O Verão é a estação do ano mais apetecível para eventos de toda a espécie. Eventos que se realizam por toda a parte, nas cidades e vilas portuguesas. O sol dos dias quentes e as amenas temperaturas das noites de estio convidam a festas, alegria e bebidas frescas. Tudo vale, vale tudo para fazer o refresh das vidas crispadas e taciturnas que muitos de nós levamos, nos restantes meses do ano. “Tristezas não pagam dívidas”, dizemos em alta voz – ao ver o fogo e os artifícios subirem aos céus clementes, na noite movida. Se possível, não dormir mais do que quatro horas, por noite, é a regra.

Não me queixo com as múltiplas oportunidades que me oferece, atualmente, a cidade e região onde vivo – Setúbal. Longe disso. Por estes dias, tornou-se difícil a escolha por ser de “tamanho grande” a qualidade, a quantidade e a diversidade dos eventos que aqui se realizam. Eles são culturais, artísticos e desportivos ou, ainda, o cruzamento das diversas modalidades. Mas eles são, sobretudo, turísticos. Isso mesmo, como é costume dizer-se: “para turista ver”. Turista interno e externo, claro está! Que os da terra também gostam de nela se passear nas noites de Verão.
Tudo isto é bom, bonito e muito positivo. Dá alegria às gentes, e as ruas animam-se de multidões ruidosas. O bonito é rever amigos e reconhecer rostos que por estas bandas não se viam há muito. Ou fazer novos amigos, tomando em proveito pessoal a vaga do contentamento coletivo.

Tudo isto, toda esta energia condicionada ao apelo turístico pode efetivamente tornar-se viral. E, em contrapartida, de tão viral, virar-se contra o “feiticeiro”. Explico. Os eventos de massas correspondem, pela própria natureza da sociedade em que vivemos, apenas, à necessidade de fomentar o consumo. Nada de novo trazem à criação artística, aos artistas e criadores artísticos, para além de uma boa oportunidade para alcançarem e ou aumentarem a sua visibilidade, junto dos públicos – leia-se consumidores de eventos de massas. Por outro lado, ao contrário das crenças que suportam e estão na origem da profusão deste género de realizações, os eventos de massas pouco (ou nada) acrescentam ao desenvolvimento económico das comunidades. São antes de mais um recurso fugaz, provisório e efémero, para injetar dinheiro no setor da restauração, das bebidas e da distribuição, em geral. Verifica-se pouco eficaz, por conseguinte, no campo do incremento das atividades económicas sustentáveis, a médio e longo prazo, ou à produção de bens e produtos necessários à vida real. São realizações de exceção e não a regra.

Para contrariar estes riscos, os eventos de massas de caráter cultural devem ser projetados em articulação com programas de incentivo das atividades regulares, de criação e formação artística – entre outros, com níveis de financiamento credíveis. Só assim se justificarão as verbas gastas e o esforço exigido às entidades diretamente envolvidas e à comunidade, no global. Só as atividades regulares podem garantir maior ligação entre os projetos artísticos (ou propostas culturais, de um modo geral) e as populações. São garantia do cumprimento do direito fundamental à cultura. De democracia cultural. E um contributo efetivo para a formação integral do ser humano – tópicos essenciais que ajudam a entender melhor as reivindicações daqueles que se preocupam com as questões (e o estado, infelizmente, atual) da cultura portuguesa.

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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