Ainda que repentinamente, lá vem um dia, no meio da rotina quotidiana, em que reparamos com os olhos da mente naquilo que se passa à nossa volta. E constatamos um índice elevado de tráfego de acontecimentos que nos rodeia e que inevitavelmente nos vai afetando. Então, pensamos também no impacto que essa cultura tem sobre o comportamento de cada um, no molde de uma determinada educação e experiência social, que se acredita ser o garante do sucesso das nações organizadas.

E surgem reflexões interrogativas como: Qual será a cultura, embora todas com limitações, que proporciona uma melhor educação ao indivíduo, que preserva melhor a integralidade da sua condição de livre pensador e continua a valorizá-lo na sua participação cívica ativa? E: até que ponto a desejável construção do indivíduo social não compromete o crescimento livre na infância, na juventude e até a maturidade na adultez?

E vem à carga a velha máxima: somos ou não, realmente, livres? Ou mais provocatório ainda: apreciamos verdadeiramente a liberdade do outro como se aprecia a própria?

Uma pessoa mal educada, que nem sempre tem pouca idade, precisa de se formar continuamente para aumentar a sua capacidade de sociabilização. E em consciência, o bom educador, quando está atento, quer educar para integrar, como nas escolas o professor com as suas crianças e jovens. Mas nem sempre se dá conta quando  empresta demasiados pensamentos seus (ou que julga ser seus) e ações aos seus educandos. Querer-nos-emos imitar ou plasmar uns nos outros?

Se qualquer interpretação do mundo feita por sábios pensadores ou filósofos é inevitavelmente cultural, o pensamento tantas vezes descuidado do cidadão comum arrasta consigo muitas categorizações ou generalizações culturais, suas ou não, que são danosas.

As sociedades desenvolvidas procuram não invadir (pelo menos em excesso) o espaço do crescimento individual. Contudo, os valores que asseguram o bem-estar social respiram sobre a vontade individual. A pessoa educada é aquela que conhece as regras e procura cumpri-las, não só a pensar nos outros, mas também para zelar pelo seu bem-estar gregário.

Hoje fala-se em sociedade das nações porque a globalização tem aproximado muito os povos e facilitado a comunicação multicultural. Mas por enquanto ainda há cultura ocidental e cultura oriental. Cultura portuguesa e cultura europeia. Ou mesmo cultura familiar, escolar, laboral…

Onde todos os homens são nossos semelhantes. Mas, no entanto, é mais semelhante aquele que se parece connosco: nas ideias, nos gostos, no estatuto… E mesmo assim não sossegamos enquanto não entramos na cabeça uns dos outros. E argumentamos que tem que ser pelas melhores razões… Ou seja, vigiar quem não obedece (ou não se submete). Mobilizam-se forças à “paisana”… Se se fosse fazer uma medição da frequência e do grau de controle que os indivíduos praticam entre si no seu dia a dia, mesmo em democracia, quais seriam os valores desses gráficos (sem sequer se pensar nos propósitos dos serviços secretos de espionagem)?

Continua a histórica cultura da massificação. Que quando não se consegue mudar quem pensa e quem age de outro modo, reprime-se ou, simplesmente, marginaliza-se. Numa expressão humanista de inclusão social ou de cultura da amizade…

Tudo se pode avaliar nas culturas: o fado lisboeta será melhor do que a tourada madrilena? Ou o cinema francês melhor do que o teatro inglês? Ou a gestão económica na Alemanha do que a da comunidade europeia? Ou a ambição americana do que a espiritualidade tibetana?………

Haverá uma cultura que melhor nos eduque (enquanto não se acabar de vez com a cultura)?

Qualquer opinião sobre isso é voz de uma cultura predominante. Vale o que vale. Se calhar este tipo de pensamento só levará ao diálogo se se tornar transcultural,  com respeito à séria…

Num sistema de ensino, como o português, a orientação é mais instruir do que educar. E fora da escola? A cultura de influência vai decalcando o comportamento e os discursos  aprendidos na comunidade, seja mais política, ou religiosa, ou comercial, ou de entretenimento, ou mais permeável aos mass media…A verdade é que a natureza humana só tem conseguido sobreviver a si própria no que de forte tem o seu pendor artístico.

Porque tem sido pela arte que o indivíduo se tem bastado a si próprio para desafiar o normativo grupal, romper as convenções, quebrar as regras culturais que o aprisionam. É no mundo da criação que ele atinge o privilégio de ser único, vanguardista e insurreto. É nela que se transporta à realidade que transforma ou recria. E consegue conquistar a beleza até no próprio grotesco. É pela arte que surpreende, escandaliza e inova. Ao criar, liberta-se. A sua dor ganha som melódico, desenho e colorido. A sociedade, por despeito ou mesquinhez, muitas vezes castiga-o pela sua subversão. Mas secreta ou publicamente admira-o. Nem que seja postumamente.

É em cada ato criativo que o homem se eleva acima do material, o que lhe garante a intemporalidade da dignidade existencial.

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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