Um moderno viajante de carro que, por exemplo, parta da cidade de Montijo e continue pela Estrada Nacional n.o 4 rumo ao Alentejo, ao passar na ponte das Rilvas pelo Rio das Enguias, talvez não tenha a noção da grande importância económica deste, como via de comunicação fluvial, durante, pelo menos, meio milénio.

O Rio das Enguias nasce da confluência da água vinda dos pauis do Torrão, a leste, e de Rio Frio e da Caparica, a sul. Passa pela Barroca d’Alva e, após um percurso de cinco quilómetros, no sentido sul-norte, desagua no estuário do Rio Tejo, a leste da vila de Alcochete.

Na divisão administrativa do País, passou a separar os concelhos de Alcochete e de Benavente e as províncias da Estremadura e do Ribatejo.

Pela reduzida extensão e evidente segurança do percurso, Gil Vicente, na tragicomédia «Triunfo do Inverno», escrita em 1530, diz, em tom satírico:

Piloto: «Onde vos fazeis aqui?». Marinheiro: «… Sois piloto d’Alcouchete / Pera o rio das inguias, / E navegar nestas vias / Quer cabeça e capacete.».

Um primeiro e grande período de actividade económica nesta via fluvial iria durar do século XV até ao século XIX.

Com efeito, já em 1451 um batel navegava no Rio das Enguias, pois, em 13 de Setembro desse ano, D. Afonso V perdoou a justiça régia a Antão Martins, solteiro e morador em Alcochete, acusado de fogo posto «além do batel das Enguias».

A exploração do tráfego do batel no Rio das Enguias era arrematada, em hasta pública, pela Câmara Municipal de Alcochete, anualmente, em Janeiro.

O batel partia de um pequeno cais localizado junto à estrada que ia para Samora Correia e rumava à Barroca d’Alva, até onde o rio era navegável.

Tendo começado por ser uma embarcação pequena, com o progressivo aumento das cargas a transportar os sucessivos barcos utilizados foram-se tornando cada vez maiores, permitindo carregar não só passageiros mas também bestas, no século XVI (Mário Balseiro Dias, «Monografia do Concelho de Alcochete», vol. II, pp. 38-42).

Um segundo período de atividade económica relevante no Rio das Enguias – de menor importância do que o anterior, saliente-se – vai do final do século XIX ao princípio do século XX.

Por esta via (que passou, também, a ser designada por ‘Vala do Vinho’) era embarcada, no cais de Rio Frio, parte do vinho produzido nas propriedades rústicas do grande agricultor José Maria dos Santos. Esse vinho seguia, depois, em batelões, até ao Rio Tejo, onde era transferido para fragatas, que o levavam até ao Poço do Bispo, em Lisboa, onde o comerciante Abel Pereira da Fonseca o comercializava para as «casas de pasto».

Do fim do século XVIII até meados do século XX, várias figuras de renome da sociedade portuguesa (D. Maria I, Jácome Ratton, Pereira da Silva e outros) trouxeram o Rio das Enguias à discussão, a propósito de um grande projecto, que não chegaria a ser concretizado: a construção de um canal que ligaria os rios Tejo e Sado, pelo Rio das Enguias e pela Marateca.

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Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

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