Uma das memórias antigas que eu tenho da minha infância é a de perguntar à minha mãe onde estava o meu pai e ela respondeu – “Foi trabalhar para arranjar massa!”. Eu, num misto ignorância e ingenuidade, pensei que o meu pai voltaria com um pacote de esparguete. Olho para trás e poderia ter logo visto que não era uma pessoa inteligente. Mas não sou só eu…


Este artigo pode parecer que vem atrasado porque se refere a uma intervenção de Durão Barroso (também conhecido por José Manuel Barroso…), no final de Julho deste ano, no anúncio do acordo de parceria da União Europeia com Portugal que atribuirá a Portugal, até 2020, 26 mil milhões de euros. Neste contexto, Barroso quis evidenciar pitorescamente a amplitude desta verba e eu o cito “26 mil milhões de euros é uma pipa de massa, este dinheiro deve ser bem aplicado, que se calem aqueles que dizem que a União Europeia não é solidária com Portugal e com os países da coesão, trata-se agora de aplicar bem esses fundos” – toma e embrulha!


Eu penso que o antigo presidente da Comissão não confunde 26 mil milhões de euros com esparguete… também penso que Durão Barroso sabe um pouco de economia. É por pensar que ele sabe um pouco de economia que eu penso ele também deve saber como os processos de criação, transferência e distribuição de riqueza acontecem – mesmo não sabendo muito sobre economia, todos nós sabemos que o dinheiro não fica em Portugal porque se transforma em compra de produtos e serviços que têm, muitas vezes, origem em outros pontos na União Europeia e em outros pontos do Mundo. Quando se fala em “pipas de massa”, o que estamos a fazer é atirar areia para os olhos. Olhemos para a nossa história económica e percebemos que as “pipas de massa” transformaram-se em “castelos de areia” frágeis e vulneráreis a todas as tempestades económicas e financeiras no Mundo.


Outra coisa: os 26 mil milhões de euros não são para Portugal. São para a União Europeia. Por razões diversas, a União Europeia precisa que Portugal não fique para trás – faz parte do todo. E o dinheiro ajuda a que o todo (ou seja todos os países da União Europeia) seja obediente a uma ideia… que dá dinheiro para o todo (ou seja todos os países da União Europeia). José Manuel Barroso, enquanto presidente da Comissão Europeia, tinha a obrigação de não favorecer Portugal por ser Português mas sim de favorecer a Europa por ser Europeu porque ao favorecer a Europa, ele tem que favorecer Portugal – é tão simples quanto isso. Muitos foram aqueles que enfatizaram a sua nacionalidade lusitana como um aspecto positivo para Portugal – ora isto é uma falácia porque Barroso esteve para Portugal como Pedro Passos Coelho está para Massamá!


Este artigo pode parecer que vem atrasado… porém a reflexão mantém-se pertinente: jovens de agora – que são adultos de hoje e amanhã – têm que defender uma ideia de Portugal na Europa que não dependa de pipas de massa mas que assente numa democracia participativa que aproxime as pessoas às ideias, valores e ações desta Europa… e deste Mundo.

The following two tabs change content below.

Nuno Carvalho

Formador profissional
Nuno Carvalho é formador profissional e tem desenvolvido um trabalho na área da Educação Não Formal associada às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi um dos fundadores da Rato - Associação para a Divulgação Cultural e Científica, que tem desenvolvido um trabalho no domínio da inclusão literacia digitais.

Últimos textos de Nuno Carvalho (ver todos)