Nos últimos 5 anos a zona euro tem enfrentado sucessivas crises protagonizadas principalmente pelos países do Sul. Os problemas de Portugal, Espanha e Itália são bastante parecidos com os problemas da Grécia, até em termos de endividamento. A dívida da Grécia situa-se hoje quase em 160% do PIB; a dívida da Itália já atingiu 141% do PIB; a de Portugal quase 133,5%, a da Irlanda quase 115% e a dívida de Espanha está perto dos 90%. Lembro que um dos critérios de entrada para a zona Euro era ter um nível da dívida pública abaixo de 60% do PIB do país.

A criação de uma zona monetária única (ZMU) apresenta sempre problemas quando existem áreas, dentro da zona a criar, com diferentes níveis de desenvolvimento económico. Assim, através da maior transparência de preços na zona e pelas regras da concorrência, as empresas das áreas menos desenvolvidas iriam falir e libertar os fatores produtivos para o mercado sendo em seguida absorvidos pelas empresas situadas nas áreas mais competitivas em cada mercado. A escassez ou abundância dos fatores produtivos conduziria também ao nivelamento da sua remuneração nos vários mercados.

Esta situação iria supostamente conduzir a uma maior especialização nas áreas onde se situam as empresas mais competitivas. Para que este processo funcione é entanto necessária uma perfeita mobilidade dos fatores produtivos. Enquanto o fator produtivo capital é facilmente mobilizável através até de transferências bancarias, ou por liquidação dos negócios, venda de equipamento etc., o fator trabalho apresenta maior resistência à mobilidade. Fazer mudar as pessoas de uma área para outra esbarra em problemas familiares, ligações de proximidade, cultura, tradições, hábitos etc.

Isto é o que nos diz a teoria liberal de funcionamento dos mercados. Mas como sempre a prática é bastante mais complicada.

Voltando à Zona Euro.

A zona euro podia ser concretizada na base de dois cenários.

O primeiro advogava a criação da zona euro somente para países com o mesmo nível de desenvolvimento económico. A vantagem deste cenário relacionava-se com a estabilidade de uma zona onde a competitividade das empresas não seria tão diferenciada embora se admitisse alguns ajustamentos, leia-se falências das empresas mais fracas, e a mobilidade dos fatores, principalmente do fator mão-de-obra não seria tão importante. O fator mão-de-obra tem uma mobilidade ainda mais reduzida em comparação com um grande mercado como o dos Estados Unidos. Com efeito na Europa as pessoa falam muitas línguas, existem diferenças culturais historicamente muito vincadas as quais dificultam a mobilidade e a adaptação a novos países.

No segundo cenário admitia-se a entrada de todos os países desde que cumprissem os critérios de convergência ou seja, mantivessem a taxa de inflação, a dívida pública, a taxa de juro, a estabilidade da moeda e o défice público, dentro dos limites mínimos estabelecidos para a zona euro.

O segundo cenário garantia uma zona maior, o que seria desejável em termos políticos, exigia ter um controlo das contas públicas bastante apertado e uma diminuição da intervenção do estado na economia de forma que o mercado se autorregulasse garantindo assim uma maior eficiência na utilização dos fatores produtivos.

Nos períodos de crescimento económico, quando reina o otimismo, é mais fácil controlar as contas públicas devido às receitas relacionadas com a maior atividade produtiva, mas numa situação de crise na qual o mundo mergulhou desde 2007 e de que ainda estamos a sofrer as consequências, o papel intervencionista do estado é fundamental, principalmente nas zonas de menor desenvolvimento que sofrem normalmente maior impacto dada a fraqueza das suas empresas.

É precisamente isso que aconteceu na Zona Euro. Os países menos desenvolvidos, a maior parte deles no Sul, sofreram maiores consequências com a crise, o que obrigou o estado a recorrer a uma política de maiores gastos públicos.

Podemos acrescentar ainda um menor rigor nas contas públicas, uma maior zona cinzenta na economia e uma maior corrupção e temos o resultado à vista.

A zona euro não foi inicialmente pensada para os países da Europa do Sul mas já que estes fazem parte dela, são necessárias novas ideias em termos de política económica para podermos garantir a sua estabilidade.

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Boguslawa Sardinha

Professora de economia
Nascida na Polónia, doutoramento europeu em economia, investigadora na área de economia social; professora da ESCE/IPS desde 1997.

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