Peço que não considerem pretensioso o título que dei a este escrito. “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, disse Pascal e é isso que justifica a “vaidade” que tenho em ser setubalense. Eu amo mesmo Setúbal. No meu coração senti grande orgulho, no passado domingo, ao ver, num dos canais televisivos, uma reportagem sobre o Mercado do Livramento.

Tudo o que é mostrado e dito sobre esta minha terra, enche-me o âmago de regozijo. Nem poderia ser de outra maneira para quem nasceu, vive e deseja partir para a outra Vida numa urbe como Setúbal que se deixa beijar pelo rio Sado e se abriga nas orlas da imponente Serra da Arrábida. A Natureza foi muito pródiga connosco. Pôs à nossa disposição várias pérolas preciosíssimas, sendo as duas já referidas as mais significativas: uma considerada das mais belas Baías do mundo e outra há de ser um dia (que não tarde) Património Mundial da UNESCO. Mas o clima, os solos, o mar onde desagua o Sado, o posicionamento geográfico são outras riquezas. Foram algumas delas, sobretudo o rio e o mar, que fizeram vir para Setúbal gente de todo o país e dos 4 cantos do mundo. Foi o setor secundário do desenvolvimento, fundamentalmente a Indústria, o responsável pelo maior crescimento demográfico do concelho, pela sua diversidade cultural e religiosa e pela diferenciação económica. Esta acelerada expansão populacional impediu a concretização de um planeamento urbanístico mais rigoroso, tendo sido muito difícil, e julgo que continuará a ser, aos autarcas encontrarem soluções reparadoras de alguns atentados urbanísticos, compensando-os com outras realizações atrativas. Este esforço é notório, o que fez que fossem profícuos os últimos anos. Acredito que nem todos os setubalenses já se tenham apercebido disso. Uns por distração, outros por falta de conhecimento, mas também haverá quem viva “fechado na sua concha” e não valorizem as transformações positivas que têm beneficiado a nossa terra.

Estou convencido de que ninguém, no passado domingo, deixou de sentir o brio de ser de Setúbal. Todo o país ficou a conhecer um dos espaços mais tradicionais e visitados deste concelho: o Mercado do Livramento. Já era famoso pelas lindas e atrativas bancas de peixe, de frutas, de hortícolas, de flores. Mas agora estes produtos tornaram-se mais apetitosos com a inteligente remodelação de que foi alvo. Temos um espaço comercial mais identificado com a originante identidade sadina sem esquecer a sua apresentação e organização. É uma beleza. Após a reportagem televisa que mostrou como não estou a exagerar e até deu voz a quem quase “nasceu” e sempre viveu do mercado que deu certifica esta minha opinião. Foi atribuída à produção da telenovela “Mar Salgado” a possibilidade de “levar mais longe” o conhecimento de Setúbal e das suas potencialidades. Todas as noites a nossa bela e promissora terra passou a ter a feliz oportunidade de entrar em casa de todos os portugueses. Parece que uma das consequências é, desde já, o aumento do turismo. Ótimo! Mas ainda poderemos fazer mais, apostando no enoturismo, na realização de feiras gastronómicas noutras regiões de Portugal e do mundo, na promoção de diversas atividades náuticas, na recuperação total do Convento de Jesus a juntar à criação de, pelo menos uma, unidade museológica que faça memória do setor industrial que tanto têm marcado o nosso concelho. A “cereja em cima do bolo” seria a implementação de uma empresa de conservas de peixe. Não teria, decerto, uma influência significativa no PIB concelhio, mas seria um ex-libris e, sobretudo, um gesto de reconhecimento a muitos homens e mulheres que, em tempos idos mas não esquecidos, contribuíram, em condições por vezes desumanas, para o aumento da riqueza da nossa terra e deixaram-lhe uma matriz identitária indelével.

Mas Setúbal o que tem mesmo de valioso é a sua gente. Os que nela nasceram os que, um dia, vieram e não querem mais partir. Por isso, não se entregue a responsabilidade de fazer o melhor por esta sua terra apenas aos autarcas, aos empresários, às muitas associações existentes. Cada setubalense tem que se assumir como co – construtor do desenvolvimento integrado e integral da nossa terra. Que não sejam necessárias apenas telenovelas ou outros agentes externos a preocuparem-se com a divulgação das potencialidades de Setúbal. Que cada setubalense se assuma com dinamismo e credibilidade, embaixador dela.

Fotografia de Effervescing Elephant

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Eugénio Fonseca

Presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal e da Cáritas Portuguesa
Nasceu em Setúbal, onde ainda reside, no seio de uma família católica e de origem humilde, cujo rendimento vinha do trabalho na pesca e na indústria conserveira. Com os irmãos fez um percurso de crescimento consciente das dificuldades dos seus pais e do enorme esforço para que os estudos estivessem sempre em primeiro lugar. Assim prosseguiu os seus estudos tendo completado a licenciatura em Ciências Religiosas pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. No âmbito social e eclesial tem assumido, desde a juventude, várias responsabilidades com destaque para a presidência da direção da Cáritas Diocesana de Setúbal, cargo que exerce desde 1987 e a presidência da Cáritas Portuguesa, desde 1999. O seu trabalho e empenho na luta pela justiça social, tem sido reconhecida de várias formas pela sociedade civil, religiosa e política. Em 10 de Junho de 2007 foi agraciado por S. Ex.cia o Senhor Presidente da República com a Ordem de Mérito de Grande Oficial. Em 2014 tomou posse como vogal do Conselho das Ordens de Mérito Civil. É também professor do ensino secundário.

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