Desta vez a minha crónica começa com uma pergunta. O mês passado na entrevista que dei para o programa Contracapa da Económico TV, a jornalista colocou-me esta questão, naquele momento, perante as câmaras, sobre a pressão do estúdio televisivo, pensei rapidamente e respondi com enorme sinceridade que sim, que considero que Portugal está hoje mais empreendedor. Porém, no regresso a casa, continuei a refletir sobre esta questão difícil, que talvez não tenha uma resposta única e seja demasiado exigente para que se consiga respondê-la no curto tempo televisivo.
De facto, fruto de um conjunto de razões, de onde destaco as alterações no mercado de trabalho, que invalidam o modelo anterior baseado no emprego para toda a vida e, ainda à escassez de trabalho por conta de outrem o empreendedorismo tornou-se um tema atual. As universidades começaram a desenvolver programas de apoio ao empreendedorismo e a inserir disciplinas de empreendedorismo nos seus currículos, o ensino profissional e secundário tem vindo a receber, ainda que, nalguns casos, pontualmente, um conjunto de programas que incentivam a criação de empresas e o desenvolvimento de projetos empresariais, as políticas públicas e os programas de financiamento privilegiam o espírito empreendedor (veja-se a este propósito os programas do Horizonte 2020), as Câmaras Municipais apostam na criação de gabinetes de apoio ao empresário e até na construção e gestão de algumas de incubadoras empresariais, etc. Enfim, muitas ações têm vindo a ser tomadas, e todas estas ações em conjunto têm vindo a alterar o panorama português no que concerne ao empreendedorismo. Verifica-se, na verdade, um aumento do número de start-ups com perfil exportador e aumentam os chamados ecossistemas empreendedores que privilegiam um ambiente dinâmico e favorável ao empreendedorismo (sendo Lisboa um bom exemplo, mais informação em http://startuplisboa.com/).
Existem, contudo, alguns obstáculos ao desenvolvimento do espírito empreendedor em Portugal. Podem-se destacar, os aspetos culturais, os portugueses receiam deixar o seu emprego estável com salário fixo e partir para a aventura de criarem o seu próprio negócio. O fator risco influencia a sua decisão, são também influenciados por aspetos culturais mais relacionados com o modo como a sociedade aceita ou não o insucesso empresarial. Verifica-se que o insucesso em Portugal é ainda muito penalizado o que intencionalmente impede as pessoas de avançarem para novos projetos empresariais.
São, também fortes condicionadores à vontade de empreender por conta própria, o financiamento, os impostos e a burocracia que teimam em dificultar muitos processos e em desanimar, por vezes, até o empreendedor mais resiliente. Em contraponto, a maioria dos que criam um novo negócio (exceptuando os que o fazem pela necessidade inerente ao desemprego) fazem-no por quererem ser patrões de si próprios ou por motivos de realização pessoal, sendo relevante a disponibilidade de programas de formação em empreendedorismo, a educação para o empreendedorismo desde os níveis de ensino básico, bem como os ambientes e infraestruturas que facilitam o empreendedorismo como por exemplo as incubadoras empresariais. Fruto, deste contexto, saúdam-se os que o fazem por vontade e espera-se que os seus projetos sejam viáveis no longo prazo, e deve-se prestar grande atenção aos que o fazem por necessidade, pois ser empreendedor deve ser uma decisão pessoal ponderada, ou seja uma alternativa viável que redefine um novo projeto de vida.

Entrevista sobre empreendedorismo#Contracapa#TVEconómico disponível em http://videos.sapo.pt/Ftk8y633bwqhbM1qo0F2

Fotografia de Michael Lewkowitz

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Luísa Carvalho

Professora na Universidade Aberta
Doutora em Gestão pela Universidade de Évora, Portugal. Professora na Universidade Aberta e professora convidada da Universidade de São Paulo – Brasil. Investigadora do Centro de Estudos de Formação Avançada em Gestão e Economia (CEFAGE) da Universidade de Évora. É autora de livros, capítulos de livros e diversos artigos em revistas nacionais e internacionais e membro de diversos projetos de investigação nacionais e internacionais.

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