Não há, não existiram até hoje sociedades perfeitas. Porém, tem sido quase permanente o desejo de as transformar. Têm sido incontáveis as propostas para o fazer. Muitas delas contraditórias. Muitas distantemente utópicas ou apenas irrealizáveis. Mas quase todos estes impulsos de mudança atribuem ao sistema educativo um papel de destaque, central ou até fundador nas transformações a operar.

Para que o sistema educativo possa estar ao serviço da mudança social, tem ele próprio de se transformar. Incontáveis têm sido as propostas e aspirações de reforma. De maneira mais ou menos evidente, todas são ideologicamente inspiradas. Todas consubstanciam ou contribuem para compromissos políticos e económicos, que perpassam, de forma mais ou menos discreta, a organização institucional e funcional do sistema educativo, as relações que estabelecem entre os diversos atores, a estruturação da rede escolar, as opções disciplinares e as orientações pedagógicas.

Cabendo ao sistema educativo um papel central na modulação das colunas que erguem e sustentam o edifício social, importa conferir-lhe estabilidade. Não pode continuar, como até aqui, a ser definido de forma errática, sujeito aos caprichos de decisores, que ignorem a obra feita e o estado da arte. Importa debater e, de forma tão consensual quanto possível, identificar os contributos que terá de prestar ao desenvolvimento integral da nossa estrutura social.

Importa discutir, sem preconceitos obstaculizantes, a criação de condições para apoiar os estudantes carenciados, dar resposta às necessidades educativas especiais, contribuir para a inclusão das minorias e de todas as formas de diversidade. Devem discutir-se, sem fundamentalismos atávicos, as questões relacionadas com a organização do sistema educativo, a definição da rede escolar, a autonomia, os territórios educativos e a municipalização da gestão. Também os temas relacionados com a profissão docente, como os modelos de contratação, a organização da carreira e os processos de avaliação devem ser alvo de exame alargado. Há ainda todo um conjunto de desafios relacionados com a organização do calendário escolar, a definição do currículo, as competências a desenvolver, a integração das tecnologias e a inovação pedagógica, que merecem uma discussão franca.

Do debate alargado em torno das questões mencionadas, e de outras, deverá surgir a base de um acordo entre os principais agentes políticos e educativos, para implementar uma reforma estável, que vigore por um período amplo. Deste modo será possível obter resultados efetivos e avaliáveis, que possam constituir a base de novas mudanças, num processo sem improvisos experimentalistas, que verdadeiramente possa contribuir para mudar a escola e a sociedade.

The following two tabs change content below.

João Couvaneiro

Professor de ensino superior
Doutorado em História Contemporânea, é desde 1996 professor do ensino superior, tendo leccionado sobretudo em cursos de formação de professores e educadores. Especialista na utilização de tecnologias educativas, tem colaborado com diversos estabelecimentos de ensino básico, secundário e superior. Foi dirigente de associações culturais, estudantis e ambientais.

Últimos textos de João Couvaneiro (ver todos)