Mil e uma vezes, vezes mil ou mais vezes, direi. Direi e digo. Digo que o teatro faz falta. Que o teatro está vivo, nos diversos corpos em que se manifesta. O teatro é uma das mais hábeis invenções da humanidade. Sem o teatro não existiriam sociedades humanas, tal como as conhecemos. Hoje, como há mais de dois mil e quinhentos anos. Nem cidade. Nem comunidade.


O teatro que conta histórias, ou já não. O teatro que entoa as palavras dos poetas ou que evolui para o gesto, e explora os silêncios expressivos. A arte da transfiguração do corpo, da voz e das emoções. Isto é o teatro, hoje, como o foi sempre.


O 27 de março, o dia mundial do teatro pode até ser um pretexto para declarações públicas, a oportunidade ideal para fazer ouvir as muitas manifestações de solidariedade, bem necessária. O dia do teatro, no final de março, é todavia todos os dias, num só dia. Para quem fez a escolha, profissional ou não, todos os dias são igualmente importantes. Talvez, como acontece para o aniversariante, na sua data de nascimento, seja pretexto para festejar – afinal, consegui sobreviver a mais estes 365 dias, pensamos intimamente. E continuamos, nuns dias mais felizes, noutros mais sofridos. Mas tudo volta ao lugar, mais tarde ou mais cedo, tudo se transforma em flores e aplausos, no final da função. Mesmo que para que isso aconteça deva fechar-se o pano, e que as luzes da ribalta ou da teia se apaguem – até à próxima noite de espetáculos…


O mundo continua a girar independente, “mas não indiferente, acredito firmemente”, dos acontecimentos do dia. Conta-se que uma atriz, sem outra alternativa, improvisando, cheirou papel rasgado quando deveria ter feito referência a papel queimado. A cena anterior terá corrido mal. Não foi queimada a folha de papel, como estava estabelecido na marcação da cena, talvez por falta de fósforos, terá sido apenas rasgada. E, no entanto, com multa certa e reprimenda na tabela, para o ator que falhou a deixa, o teatro continuou até hoje. Até um dia futuro. Ou não será assim?


Ora imaginem lá o mundo sem as histórias contadas, sob a iluminação focada para sublimar o gesto mais subtil e a expressão do agradecimento. Sem a entoação emocionada, na voz de uma personagem de teatro. Sem a companhia do espetador, sentado na cadeira 10 da fila D. Sem a tosse da espetadora da fila de trás. Sem o riso da criança, animada pelas aventuras dos seus heróis no palco.


Viva o teatro! Vivam os atores e as atrizes, os dramaturgos, os técnicos e todos os trabalhadores do espetáculo.

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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