Não consigo viver sem o voo dos pássaros. Sem a linha do horizonte definida no lado de dentro da própria vida. Sem imaginar a intemporal construção das pontes, físicas e simbólicas, que ligam pessoas, entre si. Sem criação, interpretação e arte. Sem cultura.


E, no entanto, vivo. Por isso, a matéria de que sou feito chama-se carne. (Uma irónica estranheza acode, quando penso que duas em cada três partes do meu corpo são, apenas, líquido. E poderiam fugir-me entre os dedos como se fossem água…) Por isso, espero mais do mundo, para além do vento, de uma promessa ou vã fantasia. De que valeria ter olhos e pressentir os sons do vasto longínquo, se as estrelas não brilhassem na noite escura? Ou se as nuvens se limitassem a percorrer os céus, de magro e imperturbável azul, sem deixar tombar de vez em quando algumas gotas de água? – para, depois, seguirem imperturbáveis num caminho já conhecido.


Vivo. Nesta permanente e errante busca de futuro é que vivo.


Não seria pele. Nem sentidos. Nem tão-pouco sentiria o ruborescer das faces, perante a imensidão da beleza. Ou, ao avistar a vergonha da pobreza, enterraria os olhos no chão em que me sustento, de pé. Não seria pele, se acaso os teatros fechassem. Se os livros não fossem impressos. Ou se perdessem as cores vivas, as tintas com que se reinscrevem as paisagens.


Tudo isto é arte. É cultura. Porque é, em estado vivo, tudo aquilo que persiste para além de um nós físico. É tudo aquilo que nos une e identifica, vivos e atuantes. Enfim, tem um valor sem fim. Não tem preço estimado, nem nunca o terá.


Está na hora de os artistas e os cidadãos, em geral, afirmarem a sua vontade. Esta é a hora do direito ao protesto. Indignação. Recusa destas políticas que matam a cultura. E nos matam a todos, aos poucos. Em lume brando. Censura de máscara e fantasia trágicas.


De uma vez por todas, não podemos esperar mais. Agir. Agir e mudar políticas e decisores políticos. Amanhã poderá ser tarde de mais.

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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