Está a decorrer até ao dia 20 de Fevereiro a consulta pública ao Relatório Preliminar da Avaliação Ambiental Estratégica do Mar 2020, o respetivo Sumário Não Técnico e o respetivo projeto do Programa Operacional (PO) – que vai regulamentar a aplicação das políticas do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP) para Portugal principalmente no que diz respeito aos apoios ao sector para os próximos anos.

   

Os documentos em consulta que estão disponíveis no sitio da internet http://www.promar.gov.pt/pomar2020.aspx merecem uma leitura atenta, os comentários e as sugestões que os interessados queiram enviar e desse modo contribuir para o melhor ajustamento da aplicação do Programa Operacional Mar 2020 à realidade portuguesa.

   

Para despertar o interesse na consulta dos documentos acima referidos posso adiantar que os mesmos esclarecem, por exemplo, por que razão foi necessário suspender a pesca da sardinha a partir de Setembro de 2014 e quais são as outras espécies igualmente ameaçadas.

   

Neste contexto penso ser oportuno alertar para uma questão fulcral e que põe em causa o desenvolvimento das pescas portuguesas, principalmente na região de Setúbal. Penso ser generalizada a ideia de que há um relacionamento especial entre os portugueses, o mar e as pescas e que nos orgulhamos da qualidade do nosso peixe – até afirmamos com frequência que temos o melhor peixe do mundo! Mas o que realmente acontece é que somos muito selectivos em relação às espécies que consumimos, donde resulta a rejeição sistemática das espécies menos valorizadas: por exemplo, o carapau e a cavala atingem na lota preços de 0.50 e de 0.20€ o kg! Como podem ter valor se não as consumirmos? Por outro lado não temos disponibilidades financeiras para adquirir algumas espécies mais “nobres” que seguem diretamente para o estrangeiro.

   

Ora acontece que esta seletividade choca com a realidade: na nossa costa há muita variedade de espécies mas pouca quantidade, o que não se coaduna com o consumo muito dirigido para algumas espécies! Alguns dos peixes mais consumidos são até capturados (ou produzidos em aquacultura) a milhares de milhas da nossa costa!

   

Lembro-me de ter participado num debate em que uma senhora nos perguntou: “porque é que temos uma costa tão grande e importamos tanto peixe?”

   

Apesar de na aquicultura ser possível seleccionar as espécies que mais interessam ao consumidor, dentro daquelas que se adaptam melhor a este modo de produção, há também enormes contradições que impedem o seu desenvolvimento.

   

Embora as previsões indiquem que em 2050, 70% do pescado vai ser produzido em aquicultura e que na atualidade esse valor já ronda os 50% a nível mundial, em Portugal a aquicultura está muito aquém deste número. A nossa aquicultura está instalada em locais abrigados, principalmente nos estuários e por essa razão sujeitas a limitações especiais: os produtores estão impedidos de os criar de forma intensiva, o que é bom para o ambiente e bom para a qualidade do pescado, mas o consumidor também não está muito entusiasmado com estes peixes. Os peixes da aquicultura que consumimos são importados e produzidos de forma massiva. Serão mais baratos, mas têm o mesmo sabor?

   

Porque os pescadores e a pesca são tão importantes para nós, regresso ao início do texto e alerto de novo para a consulta do sítio a seguir indicado: http://www.promar.gov.pt/pomar2020.aspx

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Manuel Meireles

Delegado Regional da DRAPLVT

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