Procuramos apresentar muito sucintamente os aspectos que consideramos serem pressupostos suficientes para enquadrarem necessariamente a profissão de Polícia, formalmente designado como órgão de polícia criminal, como uma profissão de risco e de desgaste rápido.

Os operacionais da PSP, trabalham por turnos, em horários preenchidíssimos, cobrindo as vinte e quatro horas do dia, mantendo um grau de constante operacionalidade e disponibilidade para o serviço.

A sociedade exige que estes profissionais estejam sujeitos e disponíveis para avançar para qualquer tipo de cenário a qualquer hora do dia ou da noite.

São profissionais que, na primeira linha de intervenção, estão efectivamente em qualquer terreno de operações, sejam quais forem as circunstâncias de acção.

Os meios ao seu dispor são quase sempre escassos. Enfrentam problemas de insuficiência, quer ao nível da disponibilidade de recursos humanos quer de meios materiais, tantas vezes inexistentes ou obsoletos, entre edifícios degradados para servir o polícia e o cidadão.

Não obstante, todos os dias, são chamados a enfrentar problemas tão diversificados quanto difíceis e tantas vezes de impossível resolução.

Há até clichés que estão sempre presentes. A sociedade que muitas vezes critica o polícia por este realizar multas de trânsito sem perceber que é pelo cidadão que ele trabalha, ao mesmo tempo requer dele uma resposta de grande qualidade nas grandes áreas do Direito, da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia e até da Religião, entre tantas outras, sem descurar naturalmente áreas mais específicas.

Os polícias operacionais, todos os dias, envolvem-se física e emocionalmente, com os problemas que efectivamente apoquentam as pessoas e nelas se centram, caracterizados muitas vezes como situações limite.

Os polícias operacionais não dão tréguas à criminalidade, procurando fazer frente, num quadro de grande perigosidade e penosidade quer às tipologias criminais mais simples quer às mais complexas e violentas.

Nesta área da complexidade e da violência, têm de se confrontar com quem, individualmente ou em grupo, sente que nada tem a perder, não tem de cumprir regras.

É-lhes exigida a capacidade e a competência para decidir em fracções de segundo sobre a aplicação concreta dos princípios da legalidade, da necessidade, da proporcionalidade e da adequação dos recursos que têm ao seu dispor. Trabalham no fio da navalha.

Em consequência, os polícias operacionais confrontam-se depois com a análise crítica e minuciosa de quem, mesmo nunca tendo tido a necessidade de, por exemplo, algemar um suspeito, sabe no entanto, à secretária e rodeado de todos os mecanismos, decidir com toda a tranquilidade, sobre a força aplicada pelo agente ou sobre os procedimentos por este adoptados.

Se tantas pessoas soubessem como a realidade difere, em muito, da ficção, estariam muito mais cientes das verdadeiras dificuldades de trabalho destes profissionais.

Todavia teriam de lá estar para ver e agir, mas não estão, nem nunca estarão. Mas algumas aconselham, definem e decidem os trâmites da acção ideal, falando de cátedra. E o polícia operacional, que teve de aguentar a situação inicial, tem de aguentar a posterior, seja qual for o resultado do raio x à sua acção.

Quantos não preferirão, num desviado sentido de missão, deixar de reagir às agressões de que são vítimas, mas esse é outro calvário!

Nos julgamentos, os polícias, dando a cara, vão vezes sem conta apresentar a sua versão dos factos. Tantas vezes sozinhos, no átrio dos tribunais, com os arguidos, os co-arguidos, os seus familiares e amigos.

No supermercado, no centro de saúde, entre tantos outros locais, estão na fila com os bandidos que prenderam no dia anterior.

A par do cenário que vem sendo traçado, os polícias, que têm uma panóplia extensíssima de funções e atribuições, desde a área criminal, à contra-ordenacional, com uma forte componente social e dinamizadora do tecido institucional, cooperando em tantas frentes, estão depois sujeitos a processos a avaliação questionáveis e de cumprimento de objectivos hierarquicamente traçados.

Apesar das dificuldades e da escassez não resolvida, os objectivos todos os anos aumentam.

Como se não bastasse, são profissionais que têm no horizonte processos complicadíssimos de promoção, sobretudo nas carreiras base. Vêem as progressões horizontais permanentemente congeladas e recebem ordenados simbólicos que todos admitem deverem ser revistos.

Para cúmulo, quando estão doentes, vêem agravadas as despesas com consultas médicas, compra de medicação e realização de exames. Para desajudar nestas circunstâncias de vulnerabilidade, vem o Estado/Sistema, que em vez de sustentar um quadro apropriado de medicina no trabalho para estes profissionais, corta-lhes o vencimento pelos dias em que não trabalham.

Sendo mais extensa a lista dos lamentos, quisemos apresentar um sumário muito breve e sucinto da realidade em que qualquer elemento operacional da Polícia de Segurança Pública se insere no seu dia-a-dia de trabalho.

Parecem-nos evidentes as características mais marcantes desta actividade. Uma profissão onde as condições de trabalho são tantas vezes lamentáveis, a Pressão Psicológica e o Stress, permanentes, quer em serviço, quer fora dele.

Por mais que se queira o polícia não se consegue libertar facilmente dos problemas com os quais se confronta, mesmo quando sai de serviço.

O desgaste emocional e físico é avassalador, com claras influências ao nível da qualidade de vida e da saúde.

Pelo exposto, se existem profissionais que devam ser acarinhados e recompensados pela exposição negativa da sua integridade psicológica, da sua integridade física e das suas vidas, os profissionais operacionais da PSP devem estar de facto nessa linha de raciocínio e de implementação.

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António Loura

Presidente da Direção Distrital de Setúbal da ASPP-PSP

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