A turbulência financeira está longe de ter acabado, existindo um longo caminho a percorrer até que a economia mundial consiga a sustentabilidade necessária para evitar os sobressaltos que frequentemente sucedem.
As ações de emergência nos países afetados pelas situações financeiras, tem lavado os maiores economistas e financeiros a exprimirem posições oficiais, mas, também, as suas perspetivas pessoais, verificando-se que, enquanto há algum consenso na identificação do que aconteceu e nas suas causas, os principais atores estão manifestamente divididos em relação ao que tem de ser feito.
Reconheçamos que ninguém teve um quadro claro do sistema financeiro global, mesmo antes das atuais incertezas resultantes da crise. É como se a economia global tivesse tido um AVC, que surpreendeu os médicos que antes lhe tinham dado uma saúde de ferro e de grande robustez. A parte afetada continua sob cuidados intensivos e entretanto, os clínicos responsáveis continuam a discutir o diagnóstico e a prescrição.
Multiplicam-se os sistemas de supervisão e de regulação e continua-se a debater os mecanismos políticos, económicos e sociais que deverão servir de escora ao capitalismo moderno. O quadro continua negro o que leva os gestores da crise a continuar a aconselhar medidas dolorosas que dizem necessárias à prevenção de outra calamidade.
O sistema financeiro continua instável e mostra que a evolução do mercado global tem sido tortuosa. As consequências foram grosseiramente subestimadas e não só existiram erros graves como se falhou na avaliação no risco de contágio. A natureza do contágio não foi bem percebido. Governos e mercados foram incapazes de entenderem que , numa crise, o risco de mercado, o risco de crédito e o risco político passam a estar fortemente interligados.
A regulação financeira teve graves falhas de transparência e de regulação adequada e o sistema de vigilância do FMI foi deficiente ao impor políticas fiscais e monetárias apertadas, tendo precipitado muitas falências. Tudo isto reforça a necessidade de se atacar os problemas das crises na sua fase inicial. Uma diplomacia financeira poderia aliviar as turbulências políticas e económicas.
Entretanto, temos de estar preparados para os próximos problemas. O estilo e a seriedade de um representante institucional nas negociações podem fazer a diferença, quer na voluntariedade de um país em aceitar o programa de reajustamentos, quer na compreensão pelo próprio FMI, das limitações de ordem política que impendem sobre o governo com quem se está a negociar,
Por outro lado, há a necessidade de liderança na condução do sistema financeiro internacional. A comunidade global pode e deve fazer muito mais para minimizar a severidade e a escalada das crises. Seria uma tragédia, só existir uma única certeza que é a de que as turbulências financeiras estão longe de ter chegado ao fim.
A Europa e os Estados Unidos há muito que deveriam ter iniciado conversações criando os laços essenciais para se vencerem estas crises e encontrar soluções que evitem as vulnerabilidades e o perigo do seu aparecimento.

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António Alves

Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Setúbal
Foi Membro da Direção do Clube Naval Setubalense, da Direcção da ANEE-Ass Nacional das Empresas Operadoras Portuárias, da Direcção Nacional dos Agentes de Navegação do Centro de Portugal. Foi também Presidente do Centro Coordenador do Trabalho Portuário de Setúbal, do Conselho Geral do Hospital do Barreiro, da Direcção do Club Setubalense, da Assembleia Geral do Club Setubalense e da Academia de Música e Belas Artes Luisa Todi. Para além disso, foi Vice Presidente da Liga dos Amigos do Fórum Luisa Todi e Presidente da Assembleia Geral do Vitória Futebol Clube-SAD, bem como Vice-Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Atualmente é reformado.

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