Que perspetivas para a Europa em 2015, nestes tempos conturbados?

   

O que conseguimos saber através das sondagens do Eurobarómetro e dos estudos do Jacques Delors Institute, dá-nos algumas indicações, mais confortáveis umas, menos confortáveis outras.

   

A paz entre os Estados-Membros tem sido considerada, como uma das realizações mais conseguidas da União Europeia. No entanto, temos razões para temer alguma perturbação decorrente do agravamento da relação da União Europeia com o conflito Ucrânia-Rússia.

   

Os recentes dramáticos incidentes em França vieram chamar a atenção de todos os europeus para a necessidade de defender a paz em toda a parte, também como um meio de evitar a guerra na Europa e garantir a segurança nas nossas cidades.

   

Estes graves acontecimentos não podem, porém, fazer-nos esquecer outras grandes preocupações centradas na economia e também na imigração irregular oriunda de países terceiros, vinda sobretudo através do Mediterrâneo. A situação económica, o desemprego, a situação das finanças públicas levam muitos dos europeus a considerar a situação económica como “má”, embora com grandes variações de opinião conforme os estados, numa Europa em que parece confirmar-se a tendência para o alargamento do espaço da moeda única, como indica a integração da Lituânia na área do Euro, no passado dia 1 de Janeiro.

   

Segundo as sondagens do Eurobarómetro, a maioria dos europeus acha que os fundos públicos devem ser utilizados para estimular o investimento do setor privado a nível da União Europeia e apoiam por clara maioria uma política energética comum entre os Estados-Membros.

   

Embora os cidadãos se dissessem, antes dos acontecimentos em França, otimistas quanto ao futuro da União Europeia, mantinham-se inseguros e duvidosos quanto à evolução da crise e do desemprego, nomeadamente dos jovens.

   

As instituições europeias, em especial o Conselho Europeu, o Parlamento e a Comissão, sem esquecer o Banco Central Europeu, deverão esforçar-se por assegurar em 2015 uma política de relance da economia que vise combater este gravíssimo problema.

   

A livre circulação de pessoas, mercadorias e serviços entre os Estados-Membros é também considerada como uma das realizações mais positivas da União Europeia. O direito dos cidadãos europeus (todos os nacionais dos 28 Estados-Membros) de circularem, residirem, estudarem, trabalharem em qualquer parte do território da União Europeia é bem aceite pela maioria das opiniões públicas dos diferentes Estados-Membros.

   

O mesmo não acontece, porém, com a imigração vinda de Estados terceiros. Esta imigração vem imediatamente a seguir à economia nas preocupações dos cidadãos. Nalguns Estados-Membros esta é mesmo a principal preocupação.

   

É muito possível que esta reserva relativamente à imigração se agrave e seja mesmo acompanhada da exigência de mais medidas policiais e de controlo em relação aos nacionais de países terceiros, sobretudo por parte dos partidos e movimentos de extrema-direita.

   

Movimentos como a Pegida na Alemanha que pretendem combater o que chamam a islamização do Ocidente, não vão perder a oportunidade, animados por uma xenofobia paranoica, de se manifestarem contra os imigrantes e os refugiados. A Chanceler Angela Merkel (cristã democrata) não hesitou em condenar expressamente este movimento no seu discurso de Ano Novo e o Ministro da Justiça H. Maas (socialista) chamou-lhe uma “vergonha para a Alemanha”.

   

Também os movimentos de extrema direita em França poderão vir a seguir por esse mesmo caminho, apesar das vozes de bom senso que se ouviram durante as manifestações.

   

No conjunto, a Alemanha e a França continuarão, certamente, a ser os mesmos países tolerantes que aceitam anualmente muitos milhares de imigrantes, cidadãos comunitários e cidadãos de países terceiros.

   

As exigências securitárias do Primeiro Ministro britânico estão em desacordo com o espírito dos tratados e só servirão para dividir mais os cidadãos europeus.

   

Os objectivos da União Europeia, de paz e progresso económico e social, exigirão um reforço da coesão e da solidariedade de todos os estados-membros; se isso não acontecer as manifestações deste mês de Janeiro perderão muito do seu sentido.Fotografia de capa por YanniKouts

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Manuel Malheiros

Membro do Team Europe
Membro do Team Europe. Juiz desembargador reformado. Ex-funcionário do Tribunal de Justiça da União Europeia, ex-encarregado de curso no Europe Institut da Universidade do Sarre—RFA e ex-governador civil de Setúbal. Jurista.

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