É sobretudo comum verificar durante o período de férias a publicação de fotografias nas redes sociais. Estas publicações mostram aos outros, por exemplo, o quão agradável é aquele fim de tarde, o hotel onde se está, a piscina onde se mergulha, a areia da praia que se pisa ou até o prato servido naquele restaurante.
Porém, muitas publicações vão para além do sol, do hotel, da água, da areia ou da comida do restaurante. Nessas “paisagens” são colocadas imagens dos próprios, dos amigos e de filhos menores também. É sobre a publicação de fotografias de crianças que a PSP volta a fazer o apelo junto aos pais, sugerindo que não sejam colocadas fotografias com os nomes, local onde se encontram e a sua cara.
Este alerta deve ser entendido pelos pais como forma de protegerem os seus filhos. Contudo, apesar da constante matéria publicada sobre o assunto durante todo o ano, exactamente a alertar para os perigos inerentes a esse tipo de divulgação, o que se constata é que, sobretudo na altura das férias, as redes sociais são invadidas por fotografias que mostram onde estão, quem são e como se chamam os mais novos.
Acredito que na maioria das vezes o procedimento surja de forma ingénua, considerando-se apenas que quem tem acesso são os amigos que fazem parte da lista e que por isso não há qualquer problema. Porém, a verdade é que, uma vez acessível, o controlo sobre qualquer que seja a fotografia publicada, depressa deixa de estar ao alcance de quem a colocou.
É também curioso pensarmos que muitos dos pais que publicam fotografias dos filhos acham impensável que as (suas) crianças possam ter página, por exemplo, no facebook, exactamente devido aos perigos e aos receios associados à “internet”. Ora, sendo vistos como modelos, a leitura que os filhos podem fazer é a de que “se os pais publicam é porque não há problema”, isto é, se os pais colocam fotografias minhas, um dia também vou poder partilhar.
Também o orgulho que possamos sentir dos nossos filhos e a vontade, por vezes, incessante, em querer mostrar aos outros essa admiração, leva-nos muitas vezes a “esquecer” dos perigos das publicações que ilustram isso mesmo (o quanto são bonitos, especiais, atléticos, intelectuais…).
Porém, o orgulho que sentimos nas nossas crianças e a alegria que vivemos durante o período de férias, pode bem, digo eu, ser registado e vivido de outras formas sem que, necessariamente, tenhamos que mostrar ao mundo. Podemos simplesmente dizer-lhes, apreciar.
Há uma privacidade pessoal que merece ser respeitada e os filhos, afinal de contas, “não são coisas ou objectos pertencentes aos pais”. Relembro também, a propósito do modelo que os pais representam para os filhos, que a educação deve ser feita através do exemplo.
Por fim, resta-me acrescentar que as fotografias que se tiram com o coração relativas aos momentos especiais vividos, jamais se eliminam e ficam registadas para todo o sempre. Essas não se publicam, são só de quem as viveu, simplesmente porque a máquina do coração assim não o permite.
Aprenda a usar e ensine o seu filho a recorrer mais vezes a essa máquina. Corre o risco de perceber que há momentos só seus e que não vai querer partilhá-los com mais ninguém.

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Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

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