A morte do cientista John Nash e da esposa, desperta a discussão em torno de uma das perturbações psiquiátricas mais estigmatizantes na nossa sociedade: a esquizofrenia.

John Nash, o matemático cuja vida inspirou o filme “Uma mente brilhante”, teve uma morte trágica mas deixa uma vida repleta de ensinamentos que transborda sabedoria.

Foi através desse filme que a sua vida tornou-se conhecida do grande público. Aos 31 anos de idade, foi-lhe diagnosticado e ao longo de mais de 20 anos lutou contra a doença. Era frequentemente perturbado com alucinações próprias da patologia que sofria, sintomas estes que, apesar de terem interferido com os seus projetos de vida, sempre os procurou contornar.

Falava da doença que sofria com um discernimento muito próprio, considerando-se hoje que um dos fatores associados a essa sua resiliência se devia ao facto de ser uma pessoa com um nível intelectual superior.

Outro aspeto importante a realçar, foi o apoio que sempre recebeu da comunidade e da sua mulher – fatores-chaves na recuperação de qualquer perturbação psiquiátrica.

Sabemos hoje que as famílias também precisam de ser ajudar e apoiadas, para que desta forma se consiga criar condições em termos da reabilitação e recuperação dos nossos doentes.

É também crucial que haja uma forte rede de apoio terapêutico e de medidas sociais, como o emprego protegido, por exemplo.

Pela investigação que tem sido dedicada ao tema, sabemos hoje que a doença tem um forte impacto a vários níveis (pessoal, social e profissional). Por esse motivo, importa com que estas pessoas sejam ajudadas a compreender, mas sobretudo a aceitar a doença que, por muito incapacitante que possa ser quando não devidamente tratada, é possível, através de abordagens cientificamente validadas, atenuar sintomas e, consequentemente, reduzir recaídas.

John Nash fala da doença de uma forma livre. A sua experiência e o testemunho que nos deixa deve possibilitar com que o estigma que caracteriza as doenças de foro psiquiátrico possa ser atenuado para que todos aqueles que precisam de tratamento não se escondam e para que a sociedade também não os ignore ou estigmatize.

Fotografia de [BlackSide]

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Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

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