Realizou-se no passado fim de semana, na FIL (em Lisboa) a 11ª Edição do Salão Motorclássico, Salão Internacional de Automóveis e Motociclos Clássicos, que é organizado anualmente pelo Museu do Caramulo.


O Salão Motorclássico é dedicado exclusivamente ao mundo do automóvel e motociclo clássico, com entidades tão variadas como stands de automóveis, motociclos e velocípedes clássicos, oficinas especializadas e fornecedores de peças, entidades institucionais como museus, clubes, associações, rallys e publicações, automobília e miniaturas de coleção.


Este ano uma das atrações do certame foi o Mercedes-Benz Typ 770K Großer (W07) blindado de 1938, utilizado por António de Oliveira Salazar. Estes Mercedes-Benz, introduzidos em 1930, possuíam um preço elevado tendo sido utilizados principalmente como veículos de Estado. O presidente do Reich Paul Von Hindenburg, o Imperador japonês Hirohito, o Papa Pio XI e Adolf Hitler foram alguns dos seus utilizadores.


Mas não é apenas pela sua raridade (apenas 117 carros desta série foram construídos) nem pelo seu excelente estado de conservação, a sua atração prende-se com o facto de ter sido utilizado pelo Chefe de Governo da altura. António de Oliveira Salazar.


Para quem não conhece ou não se recorda deste período da história portuguesa o melhor será consultar o “Google”… Mas deixo aqui algumas informações sobre o regime de então, o chamado “Estado Novo”, por exemplo, eram proibidas as organizações de trabalhadores, as associações livres (juvenis, culturais, etc.) e os partidos políticos, só era permitido o partido único do regime, a “União Nacional”. Além disso a polícia política (PIDE) juntamente com as restantes forças policiais (GNR, PSP) e de defesa do regime (“Legião Portuguesa”, “Mocidade Portuguesa”) implantavam o terror e a perseguição a tudo quanto não alinhava com o “pensamento único” de então – os opositores ao regime eram enviados para o campo de concentração do Tarrafal, para as prisões ou eram assassinados…


Curiosamente o Chefe de Governo da altura sofreu, ao longo do seu longo “reinado”, um só atentado (a 4 de julho de 1937), à bomba, que danificou o Buick em que seguia e abriu um buraco na Av. Barbosa du Bocage. O Chefe de Governo saiu ileso deste incidente.


Mas voltando aos automóveis, como resposta a este incidente a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (precursora da PIDE) tratou de encomendar, a 27 de Outubro de 1937, dois modelos Type 770 Großer com carroçaria blindada Pullmansteel (que oferecia níveis de conforto e luxo inigualáveis, destinada a rivalizar com modelos semelhantes da Rolls-Royce). Dada a especificidade do modelo, a encomenda tardava em chegar e por esse facto foi comprado a 22 de Novembro de 1937, um Chrysler Imperial blindado, baseado no Chrysler Imperial de quarta geração, equipado com motor V8 Flathead, de 5,3 litros de capacidade com 140 cavalos de potência, caixa de três velocidades, 2.650 quilogramas de estrutura resistente, com uma velocidade máxima de apenas 130 Km/h, pensado para transportar em conforto personalidades expostas a perigos.


Mas finalmente em Junho de 1938 são postos a disposição dos Presidentes da República e do Conselho, General Óscar Carmona e Prof. Oliveira Salazar. Salazar, que não fora consultado sobre a aquisição destes automóveis, logo manifestou o seu descontentamento, recusando-se a utilizar o Mercedes-Benz que lhe fora atribuído por ser um automóvel demasiado ostensivo.


O automóvel foi utilizado apenas uma vez, por ocasião da visita oficial do Generalíssimo Franco, em 1949, daí só acusar 6.000 quilómetros quando, em 1955, é mandado vender em hasta pública.


Como nota aponto que ainda hoje há quem considere que este veículo foi um presente de Hitler, o que acrescenta algo ao seu “encanto”.


Em 1947 (no pós 2.ª Guerra Mundial), o Estado Português mandou comprar dois automóveis Cadillac 75, eram os automóveis de maior prestígio da indústria dos Estados Unidos da América, com uma distância entre eixos de 3.500 mm e uma carroçaria distinta das restantes produzidas pela marca. Equipado com um motor V8 de válvulas laterais de 1938, com 5,7 litros de capacidade e 150 CV de potência.


Desde então e até à sua morte, Salazar usou sempre o Cadillac que lhe estava destinado, tendo recusado um Mercedes-Benz 600 (uma limusina de 8 lugares, adquirido numa onda internacional de compra das limusinas Mercedes 600, que valia 30 Morris Mini), por entender que o Cadillac continuava em bom estado e servia muito bem para o seu serviço oficial.


Como nota final, o Cadillac Series 75 encontra-se atualmente exposto no Museu do Caramulo, assim como os outros modelos utilizados pelo Chefe de Governo, e o seu interior encontra-se em perfeito estado de conservação, por ter sido protegido na altura com capas nos bancos, por ordem de Salazar. Então tínhamos um chefe de governo que não queria ninguém a pensar diferente do “pensamento único” de então, mas que não gostava de carros muitos ostentosos e que colocava capas nos bancos para os conservar… Atualmente é tudo muito diferente, somos livres de nos reunir, de pertencer a associações e a partidos, os opositores já não são enviados para campos de concentração ou mortos e os nossos governantes não põem capas nos bancos…


Pense nisso…

Fotografia de capa por That Hartford Guy

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Rui Pereira

Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte
Nascido em Setúbal, Licenciado em Arquitetura pela Universidade Moderna de Setúbal, Licenciado em Engenharia Civil pela Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – IPS, inscrito nas respetivas Ordens Profissionais e Doutorando em Arquitetura, especialidade de Teoria e Prática do Projeto, na Faculdade de Arquitectura – ULisboa. Domínios de atividade profissional: Gestão de projetos e obras, Auditoria e Fiscalização, Consultor e Formador. Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte desde 2008.

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