No passado dia 1 de maio, num dos restaurantes da cidade de Setúbal, reuniram – se quase duas centenas de setubalenses para conhecerem uma nova Associação que tem por nome ANDGERAÇÕES. Foi criada por cidadãos que, em tempos idos ou mesmo agora, têm em comum o gosto por uma das modalidades desportivas que, a seguir ao futebol, já levou longe o nome de Setúbal, enquadrados na instituição mais emblemática desta cidade que é o Vitória Futebol Clube.

Estive lá com a minha família. Fomos para conhecer uma nova iniciativa de participação cidadã – numa sociedade democrática todas são bem-vindas, desde que procurem colaborar para o bem comum – e foi-nos dada a oportunidade de encontrar colegas de escola ou de bairro que há muitos anos não nos víamos. Só por isso já teria sido um tempo bem utilizado. Mas foi, sobretudo, uma oportunidade para recordar os tempos gloriosos do Andebol do Vitória. Muitos foram os que passaram pelo écran no qual projetaram fotos, aproveitando as novas técnicas áudio –visuais, de quase todos os que, nas últimas décadas, praticaram ou dirigiram esta prática desportiva e os momentos de maior glória do clube. Alguns, mesmo já com largos anos de vida, estavam também no almoço. O momento mais alto foi a homenagem, mais que justa, a um dos mais bem-sucedidos treinadores de andebol: Manuel Manita. Encheu-nos a alma termos tido a oportunidade de recordar tempos inesquecíveis, mas ela ficou a transbordar ao ser lida uma mensagem, muito emotiva, do homenageado, a residir agora fora de Setúbal, que nos levou a sentir mais fortes e gratas saudades das épocas em que o Pavilhão Antoine Velge ficava superlotado de adeptos, independentemente, do clube adversário. Quantas tardes e noites também eu me sentei nas bancadas e vibrei com o “amor à camisola” que envergavam os nossos jogadores. Para que Setúbal volte a ter, na prática competitiva do andebol, uma possibilidade de ser mais estimada pelos seus habitantes e por todos os que a visitem a acompanhar as suas equipas, surgiu a ANDGERAÇÕES.

Esta nova Associação, faz questão de ter como parceiro privilegiado a seção de andebol do nosso VFC, mas assegurando uma organização e gestão autónomas. O interessante é que esta nova Associação não irá só tentar revitalizar o andebol, mas também “organizando, promovendo e dinamizando, atividades de Lazer, de Recreio e Desportivo, Cultural e Social, tanto no âmbito Regional como Nacional especialmente dirigidas aos JOVENS”. São de grande alcance estes objetivos porque, sem excluir qualquer jovem de ambos os sexos, irá dar especial atenção aos que poderão ter na prática desportiva, que não será só o andebol, uma ocasião favorável de se promoverem, pessoal e socialmente, assegurando assim a sua plena integração social. Para além, destas metas, a ANDGERAÇÕES conseguirá ajudar o Vitória a abrir-se mais à cidade com o dinamismo de outrora.

Ficámos conscientes de que são muitos e grandes os desafios que esta nova Associação terá de enfrentar. Os mais urgentes são reabilitar o Pavilhão, tornando mais adequada a iluminação, reparando o piso de jogo que, como está, feriu já alguns jovens atletas, mas, sobretudo, reconstruindo os balneários para que as meninas possam praticar andebol e a todos os atletas do clube e os que nos visitarem disponham de condições mais dignas e modernas. Agora, no estado em que se encontram, com que impressão regressarão às suas terras os atletas que nos visitam? Pelas fotos que nos foram dadas a ver, não será, de certeza, agradável. Mas pareceu-me haver condições para o conseguir. Senti, desde logo, o empenho determinado dos dirigentes da Associação, que foi reforçado pela presença de um representante da Federação Portuguesa de Andebol, do vereador Pedro Pina da nossa Câmara Municipal, grande entusiasta desta dimensão da democracia que é a de não deixar ninguém excluído das possibilidades de participar na promoção de uma sociedade mais inclusiva, e a de um membro da Direção do VFC, Rui Salas, que Setúbal sempre haverá de recordar como um dos grandes defensores dos movimentos associativos. Decerto que, para já, estas presenças são a garantia de que outros parceiros cooperantes hão de surgir.

Mas o parceiro mais seguro será o povo de Setúbal, não só dos que gostam de andebol, mas de todos os que amam a sua terra. A representá-lo, por agora, esteve a Deolinda de Jesus, que, com a sua alma vitoriana e a sua encantadora voz, já se tornou uma especial embaixadora sadina, e tornou o convívio mais alegre.

Só faltou a nossa comunicação social local. Sei que esta ausência não é sinal de menos apreço por esta modalidade que o demonstrado, todas as semanas, pelo futebol. Os nossos jornais e rádios são imprescindíveis para que os setubalenses conheçam e se interessem pela ANDGERAÇÕES.

Foi uma parte do dia muito bela. Não só pelo convívio conseguido, mas porque se sentiu o orgulho de ser desta terra do rio azul. Alguns fizeram-se logo sócios, na esperança de que muitos mais sigam a sua atitude. Que viva e seja promissora a ANDGERAÇÕES.

Fotografia de Bev Trayner

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Eugénio Fonseca

Presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal e da Cáritas Portuguesa
Nasceu em Setúbal, onde ainda reside, no seio de uma família católica e de origem humilde, cujo rendimento vinha do trabalho na pesca e na indústria conserveira. Com os irmãos fez um percurso de crescimento consciente das dificuldades dos seus pais e do enorme esforço para que os estudos estivessem sempre em primeiro lugar. Assim prosseguiu os seus estudos tendo completado a licenciatura em Ciências Religiosas pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. No âmbito social e eclesial tem assumido, desde a juventude, várias responsabilidades com destaque para a presidência da direção da Cáritas Diocesana de Setúbal, cargo que exerce desde 1987 e a presidência da Cáritas Portuguesa, desde 1999. O seu trabalho e empenho na luta pela justiça social, tem sido reconhecida de várias formas pela sociedade civil, religiosa e política. Em 10 de Junho de 2007 foi agraciado por S. Ex.cia o Senhor Presidente da República com a Ordem de Mérito de Grande Oficial. Em 2014 tomou posse como vogal do Conselho das Ordens de Mérito Civil. É também professor do ensino secundário.

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