Este fim-de-semana (passado), na Quinta do Conde, mais um profissional da GNR perdeu a vida em serviço. Desde já apresento, em meu nome pessoal e em nome da APG/GNR as minhas mais sentidas condolências à sua família, bem como aos familiares do agente da PSP e do seu filho que também faleceram na sequência deste trágico episódio.

Muitas vezes aqui referi que as forças de segurança exercem uma profissão de risco e que esse mesmo risco não é reconhecido pelo Governo, que, no caso da GNR nos trata como funcionários públicos, sem qualquer tipo de especificidade de funções, assumindo posição diferente quando se trata de restringir direitos elementares, como o horário de serviço.

O sucedido na Quinta do Conde ilustra, da forma mais brutal e trágico essas mesmas afirmações.

Se sabemos que existem bairros apelidados de “problemáticos” nos concelhos do distrito de Setúbal e se, em regra, atribuímos a criminalidade com contornos mais violentos a determinados grupos específicos, com características socio-económicas muito próprias, não podemos fazer esses exercícios lógicos neste caso.

O que pretendo dizer é que, caso um agente da segurança pública perdesse a vida na sequência de um tiroteio entre, por exemplo, gangues rivais, dada a violência do cenário, podia todo a situação provocar consternação, mas nunca surpresa.

É conveniente ao Governo tentar identificar o risco da nossa profissão com esse tipo de situações, em que são absolutamente esporádicas, de uma violência incontrolável e em que o desfecho não gera grandes perplexidades na opinião pública.

Mas nada disto é verdade. O risco da nossa profissão é diário, e nada como o que sucedeu no fim-de-semana passado prova de forma mais exemplar essa realidade.

Uma situação aparentemente corriqueira, de uma rivalidade entre vizinhos fez com que três seres humanos perdessem a vida de forma absolutamente inesperada. O alegado autor dos homicídios, de 77 anos, também não se enquadra dentro do perfil do “criminoso violento” que tantas vezes é mediatizado.

Ainda, podemos ilustrar o risco de outra forma. O profissional da GNR deslocou-se ao local em serviço, mas o agente da PSP não. Por força das suas funções, de agente da autoridade e que deve sob todas as circunstâncias garantir a paz pública, o agente da PSP sentiu-se impelido a intervir para ajudar, mesmo estando de folga e, até, ao que tudo indica, não exercia diariamente funções operacionais.

A questão que invariavelmente surge quando casos destes sucedem fica sempre sem resposta, por parte de quem deveria agir: quantos mais profissionais da GNR têm que perder a vida em serviço para que o Governo finalmente reconheça o risco da nossa profissão?

Sem querer aqui minimizar a importância de qualquer outra profissão, lembro-me assim de repente de algumas profissões a quem é reconhecido o respectivo risco e a quem é pago o proporcional e justo complemento remuneratório sendo que, nenhuma delas, implica risco directo de morte, como no caso das funções policiais.

Não é só uma questão de contas ou de reivindicar uma maior remuneração, mas sim de justiça e dignidade profissional, pois dinheiro nenhum compensará a perda da vida daquele jovem de 24 anos, que até ao último momento cumpriu o juramento de garantir a segurança das populações.

Nota: o autor não escreve com o Novo Acordo Ortográfico.
The following two tabs change content below.

José Soares

Dirigente da APG/GNR

Últimos textos de José Soares (ver todos)