Num artigo que escrevi em 2013, destaquei os três mil quilómetros de costa e as centenas de rios e planos de água existentes no território nacional, como palco de variadas manifestações desportivas, e nas quais enunciava o trabalho do movimento associativo desportivo, em estreita ligação com as várias federações desportivas e os organismos governamentais. Porém, foquei no final a necessidade da aposta no trabalho de parcerias proporcionado pelas autodenominadas “Redes de Trabalho Colaborativo”, e nas quais, as autarquias e os vários sistemas de regulamentação náutica e portuária devem explorar. É mais fácil jogarmos a decisão nos outros. É muito mais fácil culparmos a comunidade pela falta de iniciativa. É muito mais fácil criticarmos as atividades ou a falta de ação que muitas vezes os dinamizadores da náutica desportiva e de recreio “tentam” equacionar e “levar a bom porto”, esquecendo que essa competência deve ser alimentada, fomentada e enquadrada num processo de estratégia municipal.

São raros os municípios na Península de Setúbal que definem um plano estratégico de desenvolvimento e ligação ao rio, ao mar, á náutica, em estreita discussão com os elementos existentes no seu concelho. E quanto existem (ou fingem existir), os seus protagonistas são “homens da cadeira ou do papel”, verdadeiros doutores formados e especialistas em planeamento, em gestão, em política, mas ausentes em conhecimento local, em conhecimento específico, em conhecimento náutico e marítimo.

Não se trata de uma crítica ao funcionamento das autarquias, não se trata de uma crítica ao pouco que se vai fazendo, trata-se sim de uma forte critica construtiva às escolhas e tomada de decisão que por vezes não espelham conhecimento nem planeamento local. Não espelham pesquisa, discussão e muito menos apresentação da visão de democrática. Cabe aos nossos órgãos autárquicos dar resposta das necessidades do povo e acima de tudo às necessidades locais. A idealização de grupos ou comissões constituídas por letrados nos assuntos do mar e da náutica não têm peso na sociedade, se nelas não estiverem incluídos conhecedores dos locais em questão, pessoas da terra, pessoas que molham os pés nos seus leitos locais de água, pessoas que não mandem apenas fazer: pessoas que façam acontecer!

Para onde vamos? Para onde queremos ir afinal? Preocupamo-nos com as questões económicas, com as dificuldades de emprego, com as questões sociais, e por vezes não procuramos inovar, não procuramos meios de resolução para o problema. Já foi mais que dito que os nossos recursos hídricos são uma forte potência de desenvolvimento do país, quiçá uma ou a ferramenta principal na nossa procura de independência económica e uma verdadeira matéria-prima para a nossa “reeducação” social e histórica. Mas essa educação parte do início, parte da base, parte do ensino, parte da nossa zona de residência, da nossa casa, de nós. Fomos durante anos uma geração de costas voltadas para o mar, para o rio, para a água. Não fomos “cultivados” como herdeiros de um património histórico e náutico gigantesco e com o qual ainda não estamos totalmente identificados.

Tiago Pitta e Cunha dizia numa notícia do semanário Sol: “Enquanto não nos encontramos com o mar, não vamos dar certo”. Esta identidade de relacionamento com o mar não é específica à nossa costa marítima, às nossas praias, às nossas ilhas, aos nossos portos, esta identidade parte de dentro, dos nossos estuários, rios, lagoas, margens nas quais aprendemos a ser um povo identificado com a navegação.

Desafio os municípios da Península de Setúbal a inovar, a criar estratégias para a implementação de uma cultura náutica nos cidadãos. Os primeiros pioneiros ficaram para a história. E fazendo das palavras do meu amigo Nuno, “não é preciso irmos a Marte para vermos boas práticas”.

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Ivo Quendera

Licenciado em Desporto

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