Este texto pretende denunciar aquele que é, em meu entender, o mais estrutural dos nossos problemas. Nascem cada vez menos portugueses, temos uma população cada vez mais envelhecida, verificando-se uma tendência insustentável de inversão na nossa pirâmide etária.


Em 1960 tivemos 24 nascimentos por cada 1000 habitantes, actualmente esse número caiu para cerca de 7. Nos anos sessenta Portugal era o segundo país com maior taxa de natalidade, do conjunto de países que hoje integram agora a União Europeia. Hoje Portugal é o país onde nascem menos crianças da Europa a 28. Esta tendência agravou-se nos dois últimos anos de austeridade excessiva.


A taxa de fecundidade desejada é muito diferente da taxa de fecundidade realizada. As questões da natalidade não dependem apenas da vontade de ter filhos. Relacionados com os projetos de paternidade estão as contingências económicas e sociais. A destruição da nossa economia e do nosso mercado de trabalho, empurraram para a pobreza e para o desemprego um elevado número de jovens, muitos destes engrossaram o êxodo dos que procuram noutros países condições de sobrevivência. Ambas as situações se refletem negativamente nas taxas de natalidade, que tenderão a ser cada vez mais baixas.


O atual governo falhou o equilíbrio das contas públicas. Mas mesmo que o tivesse alcançado, o desenvolvimento do país não se faria só por essa via. As questões da natalidade desempenham um papel primordial no equilíbrio do nosso tecido social, na sustentabilidade da nossa organização institucional e nas condições de desenvolvimento da nossa economia. Como afirmou recentemente Elza Pais, num encontro realizado pelo Departamento Federativo das Mulheres Socialistas de Setúbal, sobre Políticas de apoio às famílias e igualdade de género: “As crianças têm de ser entendidas como um valor social coletivo”. (Almada, 7 de Março de 2015)


As políticas seguidas nos últimos anos agudizaram a crise em que os portugueses vivem. A redução dos apoios sociais, o desmantelamento dos serviços de saúde, educação e assistência, o aumento dos horários de trabalho, a ausência de uma legislação que contribua para a conciliação da vida profissional com a vida familiar, reforçam a tendência para que nasçam cada vez menos crianças. Mas importa ter presente que as sociedades são organismos coletivos. Se não se renovam, se não se regeneram tendem para a o enfraquecimento e a extinção.

Fotografia de capa por paparutzi

The following two tabs change content below.

João Couvaneiro

Professor de ensino superior
Doutorado em História Contemporânea, é desde 1996 professor do ensino superior, tendo leccionado sobretudo em cursos de formação de professores e educadores. Especialista na utilização de tecnologias educativas, tem colaborado com diversos estabelecimentos de ensino básico, secundário e superior. Foi dirigente de associações culturais, estudantis e ambientais.

Últimos textos de João Couvaneiro (ver todos)