Períodos longos com temperaturas elevadas e pouca ou nenhuma pluviosidade, como ocorre nos países de climas temperados e mediterrânicos durante o verão, podem ter consequências para o ambiente. Estes períodos longos com temperaturas elevadas proporcionam elevadas taxas de evaporação da água armazenada em albufeiras, açudes ou lagoas e se não houver precipitação durante esse mesmo período levam a uma diminuição muito acentuada das reservas de água e consequentemente á seca.

As utilizações da água armazenada para rega agrícola ou para utilizações no abastecimento de água a populações ou industria também levam a que estas reservas diminuam mais rapidamente. Outro aspeto a considerar de grande importância na gestão da água nestes períodos de seca está relacionado com a gestão dos caudais de rios internacionais. A seca faz-se sentir em toda a península ibérica, não se limita somente a Portugal, e Espanha tem políticas de distribuição da água pelo território que envolvem o transvase entre rios.

De acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger que é o sistema de classificação global dos tipos climáticos utilizados na área da climatologia, Portugal está classificado como clima temperado húmido com verão seco e quente (Csa) a sul e clima temperado húmido com verão seco e temperado (Csb) a norte. A sigla Cs representa clima temperado húmido com verão seco, clima mediterrâneo.

Desde final de Fevereiro e início de Março de 2015 que estamos com níveis baixos de precipitação e a situação tem vindo a intensificar-se gradualmente ao longo dos meses de Maio, Junho e Julho. Segundo o boletim mensal do IPMA, em Maio de 2015, os valores eram de 9,9 % do território em seca fraca, 35,3 % moderada, 53,4 % em seca severa e 1,4 % em seca extrema e em Julho de 2015, 11,6% do território encontra-se em seca fraca, 9,8 % moderada, 60,1% em seca severa e 18,5 % em seca extrema. Houve um agravamento da situação.

O clima dominante na península ibérica induziu as espécies de flora selvagem a adaptarem-se a este tipo de condições adversas e uma das principais implicações das temperaturas elevadas e valores mais baixos de humidade é a facilidade de ocorrência de incêndios. Os prejuízos económicos para as zonas florestais e muitas vezes de áreas protegidas, da rede nacional de áreas protegidas (RNAP), podem ser elevados e ter consequências no transporte de sedimentos e de solo por falta de fixação do mesmo devido à inexistência de coberto vegetal no período após o incêndio. De igual modo, as produções agrícolas têm sido ajustadas e adaptadas ao longo dos anos para estar de acordo com as características do clima, podendo algumas ser afetadas positiva e outras negativamente. Durante o período de seca, podem apontar-se alguns exemplos de impactos negativos na seca como o escassear da alimentação animal que tem de ser compensada por falta de pastagens e as zonas com culturas de regadio também são fortemente afetadas.

Outro fator critico durante os períodos de seca e que afeta negativamente o ambiente está relacionado com as políticas de alguns países como a Espanha que promove os transvases de rios para fazer face às dificuldades dos períodos de seca. Os transvases no rio Tejo para o Guadiana em Espanha têm afetado o caudal do rio Tejo em Portugal em determinadas zonas. O nível de água em determinadas zonas é de tal modo baixo que impossibilita a deslocação de embarcações privadas e utilizadas para atividades turísticas no rio. O incumprimento da manutenção dos caudais mínimos acordados tem implicações nas atividades económicas locais. A maioria da água proveniente de Espanha no Tejo, por exemplo, resulta maioritariamente da descarga de efluentes do tratamento de águas residuais de Madrid e das zonas envolventes. É importante assegurar um nível regular dos caudais do rio adequados à preservação dos ecossistemas aquáticos e à utilização dos equipamentos de turismo e lazer pelas populações ribeirinhas. Para além disso, é necessário assegurar que a qualidade da água é boa para a manutenção do rio “saudável” ao longo do seu percurso.

As utilizações e consumos de água excessiva pode afetar negativamente as reservas hídricas e ocasionar impactos no ambiente. Durante a seca, as populações, atividades agrícolas e indústrias devem ser alertadas para os consumos racionais de água durante a seca para garantir a sustentabilidade do recurso hídrico, em termos quantitativos e qualitativos. A qualidade da água tende a diminuir nos períodos de seca e o custo de tratamento da água, quando necessário, tendem a aumentar.

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Ricardo Salgado

Coordenador do curso de Engenharia do Ambiente
Docente e coordenador do curso de Licenciatura em Engenharia do Ambiente da ESTSetúbal; Investigador na área do Ambiente, em particular no tratamento de águas residuais.

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