É natural associar a fruta ao verão e é reconfortante saber que na península de setúbal se pode aceder a diferentes alimentos na época própria e assim tirar partido de uma serie de vantagens: primeiro para a saúde; e depois porque nos permitem aprofundar a nossa cidadania, quer no plano ambiental (porque muitos alimentos são transportados ao longo de milhares de km!), quer na defesa da economia local e da soberania alimentar – com efeitos positivos para a balança de pagamentos do nosso país. Sim a solidariedade começa dentro das nossas portas!

Os diferentes instrumentos de planeamento sobre o desenvolvimento rural da península de Setúbal referem sempre a boa potencialidade da região para a fruticultura – a par da vinha, das hortícolas (cenoura, batata e cebola) da floricultura e das pescas.

A “Laranja de Setúbal”, o “Carapau Manteiga de Setúbal” e a “Maçã Riscadinha de Palmela” – que entrou para a lista europeia de produtos com Denominação de Origem Protegida (DOP) em 2013 comprovam a ligação antiga e reconhecida da região à fruticultura. Reconheço que este assunto me toca particularmente porque tenho colaborado ativamente em iniciativas destinadas à promoção das variedades regionais como o comprova um texto que escrevi há 19 anos sobre a Maçã Riscadinha de Palmela e que a seguir transcrevo:

A selecção natural e a sabedoria do Homem elegeram, ao longo dos séculos, para cada região, as plantas e as práticas culturais mais indicadas. Pode dizer-se que estas plantas não têm o “pecado ambiental”. Relacionam-se harmoniosamente com a flora e a fauna locais, não promovem o esgotamento dos recursos, nem concorrem para a degradação do ambiente. Para além dos seus importantes contributos para a natureza e para o seu equilíbrio, algumas proporcionam ao Homem a sombra, o ordenamento, as essências e outros produtos de excelência. Há ainda um reduzidíssimo número de plantas que conseguem impressionar os nossos sentidos de uma (porque muitos alimentos são transportados ao longo muitas vezes de milhares de km) forma única e total, uma vez que nos proporcionam frutos inimitáveis que valem, simultaneamente, pelo sabor, pela cor, pelo cheiro e pelo tacto. Quanto à audição há quem diga que se as pusermos bem perto dos ouvidos, também conseguiremos ouvir o delicioso marulhar das ondas da Costa Azul!… Entre elas encontra-se a Maçã Riscadinha de Palmela, uma maçã circunscrita à região de Palmela caracterizada pelo ”inexcedível aroma e beleza do colorido da epiderme”. (Manuel Meireles, 1996).

Então o que é feito da Maçã Riscadinha de Palmela que é a primeira maçã regional a entrar em produção? O que se passa com os pomares que havia na Península de Setúbal?

Os Recenseamentos Agrícolas realizados em 1999 e em 2009 comprovam uma redução muito grande na área dedicada a pomares no território acima referido. Por exemplo, os citrinos passaram de 762 para 380 hectares, respetivamente e os pomares de frutos frescos passaram de 793 para 365 hectares! Para além destas reduções todos sabemos que muita desta fruta não chega ao mercado e muita dela nem sequer é colhida! Era tão bom que esta última chegasse ao Banco Alimentar!

Tem-se verificado nos últimos anos a recuperação de algumas variedades regionais como é o caso da Maça Camoesa ou Férrea da Azoia, que se tem comercializado com algum sucesso e damos nota da instalação de uma coleção de variedades regionais em Sesimbra.

No que diz respeito aos pequenos frutos, para além do tradicional morango que continua a produzir-se nesta região há também a instalação de pomares com novas espécies como é o caso dos mirtilos e dos goji, o que nos permite consumir localmente frutas lá de fora e manter a coerência.

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Manuel Meireles

Delegado Regional da DRAPLVT

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