De entre as fontes documentais escritas de maior interesse para os historiadores e para os investigadores, em geral, contam-se os guias de viajantes, os quais, a partir de meados do século XIX, conheceram uma grande divulgação.


Em 1863, Francisco Maria Bordalo publicou a segunda edição “aumentada” do seu “Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus Arredores …” (Lisboa, J. J. Bordalo, 381 pp.).


O espaço concedido a Setúbal vai da página 198 à página 202. Pelo seu interesse e relativo desconhecimento, deixamos aqui o texto, com grafia actualizada, ao dispor dos leitores do “Setúbal na Rede”.


“A sete léguas de Lisboa ao sul do Tejo está a cidade de Setúbal situada nas risonhas margens do rio Sado, navegável por embarcações de grande lote.


Setúbal, modernamente elevada à categoria de cidade, não diremos que seja de grande importância em população, ou movimento comercial, todavia, a sua proximidade com a capital, e sobretudo o seu ramal de caminho-de-ferro, deu-lhe ultimamente mais animação.


A cidade é toda edificada à beira do rio, apresentando por este modo um belo e continuado litoral. Ao lado do nascente, pouco menos de um terço, denomina-se Fontainhas, o centro chama-se Setúbal, e a extrema esquerda chama-se Troino, bairro habitado por pescadores.


A ‘gare’ do caminho-de-ferro foi construída no sítio de S. João, onde existiu um antigo convento de religiosas, e transformado hoje em casa de habitação; na cerca do referido mosteiro fizeram uma praça de toiros, que na estação própria é bastante concorrida, não só pelos naturais daqueles sítios, como pelos habitantes da capital que amam tão feroz e grosseira diversão.


Ao lado direito encontra-se uma estrada pouco extensa que comunica com o rossio, ou campo do Senhor do Bonfim, cuja ermida construída no fundo é de pobre aparência, mas tem um rico interior posto que bastante danificado. Esta ermida é notável pela grande devoção dos setubalenses, e com especialidade pelos marítimos.


O campo do Senhor do Bonfim é digno de apreciação pela sua extensão, e por ter no centro o jardim público, orlado de majestosas árvores seculares, com uma fonte de cristalinas águas, etc., etc.


A praia é magnífica pela sua magnitude, e pela limpeza de suas águas; tem um forte chamado de S. Filipe o qual defende a entrada do porto. A barra tem uma torre de construção antiga.


Setúbal tem algumas igrejas de boa aparência, porém a mais digna de nota é sem dúvida o convento de Jesus, cuja construção se assemelha, ainda que muito inferiormente, à igreja dos Jerónimos de Belém, e é de crer que a sua fundação seja de igual data.


A primeira rua que se encontra à entrada do campo é bela, bastante longa e arborizada. Aí foi construído o teatro chamado Bocage, de sofrível aparência, e único que existe em Setúbal. Tem um cómodo hospital, com uma bela igreja. Possui um bom quartel na praia em frente do cais, um bonito largo chamado Palhais e a praça do Sapal.


A sua alfândega é muito decente, e em toda a cidade existem muitas casas de comércio nacionais e estrangeiras.


É uso fazer-se em Setúbal uma feira de diferentes mercadorias, no dia de Sant’Iago (em agosto), a qual é muito concorrida.


Próximo à torre e barra de Setúbal se encontra uma praia chamada o Portinho da Arrábida, que dá acesso para a serrania da mesma denominação, onde há um convento antigo e muitas outras curiosidades dignas de atenção do viajante curioso.


Do lado oposto a Setúbal existem as ruínas de Cetóbriga, vulgarmente chamada ‘Tróia’, onde em escavações profundas se têm encontrado vasos, medalhas e outros muitos objectos, de remotíssima data, verdadeiras jóias para os arqueológicos.


É este um dos lugares que não deve ser esquecido por quem se propuser a visitar a pátria do nosso estimado poeta Bocage.


Setúbal tem belos pontos de vista, tais como S. Paulo, Brancanes e os moinhos, onde foram construídos os cemitérios um para nacionais, muito decente e com uma ermida de recente construção, e outro para estrangeiros, igualmente de boa aparência.


Nos seus arredores se encontram lindas e vastíssimas quintas, que produzem abundante e saborosa fruta de todo o género, assim como a excelente laranja, tradicional por sua bondade, e que tanto apreço tem para exportação.


O trajecto de Lisboa a Setúbal faz-se hoje com a maior comodidade. O viajante embarca num vapor que o conduz ao Barreiro (lado oposto do Tejo), entra em seguida na bela e magnífica estação dos caminhos-de-ferro, e em breve é transportado a Setúbal, de onde, se quiser, pode voltar no mesmo dia a Lisboa.”


Fotografia de capa por guymoll

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Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

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