Que se lixe! Sou viciado em redes sociais. Gosto “e divirto-me bastante com isso”, é verdade, gosto de ver imagens sem fim, numa sequência caótica de temas e motivos; ler os mais variados comentários, uns mais honestos, outros imbuídos de várias doses de desonestidade ou bastante mal-intencionados. Por estes dias o tema principal é a crise migratória “a que chamo: questão dos refugiados”, assim com as mesmas letras com que se escreve “aqueles que fogem das guerras, que o ocidente lhes impôs”. Mas não é deste premente assunto que desejo escrever. É de jogos. Como em muitas dimensões da vida, uns são mais pedagógicos, desafiadores e esclarecedores; outros são deveras desinteressantes e irrelevantes. Na realidade é de jogos e de política que quero escrever. E, tanto quanto possível, sobre esta última – a política – partilhar algumas experiências.

A maior parte dos jogos com que as redes sociais me “surpreendem”, na verdade, não me surpreendem nada. Não lhes dedico nada de nada, nem a minha atenção, nem tempo da minha vida. No entanto, as exceções surgem quando menos se espera, “o que é uma grande verdade”, com que me deparo frequentemente.

Circula por aí um jogo engraçado, daqueles que merecem alguma paciência, e o envolvimento da cabeça e dos sentidos. Circula este jogo numa rede social, sugerindo sem mais nem menos que pode ajudar-nos a decidir o voto. Ou, pelo menos, a posicionar melhor a escolha entre as diversas candidaturas. Eu, que nem tenho tido grandes dificuldades na tomada de decisão, fiquei curioso. Quem sabe se, nestes vários anos em que tenho exercido o direito – que, afinal, também se trata de um dever cívico –, quem sabe se alguma vez errei na posição em que coloquei a tal “cruz”, indicando a opção de voto?

Pede o jogo respostas a diversas questões, na verdade, muito atuais. A primeira parte posiciona-nos, desde logo, na área preferencial para o desenvolvimento do país: qual o seu interesse fundamental nos programas eleitorais? Entre economia, educação, saúde, justiça e outras, escolho cultura, pois claro! Se considero importante a existência de um ministério da Cultura? – respondo que sim, sem qualquer ponta de dúvida. É uma questão da maior importância. As políticas culturais pensadas e implementadas de forma sistematizada, com a maturação e o respeito pela singularidade das questões que coloca de forma regular, com o relevo que só o estatuto de ministério atribui, constituem um fator decisivo para o desenvolvimento do país.

Noutro patamar do nosso jogo, confronto-me com a seguinte questão: qual o valor que a cultura possui, para si? “Não tem preço!” – é a minha resposta, óbvia e inequívoca. A cultura tem um valor que não tem preço, porque ela emancipa, contribui para a formação da identidade, do sentido e da pertença à comunidade, para a coesão social, em suma. Ela é, também, um importante fator na mobilidade social, em conjunto com a educação. Ela gera o património material e imaterial, que herdamos do passado e que transmitimos para as futuras gerações.

A questão seguinte não consta no elenco de perguntas inteligentes do jogo, mas coloco-a eu. Que percentagem deve ser imputada ao orçamento do Estado, para o impulso à Cultura? É sabido que defendo o mínimo de 1% do PIB, a meta recomendada pela UNESCO, através da Agenda XXI para a Cultura. Estamos em cerca de 0,1%, do orçamento do Estado – um montante que, em valores absolutos, é quase residual e infame para quem dedica a sua vida às artes e à cultura, quer no âmbito profissional, quer o desenvolva em regime de voluntariado.

E quanto a direitos dos trabalhadores da área? Que dizer em relação à preservação do património monumental, documental ou museológico? Que pretendemos, enquanto cidadãos de um país livre e secular, relativamente à inserção na atividade de novos e emergentes criadores artísticos? Como se fará a inserção nas profissões de tantos jovens talentosos e qualificados? Que respostas dão as candidaturas partidárias, em coligações ou a solo, a tantas dúvidas e reivindicações sobre o futuro da cultura e das atividades artísticas?

O resultado do jogo será conhecido na noite de dia 4 de outubro. Mas, para já, tenho uma certeza. Existe e está bem plasmada nos programas e propostas eleitorais a distinção dos campos, entre esquerda e direita. As diferenças são radicais, tal como as práticas no terreno o demonstram. Por mim, já decidi em que lado vou estar, nesse e nos dias que seguem!

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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