Quase sem nos darmos por isso, estamos muito próximos das eleições legislativas. As escolas continuam com as suas tarefas, mais ou menos burocratizadas, de constituir turmas de acordo com matrizes emanadas do Ministério da Educação e Ciência. Quando tudo parece estar controlado, ou pelo menos suficientemente ponderado, eis que, sistematicamente, chegam alterações para a constituição das turmas. A última vez que tal aconteceu foi no final da semana passada, em relação às turmas de Percurso Curricular Alternativo. As escolas estão cansadas de fazer e desfazer o trabalho. Aliás, este governo, com este ministro Crato, nada mais fez do que desfazer o que, em muitos casos, até estava a funcionar bem. Já aqui escrevi sobre estes assuntos há muito tempo e sobre a necessidade de se estabelecer um pacto que nos permita perspetivar a educação com um horizonte de 10 anos, para que esta possa, de facto, estar ao serviço das reais necessidades de alunos, dos pais, dos professores, da comunidade, e não ao sabor dos caprichos de matriz ideológica dos responsáveis.
Na última crónica já me tinha referido ao facto de, durante o último mês e até hoje, 3 de agosto, ainda não se saber em que moldes irá funcionar o Inglês no 3.º ano de escolaridade. Sabe-se, apenas, que terá duas horas por semana. Mas quem as irá lecionar? O que sairá do currículo, se é que sairá alguma coisa, para entrar o Inglês? Ninguém sabe! Crato anunciou duas horas mas parece que ainda não sabe como as irá pôr em prática. Este é só mais um exemplo de que, do voluntarismo que promete inovação e grande desenvolvimento para os alunos e, consequentemente, para o país, muitas vezes nada mais resulta do que confusão ou magros resultados.
Perguntemo-nos, afinal, o que fez este ministro em quatro anos em benefício da Educação? Na modernização das escolas, na formação de professores, no apoio aos alunos através da Ação Social Escolar, nos vencimentos dos funcionários públicos (em que se incluem os professores, os assistentes técnicos, os assistentes operacionais e os psicólogos das escolas (as que os têm)? Resposta: simplesmente nada! Nada fez, só desfez.
Quanto à qualificação profissional dos portugueses, que todos os relatórios internacionais revelam ser deficitária mas que teve um forte incremento entre 2007 e 2011, o que fez o ministro Crato? Nada! Nada fez, tudo desfez…, só não conseguiu desfazer os relatórios da OCDE que revelavam a significativa importância que os Centros de Novas Oportunidades (CNO) tiveram ao abrir novos horizontes, novas oportunidades aos portugueses. Até destes relatórios duvidou, secundarizando os CNO e retirando-lhes qualquer tipo de relevância.
O que fez este governo para valorizar a formação dos professores que, entretanto, concluíram mestrados e doutoramentos, pagos dos seus desvalorizados rendimentos, os quais, mais do que a valorização profissional dos próprios, poderiam ter dado importantes contributos para o sucesso educativo dos alunos e das escolas? Nada fez, desvalorizou tudo!
É relevante pensarmos o que tínhamos em 2011 e o temos hoje. E sem falar na dívida, que é maior hoje do que em 2011. A Educação sofreu nestes quatro anos um enorme retrocesso, que se ficou a dever a um ministro que se propôs implodir o MEC, mas que implodiu a Educação em si mesma. Mais uma vez, nada fez, tudo desfez.

Fotografia de MCTIGovBr

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José Carlos Sousa

Professor
Formação inicial magistério primário de Lisboa, Licenciatura em educação física - Escola Superior de Educação Almeida Garrett; Doutorado em Ciências da educação ramo de administração e gestão educativa pela Universidade de Évora e, Politicas de descentralização e desconcentração: o papel das equipas de apoio às escolas na implementação das medidas de politica educativa entre 2005 e 2011. Vereador na Câmara Municipal de Palmela entre 2005 e 2013. Coordenador educativo da península de Setúbal sul 2005 e 2006. Coordenador da equipa de apoio às escolas da península de Setúbal sul (concelhos de Setúbal; Sesimbra, Montijo; Alcochete e Palmela) de 2006 a 2011. Formador da Direção geral de educação na área da proteção à infância e Juventude.

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