Ao longo deste Outono temos assistido a vários episódios de cheias em zonas urbanas, de dimensão considerável, e todas elas objecto de reportagens mais ou menos espectaculares nos media em horário nobre, nomeadamente as que ocorreram em Lisboa em Setembro e Outubro e na baixa de Setúbal, na véspera do dia em que escrevo este artigo.

É actualmente incontornável e consensualmente aceite na comunidade científica que os padrões climáticos estão a ser alterados, fruto da actividade antrópica e nomeadamente das emissões de gases com efeito de estufa, que provocam alterações profundas nas circulações atmosférica e oceânica, com efeitos já previsíveis (e alguns já bem visíveis) na subida do nível do mar e no aumento de tufões e outros fenómenos climáticos extremos. Na bacia Mediterrânica é expectável que os padrões de precipitação também se alterem, com uma maior concentração da época das chuvas, que ocorrerão também com maior intensidade, e períodos mais frequentes de secas prolongadas. Assim, fenómenos

É também consensual que as comunidades se devem preparar para estas alterações climáticas, tendo-se passado de um paradigma de combate às alterações climáticas, para um outro de adaptação às mesmas. Com efeito, as alterações climáticas já não se podem evitar, elas já estão aí. Urge portanto encontrar formas de tornar as sociedades mais resilientes às alterações que estão aí ao virar da esquina.

Nos meios urbanos, onde a impermeabilização é elevada, e portanto onde o escoamento à superfície tende a ser mais rápido, uma vez que não ocorre infiltração no solo, a tendência será para um aumento dos fenómenos designados de flash floods (ou cheias repentinas), como aqueles a que assistimos nos últimos meses, dada a ocorrência de grandes chuvadas e tempestades, muito concentradas num curto período de tempo. Dada a incapacidade de infiltração, e uma vez que as redes de drenagem não estão dimensionadas, na sua grande maioria, para chuvadas com esta intensidade, a água tende a acumular-se à superfície até conseguir escoar-se por completo. Se as chuvadas ocorrerem ao mesmo tempo que a preia-mar, o escoamento, que flui em direcção às zonas ribeirinhas, tenderá a ser mais lento, prolongando o tempo de acumulação da água à superfície.

As nossas cidades não se encontram minimamente adaptadas para fazer face a este tipo de ocorrências. Um relatório da Agência Europeia de Ambiente de 2011 indica que Lisboa é a quarta capital europeia mais impermeabilizada da Europa. A mesma tendência se pode observar na maioria das nossas cidades. Existe uma tendência muita clara de impermeabilização das zonas baixas, com encanamento das ribeiras existentes e ocupação dos leitos de cheia, quer para construção de edifícios, mas também de parques de estacionamento e ocupação do subsolo para diversas infraestruturas (electricidade, gás, telecomunicações, etc.). As nossas cidades encontram-se completamente escavadas e os cursos naturais de água foram substituídos por betão.

Ora, é necessário perceber que por muito que se impermeabilize uma zona, a sua hidromorfologia não é alterada. Se está impermeabilizado, a água que dantes corria no leito de um rio tem tendência para escoar no leito onde antes corria, só que agora à superfície e com maior velocidade, uma vez que já não possível a infiltração. Assim, tipicamente, as cheias ocorrem onde antes corriam as ribeiras.

Em Lisboa, algumas das zonas clássicas de inundações ocorrem em zonas onde antes corriam as ribeiras de Alcântara (Benfica e Alcântara – pois é, de onde acham que vem o nome?) e também as de Valverde e de Santo Antão (Avenida da Liberdade, Rua de Santa Marta e Portas de Santo Antão).

Também em Setúbal as ribeiras foram encanadas e os leitos de cheia ocupados pela cidade, como a Ribeira Velha na baixa comercial e a Ribeira do Livramento, naquela que é agora a Avenida 22 de Dezembro, e que ia desaguar no agora Mercado do Livramento, curiosamente — ou não — os locais que mais foram afectados com as últimas cheias. De salientar no entanto que muitas das zonas de leito de cheia existentes em Setúbal ainda não se encontram totalmente urbanizadas, como a zona da Várzea, embora vontade não falte ao actual executivo camarário de impermeabilizar mais umas fatias da Várzea, de acordo com planos da autarquia apresentados este ano publicamente num seminário na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. A Quercus já solicitou esclarecimentos em Junho último à Presidência da Câmara Municipal de Setúbal, mas ainda não obteve resposta. Convém recordar que as cheias na baixa de Setúbal pioraram consideravelmente, desde que começou o processo de urbanização da Várzea, facto facilmente explicável pela diminuição das zonas de infiltração em leitos de cheia, ou seja das zonas típicas de acumulação da água das chuvas.

A adaptação das nossas cidades às alterações climáticas tem que passar por uma completa alteração do paradigma de impermeabilização e construção desenfreada que nos conduziu até aqui (e nem só em termos ambientais; veja-se a bolha imobiliária). Os especialistas apontam para a necessidade de repensar a cidade como um sistema, todo ele interligado. As soluções de mitigação de fenómenos como estes de cheias repentinas tem que passar por uma renaturalização do meio, com a recuperação das margens das ribeiras (onde isso ainda seja possível, em locais onde as ribeiras não tenham sido soterradas), com o aumento de zonas de infiltração, através de parques e corredores verdes, e ainda pela implementação de bacias de retenção (para acumulação da água até esta ter tempo para escoar) através da criação de lagos e de outros sistemas semelhantes. O conhecimento existe. Falta apenas a vontade política.

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Carla Graça

Presidente do Núcleo Regional de Setúbal da Quercus
Nascida em Lisboa, adoptou a Península de Setúbal como local dos seus afectos desde 2003, residindo actualmente em Alcochete. Licenciada em Engenharia do Ambiente e actualmente Mestranda em Engenharia e Gestão da Água, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Abraçou a causa ambientalista ainda na sua adolescência, em 1987, participando activamente em várias associações. É desde 2008 Presidente do Núcleo Regional de Setúbal da Quercus e desde 2009 membro da Direcção Nacional.

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