Tal como foi noticiado há poucos dias, a Ordem dos Médicos vai propor ao Parlamento uma alteração à lei da amamentação que permita que todas as mães tenham direito a redução de duas horas do horário de trabalho até aos filhos terem três anos.

Depois dos polémicos casos de mulheres forçadas a fazer prova de amamentação e tendo em conta a necessidade de incentivar a natalidade, o bastonário da Ordem enviou a todos os grupos parlamentares uma carta em que sugere dispensa para amamentação até aos três anos dos bebés, independentemente de as mulheres amamentarem ou não.

Face a esta notícia e de forma a reforçar a importância da mãe no desenvolvimento da criança, dedico esta crónica a abordar o tema: relação materna.

O impulso natural materno apela a que se coloque a cria debaixo da asa, protegida de todos os perigos, ameaças, medos e desgostos.

Normalmente, é esta a tendência inata e ao mesmo tempo natural. Mas afinal, até onde vão os nossos limites enquanto mães, quando, na condição de mães procuramos ser boas mães e super-mães ao mesmo tempo?

Uma boa mãe é também aquela que a determinada altura passa a ser “desnecessária”. Como diz um célebre psicanalista, ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe promova uma dependência patológica nos filhos, como uma droga ao ponto de eles não conseguirem ser autónomos, confiantes e independentes, capazes de traçar o seu rumo e de fazer as suas escolhas, superar as frustrações e, naturalmente, cometer os próprios erros também.

É crucial reconhecer que ao longo de cada fase da vida, do crescimento e, naturalmente, do desenvolvimento humano, é importante que o cordão umbilical se vá cortando. A cada uma dessas fases, estão associadas perdas e novas conquistas que não param de se transformar.

Ser mãe é ser também capaz de passar os valores que apelam ao crescimento saudável, é ser capaz de aceitar as próprias limitações para que um dia os filhos se tornem adultos e saibam, também eles, constituir família e recomeçar o novo ciclo.

Por fim, o importante, o mais importante de tudo, é estar presente, ser firme, na concordância e na discórdia, no sucesso e no fracasso, é esperar de peito aberto para o aconchego e para o abraço apertado, sabendo dar o conforto nas horas difíceis e o elogio no momento certo.

Os filhos ganham asas e cabe-nos aceitar. Para isso, nada melhor que saborear na hora da partida a sensação reconfortante de que a missão foi cumprida. É sinal que o trabalho de profissão-de-mãe foi bem feito.

Fotografia de monkeywing

The following two tabs change content below.

Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

Últimos textos de Ana Cardoso (ver todos)