Estamos perante um quadro nacional e europeu particularmente preocupante. Basta termos presente o desemprego, em especial o desemprego dos jovens, e a quase estagnação da economia a nível nacional, a que se associam os problemas a nível europeu: a guerra na Ucrânia, mesmo nas fronteiras da U.E., e a perturbação das relações económicas com a Federação Russa em consequência das sanções que a U.E. aplicou; a tragédia no Mediterrâneo dos imigrantes desesperados vindos do Norte de África e da África subsaariana que os países europeus mais próximos (Itália, Grécia, Malta) sozinhos não têm possibilidade de socorrer; a ameaça de terrorismo que se difunde um pouco por todos os países, com diferentes perceções e intensidades.


Soma-se a tudo isto a grande questão da crise Grega.


Não é, assim, para admirar que a visão e a apreciação do projeto europeu seja, neste momento, objeto de preocupações. Estamos numa encruzilhada decisiva, próximo da rutura. Encontraremos nós, os Europeus, melhor ou pior, com maior ou menor compromisso, através das nossas instituições nacionais e europeias, um caminho que permita retomar um desenvolvimento sustentável, reduzir o desemprego, oferecer aos jovens perspetivas de futuro?


O Eurobarómetro 82, de novembro de 2014, recentemente divulgado (março), justifica alguma perplexidade. Trata-se de uma sondagem que se realiza duas vezes por ano, desde 1973. A sua leitura permite comparar o estado da opinião pública quanto à Europa.


A síntese resulta do trabalho de campo feito em cada país, em novembro de 2014, e recentemente difundido pela Comissão Europeia. No caso de Portugal, que a seguir referimos, os resultados justificam alguma perplexidade.


94% dos portugueses consideram a situação económica má ou muito má. Apenas os gregos (98%) e os espanhóis (97%) revelam uma visão mais negativa. 56% dos portugueses afirmam que a situação do seu agregado familiar é má ou muito má. Apenas 21% têm expetativas positivas sobre a situação financeira do agregado familiar em 2015. 94% acham que a situação do emprego é má ou muito má e não vai melhorar em 2015.


A larga maioria dos portugueses entende que as orientações da U.E. e de Portugal não são as mais corretas.


38% têm uma imagem positiva da U.E. e 25% uma imagem negativa.


A U.E. está associada principalmente à possibilidade de trabalhar, viajar e estudar nos restantes Estados-Membros.


A mobilidade assegurada pelo Mercado Único e reforçada com o Tratado Schengen é considerada uma das grandes realizações da U.E. (46% de opiniões favoráveis). Apenas uma percentagem de 18% considera haver insuficiente controlo das fronteiras externas.


O Euro representa a U.E. para 35% dos portugueses.


Uma percentagem (24%) dos nossos cidadãos portugueses (superior à média europeia – 17%) associa a U.E. ao desemprego.


72% consideram que a U.E. é responsável pela austeridade (com especial relevância para os jovens adultos – 77%). Apesar disso, os jovens estão otimistas em relação ao futuro da U.E.


Os portugueses consideram maioritariamente (53%) que a U.E. torna a qualidade de vida melhor na Europa e 46% creem que a U.E. vai emergir mais justa da crise.


92% reconhecem a importância da ajuda aos pobres e pessoas socialmente excluídas para que possam desempenhar um papel ativo na sociedade e apoiam o objetivo de reduzir o número de europeus que vivem abaixo do limiar da pobreza.


A preocupação substancial é o desemprego e a diminuição da pobreza.


Os idosos e os desempregados revelam-se pessimistas em relação ao futuro da U.E.


Apenas 29% estão convencidos que Portugal estaria melhor fora da U.E.


Tendo presente as particularidades da situação portuguesa – elevado desemprego (desesperante em relação aos jovens), falta de perspetivas de desenvolvimento económico, desigualdade enorme quer na distribuição dos rendimentos, quer entre as regiões do interior, cada vez mais desfavorecidas, e as zonas do litoral – que conclusões podemos tirar desta sondagem quanto à perceção que os portugueses têm da sua integração na Europa?


Atrevo-me a arriscar uma:


Apesar dos elevados níveis de desemprego e do aumento da pobreza, da insatisfação e das críticas aos programas de austeridade, a maioria dos nossos cidadãos ainda está convencida que a U.E. é o espaço político e económico onde podem circular, trabalhar e estudar e que ajudará a realizar as políticas sociais e o desenvolvimento de que o nosso país tanto necessita.

Fotografia de capa por YanniKouts

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Manuel Malheiros

Membro do Team Europe
Membro do Team Europe. Juiz desembargador reformado. Ex-funcionário do Tribunal de Justiça da União Europeia, ex-encarregado de curso no Europe Institut da Universidade do Sarre—RFA e ex-governador civil de Setúbal. Jurista.

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