esse é um dos principais assuntos que debatemos. Nesse sentido, tivemos a autarquia de Grândola do nosso lado, com o presidente Carlos Beato, que reuniu connosco de forma a conseguirmos combater uma situação que era a expansão do comércio chinês na nossa sociedade. Entretanto fizemos um estudo e chegámos à conclusão que o Governo chinês paga aos seus comerciantes cinco anos de renda das suas lojas. Eles procuram as rendas mais caras e mais bem localizdas e o Governo chinês apoia-os. É uma atitude de transparência que em Portugal nunca existiu.

SR – Ou seja, o Governo chinês utiliza o comércio como uma alavanca para toda a sua própria economia?

 

FC – É isso mesmo. Eles não se importam de pagar as rendas dos comerciantes porque sabem que é um investimento que estão a fazer. Esta era uma atitude que o próprio Governo português deveria de ter, financiando o nosso comércio no estrageiro.

SR – Os chineses pagam os impostos das suas lojas em Portugal?

 

FC – Sim. Os chineses têm duas mais-valias para os seus negócios, as rendas e os ordenados. Beneficiam das ajudas do seu Governo e normalmente contratam pessoas chinesas com ordenados muito baixos. De resto seguem os mesmos procedimentos que os outros comerciantes portugueses. Os mitos de que não pagam impostos são falsos, apesar de não passarem faturas.

Essa é uma questão que levanta alguns entraves à fiscalização, tendo em conta que os chineses têm uma capacidade de mobilidade muito grande. Por isso, quando são apertados mudam de país. Se os fiscais forem a uma loja chinesa e tentarem impor o pagamento das faturas, eles arrumam as coisas, vão para outros países e se calhar nem pagam a renda antes de sairem de Portugal. Ou seja, a capacidade de mobilização é muito grande para os chineses, coisa que não acontece com os portugueses. Nós estamos cá há muitos séculos e ninguém espera que nos vamos embora por situações dessas.