Escrevo este artigo no conforto da minha casa e perto da minha família e oiço notícias sobre o Médio Oriente.


Na semana passada, fui à Jordânia no âmbito do meu trabalho com a Rato – ADCC para a criação de uma rede no domínio do empreendedorismo social jovem abrangendo organizações de toda a bacia euromediterrânica. Na viagem de regresso, vinha cansado e doente e fiz uma longa escala em Istambul – só queria regressar a casa e dormir na minha cama. Partilhava a sala de espera e a diversidade de origens que podemos encontrar neste local é incrível  um verdadeiro mosaico cultural da Humanidade. Porém, para mim, naquele local, o que me interessava era a chegada do meu próximo avião.


Então reparo que se senta ao meu lado um homem cinquentagenário que, pela sua aparência, me pareceu ser um muçulmano. Acompanhando-o, vinha uma mulher completamente coberta, com a excepção dos olhos que revelavam que ela era mais nova que ele. Não os ignorei mas rapidamente abstraí-me aos meus pensamentos e preocupações e sem me dar conta o homem vira-se para mim e oferece-me 2 tâmaras.


Confesso que não sabia que fazer – a surpresa criou hesitação mas aceitei e utilizei uma das poucas palavras em árabe que eu conheço: shukran – obrigado. O gesto daquele fez-me pensar: do nada, ele decidiu revelar gratidão a um estranho – porquê?


Não sei – a única retribuição foi o meu agradecimento. Mas o gesto daquele ser humano fez-me pensar… com a vida aprendi a ter um cinismo em relação à espécie humana. Porém, por vezes, enganamo-nos e o Bem surge. Surge de um homem cujo estereótipo é associado a fanatismos, ignorância e desumanidade. Porém… ele ofereceu-me 2 tâmaras. Não me tentou convencer de nada – simplesmente ofereceu-me 2 tâmaras. Porquê?


Porquê? Não interessa… a bondade humana é um grande mistério que deve permanecer como tal – devemos abraçá-la como o gentil céu azul num dia de primavera.


Somos bombardeados nos médias com palavras como “Al Qaeda” ou “Jihad”, baralhamos (deliberada ou indeliberadamente…) conceitos e então ignoramos muitas outras palavras árabes… palavras como “Shukran”. Os árabes tal como os russos, chineses, gregos, alemães, judeus, negros – todos os outros – são como nós. E nós, tal como eles, “pecámos” e pecamos com a mesma irracionalidade. Um dos grandes desafios que nós, enquanto seres humanos, temos, neste mundo globalizado, assenta em entender o outro e que possamos reconhecer este “shukran”. As minhas palavras não emendam a estupidez humana – as minhas palavras universalizam todas as características, boas e más, a todos os seres humanos. Nós e os outros.


A grande meta das pessoas que trabalham na área social é criarem este gentil céu azul num dia de primavera.
Escrevo este artigo no conforto da minha casa e perto da minha família – shukran.

Fotografia de capa por DBduo Photography

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Nuno Carvalho

Formador profissional
Nuno Carvalho é formador profissional e tem desenvolvido um trabalho na área da Educação Não Formal associada às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi um dos fundadores da Rato - Associação para a Divulgação Cultural e Científica, que tem desenvolvido um trabalho no domínio da inclusão literacia digitais.

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