O nascimento dos primeiros dentes numa criança é uma etapa… para toda a família.

Tenho conhecimento que há muitos anos chegou, de madrugada, ao Serviço de Urgência de um Hospital de Lisboa, uma criança com cerca de dez meses de idade. Mãe e filho transportados por uma ambulância, assinalando a sua marcha, insistentemente, com a sirene ligada.

Este cenário faria supor mais um caso de extrema urgência.

Para grande espanto de quem estava no serviço de atendimento, toda a aflição resumia-se somente a uma criança que já havia sido observada na manhã desse mesmo dia. Pela idade e pelo facto de ainda não lhe ter nascido nenhum dente, foi-lhe administrada uma quantidade elevada de vitamina D, prática à época muito usual, para assim, provocar o tão desejado “nascimento”. Como passadas algumas horas, ainda não tinha nascido nenhum dente, a mãe decidiu que o melhor seria chamar uma ambulância e a toda a velocidade ir para a urgência hospitalar.

À parte de outras conclusões que se possam tecer em volta deste caso verídico, serve este exemplo para ilustrar que o aparecimento dos primeiros dentes envolve a criança, os pais e os avós e gera ansiedades e desculpas para situações de doença que podem coincidir com esses momentos.

Constipações, febre, diarreias, otites, etc., são muitas vezes justificadas como consequência das erupções dentárias mas, efetivamente, são simples coincidências.

No entanto, se pensarmos que nos momentos que antecedem o seu aparecimento existe o aumento da “baba”, a dor no próprio local da erupção, a dificuldade na mastigação ou ainda de sensações dolorosas por transmissão ao ouvido, a criança pode sentir-se incomodada e sofrer alterações nas suas rotinas.

As primeiras peças dentárias costumam surgir por volta dos seis a sete meses de idade. Por vezes mais cedo, mas mais frequentemente mais tarde, chegando o seu aparecimento a ultrapassar o primeiro ano de vida.

Ao longo dos primeiros trinta a trinta e seis meses completa-se com vinte dentes a chamada “dentição de leite ou 1ª dentição”. A partir dos seis anos começam a ser substituídos pelos definitivos aos quais se vão acrescendo outros, perfazendo um total de trinta e dois.

Os dentes são peças necessárias para cortar, rasgar e moer os alimentos que se introduzem na boca, preparando-os para serem digeridos. Por isso deve haver o maior cuidado na sua conservação.

Desde o aparecimento do primeiro dente é aconselhada a sua escovagem, de preferência só com água. O creme dental só deverá ser utilizado após os três anos de idade. Até então ou a criança rejeita a espuma, ou a ingere, pois as pastas tendem a ter sabores agradáveis. Para além da escovagem dos dentes, fator importante é a utilização de flúor.

A partir dos três anos as crianças devem começar a visitar, semestralmente, um estomatologista, para a deteção e prevenção do aparecimento da cárie dentária, evitando dores e a formação de infeções – abcessos – que muitas vezes levam à extração do dente de leite, o que conduz à diminuição do espaço destinado à substituição por um definitivo.

Cuidar dos dentes, desde o seu aparecimento, é muito importante para a saúde oral e para a prevenção de futuros problemas.

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Luís Cabrita

Médico Pediatra

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