Um observador minimamente atento e crítico dos múltiplos aspetos da vida cultural de Montijo contemporâneo acabará, mais tarde ou mais cedo, por reparar num “pormenor” cheio de significado: por detrás da fachada oficial, constata-se o mais profundo desprezo a que desde sempre têm sido votados os investigadores de História Local da própria terra. A solução para os problemas historiográficos passaria, necessariamente, pela contratação de “boys” de Lisboa e arredores dos dois partidos políticos que, nos últimos quarenta anos, se têm alternado no exercício do poder político local.


Um dos grandes (injustamente) esquecidos da vida cultural de Aldeia Galega do Ribatejo continua a ser o padre Manuel Frederico Ribeiro da Costa.


Este nasceu no Barreiro. Em 1867, tornou-se capelão da capela de Nossa Senhora da Atalaia, a que juntaria idêntico cargo na de S. Jorge, em Sarilhos Grandes. A sua morte, ocorrida em 1905, poupou-o às perseguições que a revolução republicana de 5 de outubro de 1910 trouxe à Igreja.


Ribeiro da Costa publicou, em 1887, a primeira monografia histórica surgida no então concelho de Aldeia Galega do Ribatejo: “Narrativa histórica da imagem de Nossa Senhora de Atalaia…”. Trata-se de um volume de 144 páginas (mais uma de índice), prefaciado pelo miguelista João de Lemos e editado pela tipografia de Henrique Zeferino. Desconhece-se a tiragem da edição.


Este trabalho tem de ser enquadrado no âmbito da profissão do autor (sacerdote), no tempo histórico em que viveu e nos meios de investigação histórica que tinha à sua disposição.


Para redigir o livro, o autor baseou-se, fundamentalmente, nos documentos então guardados no arquivo da capela – posteriormente desaparecidos, na sequência da revolução de 1910. Por mais esta razão, a “Narrativa” é (e continuará a ser) de consulta insubstituível.


Evidentemente, não se trata de uma obra perfeita: designadamente, o número de fontes impressas citado é reduzido, e, quanto às fontes manuscritas, Ribeiro da Costa não utilizou as fundamentais “visitações” da Ordem de Sant’Iago à comenda de Aldeia Galega do Ribatejo, dos anos de 1512 e de 1553, só editadas por nós, na íntegra, em dois volumes, em edições de autor (2005 e 2006).


Em 2007, pela comemoração do quinto centenário da fundação da Confraria da Alfândega Grande de Lisboa, a Câmara Municipal de Montijo reeditou o referido livro em “fac-simile”. Uma edição crítica ficou por realizar.


O exemplo de Ribeiro da Costa terá levado José de Sousa Rama a publicar o livro “Coisas da Nossa Terra…”, basicamente sobre a própria sede de concelho, em 1906.


Na Atalaia, a nascente da casa do Círio Novo, existiu uma rua designada “Rua Padre Manuel Frederico Ribeiro da Costa”. Na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974, rebatizaram-na em “Rua 28 de Setembro”, denominação de uma fracassada tentativa revolucionária lisboeta. O erro tarda em ser reparado.

Fotografia de capa por El Bibliomata

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Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

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